“O que o mundo precisa é de uma corrida ao topo”, diz representante da ONU

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Asher Lessels fala com exclusividade ao ND sobre os desafios das cidades para avançar na sustentabilidade

Representante da ONU (Organização das Nações Unidas), Asher Lessels fala com exclusividade ao ND sobre os desafios das cidades para avançar na sustentabilidade no futuro, como será o mundo pós-pandemia e de que forma governos e cidadãos podem se unir para criar um mundo mais sustentável.

Asher Lessels gerencia o portfólio do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) de projetos de mitigação do GEF (Global Environmental Facility) na América Latina e no Caribe.

O portfólio consiste em mais de 30 projetos que visam acelerar o desenvolvimento sustentável e de baixa emissão. Asher trabalhou por sete anos no Secretariado de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, onde apoiou países nas negociações e na formulação de políticas sobre desenvolvimento e transferência de tecnologias climáticas, inclusive no Acordo de Paris.

Asher Lessels fala com exclusividade ao ND sobre os desafios das cidades para avançar na sustentabilidade no futuro – Foto: DivulgaçãoAsher Lessels fala com exclusividade ao ND sobre os desafios das cidades para avançar na sustentabilidade no futuro – Foto: Divulgação

Quais são os principais desafios das cidades e de que forma esses temas se relacionam com a questão da sustentabilidade?

Na minha opinião, o maior desafio que as cidades enfrentam é continuar a desenvolver-se de forma a responder às necessidades de seus cidadãos e cidadãs, ao mesmo tempo em que se adapta aos crescentes impactos das mudanças climáticas.

Mais da metade da população mundial vive em cidades, e é provável que aumente para mais de dois terços até 2030.

As cidades são nossa casa e exigimos que elas nos forneçam bens e serviços para garantir nosso bem-estar e meios de subsistência, inclusive aqueles relacionados à habitação, segurança, saúde, emprego, recreação etc.

As cidades também usam uma grande proporção do suprimento de energia mundial e são responsáveis por cerca de 70% das emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas à energia, que resultam no aquecimento da Terra.

Ao mesmo tempo, apesar de serem a principal causa das alterações climáticas, as cidades também são as mais afetadas.

O aumento das temperaturas globais faz com que o nível do mar suba, o número de eventos climáticos extremos cresça – como inundações, secas e tempestades –, e amplia a disseminação de doenças tropicais.

Tudo isso tem impactos onerosos sobre os serviços básicos das cidades, infraestrutura, habitação, meios de subsistência humanos e saúde.

O novo relatório do IPCC (Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), publicado em 9 de agosto, observou que alguns aspectos das mudanças climáticas podem ser amplificados, incluindo o calor (já que as áreas urbanas são geralmente mais quentes do que seus arredores); inundações, devido a eventos de forte precipitação; e aumento do nível do mar nas cidades costeiras.

Tanto os aspectos de desenvolvimento quanto de adaptação estão intrinsicamente ligados à sustentabilidade.

Desejamos cidades que tenham ar puro para os nossos filhos respirarem, espaços verdes para brincar e relaxar ao virar da esquina de nossa casa, ruas que não alaguem e transmitam doenças pela água.

Desejamos cidades onde podemos nos deslocar para o trabalho sem passarmos uma hora e meia em um carro. Desejamos cidades nas quais nossas mães, esposas e filhas possam viajar com segurança no transporte público. 

Para alcançar esses desejos, temos que pensar em soluções de desenvolvimento urbano que considerem fatores sociais, ambientais e econômicos.

Com a pandemia, os desafios das cidades mudaram? 

Além de a pandemia apresentar um novo e trágico desafio que as cidades têm de enfrentar, eu diria que a pandemia multiplicou e ampliou alguns dos desafios urbanos existentes.

Por exemplo, na América Latina e no Caribe, em um contexto de desigualdades já amplas, altos níveis de trabalho informal e serviços de saúde fragmentados, as populações e indivíduos mais vulneráveis são os mais afetados.

As mulheres, que constituem a maioria da força de trabalho nos setores econômicos mais afetados, agora também devem arcar com o fardo do cuidado adicional.

A educação foi interrompida em toda a região. As dificuldades econômicas aumentaram exponencialmente.

Cidades, que têm recursos humanos e financeiros limitados, precisam encontrar uma maneira de se concentrar na gestão da crise de saúde, bem como enfrentar os desafios econômicos e sociais que já estavam presentes no contexto urbano e que agora foram ampliados.

Na ONU, o foco principal é apoiar e encorajar os países e cidades a “reconstruir melhor” (build back better) dos pontos baixos da pandemia.

Ou seja, como podemos facilitar uma recuperação social, ambiental e economicamente positiva? Um exemplo: a pandemia levou a um aumento exponencial na compra e uso de bicicletas à medida que as necessidades de transporte mudam.

Como podemos reconstruir, a partir dessas mudanças comportamentais, para desenvolver nossas cidades de uma forma mais sustentável? Existem muitas ideias excelentes sobre como isso pode ser feito.

O que você vislumbra para o futuro das cidades? 

Estima-se que em 2030 mais de dois terços da população mundial viverão em cidades. Assim, o futuro nos apresenta um mundo cada vez mais urbanizado.

Em relação a como serão as cidades no futuro, acredito que não haja mais do que uma opção de caminho a seguir: as cidades têm que se desenvolver de forma sustentável.

Elas têm que se desenvolver com baixas emissões de gases de efeito estufa se quisermos viver em um mundo semelhante ao que temos hoje. Não fazer isso, conforme observado nos relatórios do IPCC divulgado em 9 de agosto, levará a um mundo de efeitos climáticos extremos e fora da experiência humana de até então, incluindo aumento de secas sérias e prolongadas, furacões e inundações.

Dado o seu papel como centros de inovação e criatividade, também olhamos para as cidades para nos fornecerem respostas. Soluções e inovações de energia, construção, mobilidade e planejamento nas cidades têm o potencial de proporcionar grandes cortes nas emissões de gases de efeito estufa e fornecer outros benefícios de sustentabilidade.

Além disso, as cidades são focos de inovação local – soluções locais para os desafios locais – e o Brasil é dinâmico nessa área. Somente por meio de soluções locais iremos enfrentar os desafios urbanos de uma forma que funcione para os residentes locais e seja duradouro.

Embora eu tenha observado anteriormente que as cidades estão fazendo muito para se desenvolver de forma sustentável, devo observar que muito mais precisa ser feito.

Para muitos governos locais, um dos maiores desafios é identificar quais soluções podem funcionar no contexto local e que levarão a resultados e benefícios verdadeiramente sustentáveis.

O Brasil está fazendo muito para identificar soluções. Por exemplo, o Centro para Gestão e Estudos Estratégicos desenvolveu um Observatório de Inovações para Cidades Sustentáveis, que oferece aos gestores das cidades um vasto leque de soluções, relevantes para o contexto brasileiro, para facilitar o desenvolvimento sustentável.

As cidades serão transformadas e se tornarão mais sustentáveis, conforme as soluções existirem: energia limpa e verde está mais acessível e competitiva do que nunca.

Como observou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a Idade da Pedra não acabou porque o mundo ficou sem pedras. Acabou porque havia alternativas melhores. E o mesmo se aplica hoje aos combustíveis fósseis.

Quando se fala em sustentabilidade se pensa em ações de governos, metas globais. As administrações municipais também podem tomar medidas sustentáveis? De que forma isso acontece?

Os governos locais são a chave! E eles sabem disso. Em minhas discussões com prefeituras em toda a América Latina, da Argentina e Brasil à Costa Rica, vejo que as autoridades municipais estão pensando em como acelerar o desenvolvimento urbano sustentável.

Muitas cidades estão desenvolvendo planos locais de ação climática – Recife publicou seus planos em dezembro do ano passado, e outras cidades brasileiras também o fizeram –, que apresentam uma visão e uma lista de ações para empreender o desenvolvimento urbano sustentável e apoiar a realização de metas climáticas internacionais, bem como as metas de desenvolvimento sustentável.

Para nós, que vivemos em cidades, o governo municipal é o representante político mais próximo a quem podemos expressar nossas necessidades e preocupações.

Como eles são nossos representantes eleitos, o governo municipal está agindo de acordo com os desejos de seus residentes – para realizar a mudança positiva que desejamos.

Um grande trabalho está sendo feito por cidades de todo o Brasil e do mundo para acelerar o desenvolvimento sustentável.

O programa de cidades sustentáveis em São Paulo tem um ótimo banco de dados sobre boas práticas de medidas de desenvolvimento sustentável, que destaca o que as cidades brasileiras, grandes e pequenas, estão fazendo para o desenvolvimento sustentável.

Brasília, por exemplo, está trabalhando para limpar o solo do antigo lixão estrutural, que antigamente era o maior depósito de lixo a céu aberto na América Latina, por meio do uso de tecnologias inovadoras. Isso é feito para garantir que os resíduos não contaminem as fontes de água potável da cidade.

No passado se falava em aquecimento global como se fosse algo do futuro, mas cada vez temos as hipóteses que são reflexo do aquecimento global. Temperaturas extremas, fenômenos climáticos e até desastres. O que falta para existir um despertar coletivo para essas questões?

Boa pergunta. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, classificou as mudanças climáticas como “a ameaça mais sistémica para a humanidade”.

Ele mesmo observou que “estou começando a me perguntar quantos alarmes mais devem soar antes que o mundo esteja à altura do desafio”.

O desafio da mudança climática é duplo. Por um lado, sabemos que pode ser difícil lidar com problemas que parecem estar a anos ou décadas de distância.

Por outro lado, também temos ‘amnésia geracional’, ou seja, cada geração recebe um mundo que foi moldado por seus predecessores – e então, aparentemente, esquece esse fato.

No contexto do meio-ambiente, existe o risco que cada geração perceba o ambiente em que nasceu, por mais desenvolvido, urbanizado ou poluído que seja, como a norma.

Assim, existe o risco de percebermos o clima extremo que já nos afeta como o estado normal das coisas. E não se engane, com a temperatura global mais de 1 grau acima dos tempos pré-industriais, já estamos experimentando efeitos significativos.

Lembre-se de que, no Acordo de Paris, os países se comprometeram a restringir o aquecimento global idealmente a 1,5 grau para evitar impactos perigosos; e já estamos em 1,1.

Nosso problema não é que não saibamos o que fazer, é a rapidez com que podemos fazê-lo. O que o mundo precisa é de uma corrida ao topo, com vontade política, inovação, financiamento e parcerias.

A cada dia cresce a consciência sobre a ameaça que as mudanças climáticas representam para o nosso modo de vida; e cada vez mais estamos todos tomando medidas para enfrentar esse desafio.

Por exemplo, nos últimos anos, vimos crianças e adolescentes em todo o mundo manifestando preocupações sobre a eficácia e a ambição dos esforços atuais.

As cidades desempenharão, e estão desempenhando, um papel fundamental na conscientização e na liderança da mudança coletiva. As cidades que implementam ônibus elétricos geram entusiasmo entre os cidadãos e demonstram que os veículos elétricos não são o futuro, são o agora.

As cidades que colocam painéis solares nos telhados das escolas demonstram que a energia solar é uma forma econômica de gerar eletricidade.

Cidades que implementam sistemas de reciclagem abrangentes demonstram que a economia circular é agora. Todas essas ações ajudam a conscientizar a nós, moradores, sobre quão empolgantes e viáveis são essas soluções sustentáveis.