Mutirão e solidariedade marcam rotina de atingidos por desastre na Lagoa da Conceição

Moradores recebem ajuda de parentes e amigos, enquanto Casan, Defesa Civil e prefeitura de Florianópolis tentam amenizar os problemas provocados pelo rompimento da lagoa artificial

Mais de 48 horas após o rompimento da lagoa artificial da Casan, a servidão Manoel Luiz Duarte, na Lagoa da Conceição, ainda apresenta um cenário de destruição em meio a um mutirão para limpeza das residências e desobstrução dos terrenos. Caminhões, retroescavadeiras e até uma mini carregadeira eram utilizados para remover entulhos, areia e lodo.

Máquina trabalha na remoção da areia acumulada no terreno. Foto: Leo Munhoz/NDMáquina trabalha na remoção da areia acumulada no terreno. Foto: Leo Munhoz/ND

Equipes da Casan e da Defesa Civil montaram um QG no pátio da casa de número 102 da servidão para fazer o cadastramento dos atingidos para distribuição do kit dormitório (colchão, travesseiro e fronha) e de donativos arrecadados pela Rede Solidária Somar Floripa, Defesa Civil municipal e Secretaria Municipal de Assistência Social.

Vacinas contra o tétano foram disponibilizadas pela Secretaria municipal de Saúde, mas o número de 30 foi insuficiente para atender a todos os atingidos, que foram orientados a procurar o posto de saúde.

QG da Defesa Civil foi montado no patio da casa número 102. Foto: Leo Munhoz/NDQG da Defesa Civil foi montado no patio da casa número 102. Foto: Leo Munhoz/ND

Os estragos foram tantos que os trabalhos de limpeza e reconstrução devem prosseguir durante a semana. A reportagem do ND voltou ao local para conferir a situação dos atingidos. Confira:

Motocicleta sepultada na Lagoa

O motoboy Marius Leonardo Soares Bruno, 27 anos, encerrou ontem à tarde as buscas pela moto Honda CG-125 que pilotava quando as águas da lagoa artificial invadiram a Avenida das Rendeiras em direção a Lagoa da Conceição. A moto está enterrada na bancada de areia de 270 metros quadrados que se formou na Lagoa da Conceição, no ponto onde escorreu toda a água de lagoa artificial da Casan.

Marius Leonardo Soares Bruno tentou localizar a motocicleta. Foto: Leo Munhoz/NDMarius Leonardo Soares Bruno tentou localizar a motocicleta. Foto: Leo Munhoz/ND

Desde terça-feira, ele procurava localizar a moto com uma haste de ferro de três metros de extensão. Ontem, ele chegou cedo e mesmo com ajuda de detectores de metal, não foi possível precisar a localização da motocicleta.

A estimativa é de que a moto possa estar até quatro metros de profundidade. Marius foi informado por uma técnica da Casan que seria necessário fazer uma sondagem com escavação no local. Porém, é necessário obter autorização de órgãos competentes para remover a areia que literalmente sepultou a motocicleta.

Técnica da Casan informa Marius da necessidade de uma sondagem. Foto: Leo MunhozTécnica da Casan informa Marius da necessidade de uma sondagem. Foto: Leo Munhoz

Marius voltava para casa no momento em que foi arrastado pela correnteza. “Tinha uma lâmina baixa de água, e achei que dava para passar. Com moto você não pode diminuir a velocidade em alagamento, porque não pode entrar água no escapamento, mas assim que tentei passar a correnteza já me derrubou”, conta o motoboy, que completava 27 anos na segunda-feira.

Ajudado por populares, Marius conseguiu se salvar, mas viu a moto ser engolida pela água em direção a Lagoa. O motoboy foi cadastrado pela Casan e deverá ser ressarcido em relação as perdas da moto e do telefone celular.

A motocicleta tinha sido comprada pelo patrão de Marius, depois que ele teve uma moto Biz roubada no final de dezembro. “É muita sorte para uma pessoa só”, ironizou, brincando com a própria falta de sorte.

Edson Moraes (centro) recebeu reforço dos irmãos para limpar a casa. Foto: Leo Munhoz/NDEdson Moraes (centro) recebeu reforço dos irmãos para limpar a casa. Foto: Leo Munhoz/ND

O encarregado de serviços gerais Edson Moraes contou com apoio de seis irmãos e do amigo Emir Manoel Cardoso para limpar uma casa e uma quitinete, que foram invadidas pela água da Lagoa Artificial da Casan. Mais de 48 horas após o ocorrido, uma parte do terreno de Moraes ainda está cheia de lodo e o veículo Fiat Idea continuava em cima de um barranco.

“Aqui era um gramadinho bem bonito. Vinha tudo quanto era passarinho”, contou Moraes, apontando para o quintal, onde também mantém uma criação de patos.  Os irmãos ajudaram Edson e a mulher Maria Enedina com a limpeza das casas que ficaram muito sujas de lodo.

Mas a situação ainda não está bem assimilada pela família. “Isso aqui virou o inferno para eles. Agora eles vão dormir com olhos e ouvidos abertos”, relatou Cardoso. “Quando chegar a época das chuvas não vamos conseguir dormir’, completou Maria Enedina.

Eles ainda tentam entender o que aconteceu com o sistema de esgoto da Casan no local. Para Moraes, a lagoa pequena só estourou porque a lagoa maior extravasou. De acordo com a Casan, houve apenas o rompimento da primeira lagoa. “Só pode ter acontecido isso, porque a água que chegou aqui estava muito suja e mal cheirosa”, argumenta Moraes.

O instrutor de surfe Roberto Carlos Vicente pulou da janela do quarto para se salvar. Foto: Leo Munhoz/NDO instrutor de surfe Roberto Carlos Vicente pulou da janela do quarto para se salvar. Foto: Leo Munhoz/ND

O instrutor de surfe e pescador Roberto Carlos Vicente, 54 anos, teve o “sonho interrompido” pelas águas da Lagoa artificial da Casan. Ele pretendia construir um quarto para morar e alugar a residência mista de alvenaria e madeira, mas o desejo terá que ser adiado, pois o piso de angelim da residência empenou. “Vou ter que fazer uma vaquinha para fazer o contrapiso de material agora”, disse Beto, que desde segunda-feira tem passado a noite na casa de amigos.

Para limpar a casa, Beto contou com ajuda dos amigos da Joaquina Surf School, que se mobilizaram ao saber da tragédia. “Se eu tivesse que limpar sozinho, estava até agora limpando. Foi muito lodo”, disse o instrutor, que perdeu móveis, utensílios domésticos e roupas.

Beto teve sorte e raciocínio rápido para conseguir se salvar na enchente, ao pular a janela do quarto e correr em direção aos fundos da casa para subir as dunas.  De lá, ele correu até o posto policial na Avenida das Rendeiras. “Os policiais ainda estavam acordando e disse que era para chamar helicóptero e bombeiros”, lembrou o instrutor.

Depois, ele ainda voltou para a servidão e acompanhou o resgate dos vizinhos feito pelo Corpo de Bombeiros  com auxílio de botes. Para Beto, a tragédia só não foi maior com vítimas fatais porque a lagoa rompeu no início da manhã. “Se fosse as duas da madrugada, muita gente teria morrido afogada”, afirma.

Vera e Irene ofereciam alimentos para atingidos e trabalhadores. Foto: Leo Munhoz/NDVera e Irene ofereciam alimentos para atingidos e trabalhadores. Foto: Leo Munhoz/ND

A solidariedade também está presente na servidão Manoel Luiz Duarte. As amigas Irene Baldassim e Vera Maria Barth percorreram as residências durante à tarde para oferecer bananas e sanduíches para moradores atingidos e quem estava trabalhando na limpeza das casas e terrenos. “É natural do ser humano ajudar”, justificou Vera.

Mais antiga moradora da servidão, Vera lembrou que o local já havia passado por algo semelhante há mais de 20 anos. Ela não soube precisar a data, mas lembra do episódio. “A infiltração deixou as pessoas com água pelo joelho. A Angela Amin era a prefeita, e a Casan não assumiu o problema”, relatou Vera, que precisou hospedar uma vizinha por 40 dias, período em que a casa dela ficou alagada.

QG montado na casa da professora Andrea Zanella (de chapéu) para atender atingidos como Betão (direita). Foto: Leo Munhoz/NDQG montado na casa da professora Andrea Zanella (de chapéu) para atender atingidos como Betão (direita). Foto: Leo Munhoz/ND

Localizada em um ponto alto da servidão, o portão da casa da professora aposentada da UFSC Andrea Vieira Zanella virou QG para os moradores retirarem as doações feitas pela comunidade. Água, material limpeza, alimentos e roupas estão entre os itens à disposição dos moradores atingidos.

“As roupas estão dentro de casa e assim eles podem escolher. Ontem, no início da noite um restaurante da Avenidas da Renderias enviou pizzas. A ACIF também enviou produtos de limpeza e higiene”, contou Zanella.

A professora assistiu ao desastre “de camarote”, já que a casa de dois andares construída sobre em um patamar superior a rua, não foi atingida pelas águas.  “Ouvi um estrondo, pensei que fosse chuva, mas na mesma hora já vi que não era, pois o barulho foi muito forte. Quando fui olhar pela janela, já estava tudo alagado, os carros boiavam, foi desesperador”, relatou .

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