Cacau Menezes

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Nota oficial da Casan sobre a Lagoa da Conceição é contestada pelos moradores

“Outra Lagoa, outro mundo”

“Incrível como é possível criar e viver em realidades paralelas. Aproximando-se do aniversário de um ano do maior desastre ambiental da história de Florianópolis, vemos a gestão da Casan tratar com desdém o gravíssimo dano causado unicamente pela omissão e negligência da companhia, que detém contrato monopolista de prestação de serviços de água e esgoto na Lagoa da Conceição.

Não é uma ilação, é um fato indiscutível. Além de não terem realizado as manutenções e melhorias necessárias no sistema de esgotamento sanitário, foram avisados e negligenciaram o alerta de um morador sobre o eminente transbordamento e risco da barragem que se rompeu. Daí em diante, a desgraça que assolou o ecossistema da Lagoa está muito longe de ter sido resolvida.

Pelo contrário, passamos os últimos dias dessa onda de calor vendo peixes, siris e camarões morrendo sem oxigênio nas margens da Lagoa. Nossos banhistas locais ou de fora são manchados por algas que se proliferaram enormemente após o desastre em decorrência das toneladas de nutrientes descarregados na lagoa e que criaram o ambiente perfeito para se reproduzirem.

A lagoa formosa que era azul, tornou-se marrom. E dependendo do vento não há mais poema ao luar, tamanho cheiro de ovo podre que dela emana vez ou outra. Não bastasse o impacto na lagoa, afetou também as dunas. Aquela falta de manutenção mencionada anteriormente ficou tão evidente que nos meses seguintes a Casan vem bombeando para o Parque das Dunas o excedente de efluente que o sistema não dá conta de absorver.

Ora, se o problema tivesse sido apenas uma chuva pontual, esse bombeamento não seria necessário agora. Tratar o atendimento emergencial para quem quase morreu afogado em esgoto como se fosse um privilégio é realmente incrível. Não bastasse a demora e uma lista de exigências desarrazoadas para indenização material, a Casan ofereceu um edital de danos morais ofensivo para reparar o dano que causou aos moradores.

Quem perdeu álbuns de fotografia, itens pessoais e familiares únicos e irreparáveis recebeu uma proposta de recompensa financeira menor do que quem perde um voo nacional. No último trimestre de 2021 realizamos uma pesquisa com os moradores da Lagoa da Conceição. Uma das perguntas era: Como você avalia a Casan? Nada menos do que 56,3% classificam como péssimo, 25,2% como ruim, 17,5% como regular, 1% como bom, e nenhum reconhecimento como ótimo.

No mundo real, esse é o resultado que a Casan entrega. Mas em que mundo estão os gestores da Casan? Bruno Negri, economista nascido e criado na Lagoa, Presidente  da Associação de Moradores da Lagoa da Conceição, fundada em 1985.

Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/NDLagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/ND

Tentam transferir a seus clientes a culpa pelo péssimo serviço prestado. O esforço da presidência da Casan em terceirizar os resultados nefastos de sua omissão e negligência é escandaloso. Incrível, no sentido literal da impossibilidade de crer no que se lê.

Poucos dias antes do péssimo primeiro aniversário do desastre que causaram, a presidência tenta empurrar para os moradores da lagoa o caos que tomou conta da nossa água após o dia 25/01/2021. Vamos aos fatos: 1: a Casan negligenciou por anos a necessidade de manutenção da LEI. E em audiência pública, questionados mais de uma vez, assumiram que NUNCA antes do desastre haviam pedido licença ambiental para a obra de limpeza da LEI. Como poderia receber a licença, então? 2: na mesma audiência pública o representante da Casan (que pasmem, não era a Presidente) disse que a adequação para tratamento terciário estaria pronta até o final de 2021. Perguntei a data e a hora, e a reposta foi evasiva, apontando para “o final do ano”.

Já estamos em 2022 e até agora nada.3: a causa da desgraça não foi a chuva. Tanto é verdade que após o rompimento apresentaram um trabalho que a vida útil da LEI seria de 30 meses. No entanto, apenas 5 meses depois e de forma emergencial, iniciaram um bombeamento de efluente para uma área de duna virgem. Causaram um estrago monumental em prol da segurança da barragem. Fica cristalino portanto que o problema foi uma chuva pontual, e sim uma incapacidade estrutural, 4: o esforço da Casan é não para que o sistema seja mais eficiente. Desconheço qualquer melhoria feita antes do desastre, de forma proativa. 5: a culpa não é dos moradores.

Em 2019 tivemos outro grave desastre causado pela casa na estação elevatória do Saulo Ramos. Análises de satélite mostram a eutrofização aumentando vertiginosamente após este evento. Num esforço coletivo, moradores e entidades pressionaram para a contratação do trato pela lagoa, que foi licitado ainda em 2020. O que o trato mostra até este momento é que apenas 1,5% dos imóveis tem algum tipo de lançamento irregular na rede de pluvial. E isso não significa que é o imóvel todo, o que reduz violentamente a estimativa de poluição gerada pelos moradores que chega diretamente na lagoa. Basta fazer a conta e ficará claro qual é o tamanho do estrago de cada um.

Rompimento da barragem, falhas numa rede velha e sem manutenção, extravasamento de estações elevatórias, descarga de efluente nas dunas. Esse é o tamanho da conta que a Casan deve pagar para a Lagoa da Conceição enquanto corpo hídrico. Nada menos do que isso. Isso não significa isentar moradores, prefeitura e todos os outros que tenham suas parcelas de culpa e necessidade de reparo. Mas é lamentável ver que a prioridade da presidência da Casan é empurrar para os outros a responsabilidade de assumir seus erros e reparar os danos causados. Bruno Negri, economista nascido e criado na Lagoa, presidente da Associação de Moradores da Lagoa da Conceição.

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