Pesquisadores de SC identificam 30 espécies de fungos ameaçados de extinção no Brasil

Grupo ajuda a construir primeira lista em ameaça no País e identificou que 10 espécies podem ser encontradas no Parque Nacional de São Joaquim, na Serra de Santa Catarina

Um grupo de pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) listaram 30 espécies ameaçadas de extinção no Brasil. Entre elas, 10 podem ser encontradas no Parque Nacional de São Joaquim, na Serra catarinense.

Aegis luteocontexta é uma das espécies de fungos em risco de extinção no Brasil – Foto: Divulgação/NDAegis luteocontexta é uma das espécies de fungos em risco de extinção no Brasil – Foto: Divulgação/ND

De acordo com o grupo de pesquisa MIND.Funga, as espécies são fundamentais e atuam em diversos substratos como degradadores primário de matéria orgânica, ou seja, participam da decomposição.

Os principais fatores para as espécies estarem ameaçadas estão relacionados com o declínio populacional e redução de habitat, segundo o pesquisador Kelmer Martins da Cunha, do Peld-Bisc (Programa de Pesquisas em Biodiversidade de Santa Catarina).

Os fungos desempenham um papel importante também através de suas relações ecológicas com plantas e animais. “Não tem como imaginar plantas sem fungos”, completa Kelmer.

Esta afirmação se dá, entre outros fatores, por conta das espécies estabelecerem íntimas relações com as plantas e, assim, ajudarem na captação de nutrientes e também em seu processo de defesa.

A ameaça destas espécies pode impactar todo o “caminho” da matéria orgânica e uma série de interações ecológicas que garantem a estabilidade dos ambientes naturais.

Apesar disso, o pesquisador Kelmer Martins da Cunha destaca que o grupo de pessoas focados no estudo ainda é pequeno para a importância das espécies para o planeta.

“A falta de micólogos atuando na conservação faz com que as pesquisas do tipo não sejam realizadas com frequência, e também o fato de que os fungos não recebem atenção da sociedade e cultura, se a comparação for feita com outros seres, como os mamíferos, por exemplo, contribui para que estes organismos sejam neglicenciados”, ressalta o pesquisador.

Ainda de acordo com Kelmer Martins da Cunha o Brasil tinha apenas duas espécies de fundos na lista vermelha global da IUCN (International Union for Conservation of Nature).

” No mundo, das 142.577 espécies que constam na lista vermelha global, somente 543 são de fungos, ou seja, 0,4%”, complementa o pesquisador.

Atualmente o grupo de pesquisa está se mobilizando para alterar o cenário de esquecimento dos fungos.

O MIND.Funga organizou, sob a coordenação do professor Elisandro Ricardo Drechsler-Santos e do pós-doutorando Diogo Henrique Costa Rezende, um workshop que capacitou 18 micólogas e micólogos brasileiros no processo de avaliação do grau de ameaça de extinção das espécies de fungos.

A partir da iniciativa, cerca de outras 50 espécies entrarão para a primeira lista brasileira de fungos ameaçados de extinção.

O estudo conta com o apoio do Peld-Bis, que investiga como as mudanças no uso da terra e fatores relacionados às mudanças ambientais influenciam a estrutura dos ecossistemas terrestres e aquáticos da Mata Atlântica do Sul do Brasil.

O projeto atua no Parque Nacional de São Joaquim, que abrange as cidades de Bom Jardim da Serra, Grão-Pará, Lauro Müller, Orleans e Urubici, e no Parque Estadual da Serra Furada (PAESF), localizado entre Orleans e Grão-Pará, tendo coordenação do professor Selvino Neckel de Oliveira.

Veja os fungos em risco encontrados em São Joaquim:

Aegis luteocontexta: Considerada rara, a espécie foi descoberta há cerca de 18 anos e pode ser encontrada em madeira morta e causa podridão branca;

Antrodia neotropica: Espécie arbustiva que ocorre em regiões de transição entre campos e florestas em áreas de montanha da Mata Atlântica. Ela é ameaçada por fatores antropogênicos, especialmente pelas queimadas causadas pela criação de gado e mudanças climáticas, o que faz da espécie Vulnerável;

Cinereomyces dilutabilis: Decompositora de madeira. Apesar de possuir somente 12 registros, espera-se que a espécie ocorra ao longo dos fragmentos de Mata Atlântica no Brasil e em outras áreas de floresta tropical seca na América.

Fomitiporia nubicola: Fungo degradador de madeira, encontrada até o momento crescendo exclusivamente em árvores vivas e troncos mortos de Drimys angustifolia;

Laetiporus squalidus: Espécie de fungo sapróbio e lignícola, que causa podridão marrom. Até o momento existem somente dois registros da espécie, ambos em ambientes de altitude, localizados em Floresta Ombrófila Densa da Mata Atlântica e em floresta nebular;

Meruliopsis cystidiat: Fungo sapróbio e lignícola, que tem como substrato espécies vegetais bambusícolas e arbóreas. Existem até o momento somente três registros da espécie, em diferentes localidades. A espécie foi encontrada no centro da Amazônia, na região norte do Brasil, e em outras duas localidades na região sul do Brasil;

Skeletocutis roseola: Espécie de fungo poliporoide degradadora de madeira, que causa podridão branca em troncos mortos de angiospermas. A espécie possui somente 30 registros de 9 diferentes localidades, todas restritas ao sul e sudeste do Brasil, em áreas de Mata Atlântica.

Stropharia venusta – Foto: Divulgação/NDStropharia venusta – Foto: Divulgação/ND

Stropharia venusta: Encontrada crescendo sobre madeira morta e no solo em áreas de floresta de Araucária na região sul do Brasil.

A espécie é conhecida até o momento para somente duas localidades bem amostradas, nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e portanto, é considerada rara.

Wrightoporia araucariae: ungo saprotrófico degradador de madeira. Até o momento foi encontrada crescendo somente em troncos mortos de Araucaria angustifolia, o que dá origem ao seu nome. Existem somente 5 registros da espécie em duas localidades diferentes, ambas na região sul do Brasil. Acredita-se que a espécie é rara, já que ocorre em regiões de grande esforço amostral e possui poucos registros;

Wrightoporia porilacerata: Decompositor de madeira que causa podridão branca. A espécie possui somente três registros, todos para a região de Mata Atlântica do sul do Brasil. Dois desses registros são para florestas da costa Atlântica (Floresta Ombrófila Densa) e um para floresta nebular/Floresta Ombrófila Mista. Espera-se que a espécie seja endêmica da região sul da Mata Atlântica, ocorrendo do estado de São Paulo até o estado do Rio Grande do Sul.

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