Lagoa da Conceição tem “zona morta” após desastre ambiental, diz pesquisador da UFSC

Biólogo alerta que nível de oxigênio na água ficou perto de zero na quinta (28), o que põe espécies em risco; Casan afirmou nesta sexta (29) que "ainda não tem dimensão do impacto ambiental do evento"

Após três dias do rompimento da estrutura de esgoto tratado da Casan, os níveis de oxigênio na água no Centro da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, se aproximaram de zero nesta quinta-feira (28), criando uma “zona morta”.

A análise é do biólogo e professor dos cursos de pós-graduação em Ecologia e Oceanografia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Paulo Horta.

Peixe morto na Lagoa da ConceiçãoPesquisador alerta para índices de oxigênio muito baixos na Lagoa da Conceição podem matar animais e organismos marinhos – Foto: Leo Munhoz/ND

Nesta sexta-feira (29), a Casan foi questionada pela reportagem em relação à constatação do pesquisador Paulo Horta sobre os índices de oxigênio da água, além do que está sendo feito para amenizar os estragos ambientais desde o rompimento.

Por meio de sua assessoria, a empresa respondeu que “desde segunda-feira, os técnicos da Companhia estão fazendo coletas diárias das águas da região, tanto da Lagoa da Conceição quanto no entorno, com o intuito de monitorar a qualidade da água nos diversos parâmetros, conforme a Resolução CONAMA 357/2005”.

Afirmou ainda que “no momento, a Casan ainda não tem a dimensão do impacto ambiental de todo o evento, que envolve o excesso de chuvas, segundo dados da Epagri-Ciram, e o impacto direto devido ao deslizamento”. Além disso, a companhia alegou que está em contato com os laboratórios especializados da UFSC para elaborar um plano de diagnóstico e recuperação dos danos ambientais, mas que a prioridade é o atendimento às famílias.

Extensão dos danos

A falta de oxigênio apontada por Horta implica em sérios problemas aos organismos que vivem no fundo da lagoa, como siris, camarões e linguados. Segundo ele, se nada for feito, “[os animais] terão que se deslocar ou vão acabar morrendo”, destaca o pesquisador.

Rompimento da lagoa artificial de tratamento de efluentes da Casan causou danos ambientais na Lagoa da Conceição e materiais aos moradores – Foto: Leo Munhoz/NDRompimento da lagoa artificial de tratamento de efluentes da Casan causou danos ambientais na Lagoa da Conceição e materiais aos moradores – Foto: Leo Munhoz/ND

Isso significa que está havendo, de certa forma, “a expansão de região conhecida como zona morta, em que o oxigênio fica abaixo de 2,5 ml/l, uma saturação baixíssima, da ordem de 10%”, diz.

Paulo Horta é doutor em Ciências Biológicas pela USP (Universidade de São Paulo) e pós-doutor em Ecologia Marinha pela University of Plymouth, no Reino Unido. Ele estava de férias da universidade, mas diante do desastre ambiental, se colocou à disposição para ajudar.

“Está todo mundo muito sensibilizado, eu sou funcionário público e estou aqui para isso. Interrompi as férias para ajudar as pessoas porque é uma calamidade”, ressalta.

O pesquisador é um dos signatários da nota técnica da UFSC que alerta para dos danos ambientais da enxurrada da Lagoa da Conceição. “É triste o cenário porque, infelizmente, aquilo que a gente previu na nota está se concretizando”, lamenta. 

Peixe morto na Lagoa da ConceiçãoPesquisadores da UFSC pedem que população registre os animais mortos na Lagoa da Conceição após o desastre ambiental – Foto: Redes Sociais/Reprodução/ND

Animais mortos estão sendo vistos ao longo dos dias durante esta semana, segundo Horta.”Capturei um siri morto hoje”, lembra. Assim, um grupo da UFSC está reunindo informações para dimensionar o problema.

O projeto Ecoando Sustentabilidade, do qual Horta participa, está realizando uma campanha com a #desastrelagoa. A proposta é pedir ao público que registre fotos nas redes sociais dos animais mortos na Lagoa da Conceição após o desastre ambiental, com data, local e horário.

O que o rompimento da estrutura de tratamento de esgoto significa

Com a presença de efluentes — esgoto em continuidade de tratamento — vindos da lagoa artificial da Casan que se rompeu na segunda-feira (25), compostos químicos que não estariam presentes na água deixam o ecossistema em desequilíbrio, segundo Horta.

“Fizemos a análise da água e constatamos que está com excesso de matéria orgânica, está eutrofizada, o que quer dizer que está fora de seu equilíbrio porque vem recebendo uma quantidade maior de nutrientes de matéria orgânica do que aquele sistema é capaz de absorver”, explica o biólogo. 

Assim, o excesso de matérias orgânicas se comporta como fertilizantes em ambiente de água, o que favorece o surgimento de espécies aquáticas e pode mudar o ecossistema da região. “Pode ter uma explosão de uma população em detrimento de outras, o que gera um desequilíbrio ambienta ecológico”, afirma. Os resultados ainda serão detalhados e estão em análise pela equipe da UFSC.

Quais são os danos a longo prazo?

Ainda não é possível dimensionar o que pode acontecer aos animais e às plantas da Lagoa da Conceição. Horta aponta que “é difícil estimar porque não foi publicizado ainda o dado do volume total da carga de nitrogênio e de fósforo, além de outros nutrientes que tinham na água daquele ambiente para fazer esse cálculo com mais precisão”.

Contudo, o biólogo alerta que algo precisa ser feito imediatamente. “A ausência de ação agora deve intensificar um ciclo vicioso: você tem muita matéria orgânica, muito nutriente, tem floração de organismos que ocupam toda a superfície da coluna d’água. Com isso, falta luz no fundo da lagoa e, assim, morrem os organismos que estão em profundidade maior por falta de oxigênio”, constata.

O que pode ser feito para mitigar os estragos

Com o fim do verão, o pesquisador afirma que a baixa temperatura diminui a radiação solar e pode-se “ganhar tempo” para a renovação da água natural. “Estamos poluindo toda essa região costeira, mas pelo menos o problema agudo a gente não deve observar. Mas é muito importante que alguma coisa seja feita”, reitera.

Algumas alternativas são levantadas pelo biólogo. Realizar uma lagoa de estabilização e parques úmidos, por exemplo. De qualquer forma, ele aponta que é necessário envolver a comunidade no processo de decisão.

Moradores limpam o lodo e a sujeira causada pelo rompimento da estrutura de tratamento de esgoto – Foto: Leo Munhoz/NDMoradores limpam o lodo e a sujeira causada pelo rompimento da estrutura de tratamento de esgoto – Foto: Leo Munhoz/ND

“Muitos dos moradores da Avenida das Rendeiras não sabiam o que estava acontecendo atrás das suas casas. É muito importante que o tratamento de efluentes seja revisto e de fato deixe de ser algo que fica debaixo da terra”, afirma Horta. Ele aponta que o lixo e o esgoto podem gerar emprego e renda, além de criar uma relação com o ambiente natural muito diferente do que a população está acostumada. 

Conforme as análises seguiam, ele conversava com os moradores da Lagoa. “Você olha nos olhos das pessoas e vê desalento, falta de esperança. Nós já vivemos tanta tristeza por conta da pandemia, a gente poderia ‘aproveitar’ mais essa desgraça e criar esperança no coração das pessoas e construir junto as soluções”, finaliza.

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