Pesquisadores de SC revelam que polvos estão usando lixo como abrigo

Estudo que une pesquisadores de quatro instituições mostra como os lixos estão sendo utilizados por animais marinhos; professora alerta sobre os riscos de levar conchas

Um estudo desenvolvido por pesquisadores de Santa Catarina em conjunto com outras três instituições revelou que polvos estão usando lixos para se abrigar e reproduzir no fundo do oceano.

Imagem de pesquisa mostra polvo dentro de uma lata no oceanoPolvo da espécie Amphioctopus burryi se esconde em uma lata de refrigerante na Bahia – Foto: Claudio Sampaio/UFSC/ND

A pesquisa, publicada na revista científica Marine Pollution Bulletin, avaliou 261 imagens subaquáticas tiradas em, no mínimo, 19 países entre 2003 e 2021.

Vídeos e fotos coletados de redes sociais e de bancos de imagens foram somados a materiais fornecidos por cientistas e a outros recebidos por meio de campanhas internacionais promovidas pelas pesquisadoras, em uma abordagem de ciência cidadã.

O objetivo era determinar como os polvos se relacionam com o lixo marinho e identificar espécies e regiões afetadas.

O estudo contou com pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), do Furg (Universidade Federal do Rio Grande), UFPE (Unversidade Federal de Pernambuco) e da Università degli Studi di Napoli Federico II, na Itália.

Foram detectados oito gêneros e 24 espécies de polvos que vivem perto do fundo do oceano interagindo com lixo. Na maior parte dos casos, utilizando-o como abrigo.

Polvo de espécie não identificada usando um pote vidro como abrigo nas Filipinas – Foto: Brandi Mueller/UFSC/NDPolvo de espécie não identificada usando um pote vidro como abrigo nas Filipinas – Foto: Brandi Mueller/UFSC/ND

“O polvo perdeu a concha na evolução, então ele sempre está procurando um local para proteção. Espécies pequenas de polvos normalmente usam conchas, e as conchas estão desaparecendo, tanto por retirada quanto pela questão da acidificação dos oceanos”, explica a professorado Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC Tatiana Silva Leite.

Além de entrarem nos objetos descartados para se esconder, os polvos também usam os resíduos para tapar suas tocas.

“Ele normalmente coloca pedrinhas, coisas assim, para fechar um pouco a entrada da toca contra predadores, e a gente também viu eles usando lixo para fechar a frente da toca”, explica a docente. Houve, ainda, sete registros de fêmeas usando o lixo para proteger seus ovos.

Polvo da espécie retirado de uma bateria no Rio de Janeiro – Foto: Caio Salles/UFSC/NDPolvo da espécie retirado de uma bateria no Rio de Janeiro – Foto: Caio Salles/UFSC/ND

Mais de 40% das interações foram com objetos de vidro; cerca de 25%, com plástico; e metais estiveram presentes em aproximadamente 18% dos registros.

Um polvo foi encontrado escondido dentro de um vaso sanitário jogado no oceano, e outro foi flagrado se abrigando em uma bateria, “não se sabe se de carro ou de barco. É um lugar que tem metais pesados. Isso é perigoso”, afirma a professora.

Polvo pigmeu

Outro caso que chamou atenção foi o do polvo pigmeu – a menor espécie conhecida no Brasil, com menos de 10 centímetros de comprimento.

Polvo pigmeu foi encontrado utilizando lixo no Rio de Janeiro – Foto: Ed Bastos/UFSC/NDPolvo pigmeu foi encontrado utilizando lixo no Rio de Janeiro – Foto: Ed Bastos/UFSC/ND

A espécie foi descrita em 2021 e, até agora, só foi visto usando lixo para abrigo.

Não há qualquer registro oficial dele se alojando em itens naturais, como conchas ou cascas de coco.

Foi no meio do lixo, aliás, que ele foi identificado pela primeira vez, em Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ).

“Quem chamou a gente, para ir averiguar que espécie era, foi o pessoal que faz limpeza de praia, limpeza de oceano. Estavam retirando o lixo, levaram para o barco, e, de repente, começou a sair um monte de polvinhos de dentro do lixo”, relata Tatiana.

Riscos de interação com o lixo

O estudo traz um alerta sobre o aumento da quantidade de lixo nos oceanos e seus impactos na vida marinha. Inicialmente, pode até parecer algo positivo: os polvos estão se adaptando, aproveitando novas tocas que são introduzidas no ambiente.

Porém, a interação pode trazer diversas consequências, por exemplo, o plástico contêm uma série de elementos tóxicos.

“E a gente não sabe o quanto aquilo está entrando, por exemplo, no ovo que está sendo colocado ali; o quanto o animal, em vez de usar uma concha, que tem um determinado tamanho, para colocar seus ovos, usar uma lata que está enferrujada vai prejudicar tanto a quantidade de desova quanto a qualidade dos ovos”, comenta Tatiana.

Ovos de Paroctopus cthulu depositados em um bocal de snorckel, em Ilha Grande (RJ) – Foto: Ricardo Dias/UFSC/NDOvos de Paroctopus cthulu depositados em um bocal de snorckel, em Ilha Grande (RJ) – Foto: Ricardo Dias/UFSC/ND

A pesquisadora aponta que levar as conchas da praia pode ser prejudicial porque é utilizado por polvos e caranguejos.

“Também já foram vistos outros animais, como caranguejos, usando tampas de garrafas porque não conseguem encontrar uma concha. Isso é muito triste”, salienta a professora.

Pontos da pesquisa

Além de compreender as consequências do contato com substâncias tóxicas, os pesquisadores planejam investigar se existe uma preferência dos polvos por determinados materiais.

“Será que ele voltaria a ocupar uma concha? Se voltasse a ter a concha, ele largaria o lixo? É uma preferência ou ele não está tendo muita opção? São perguntas que ficaram ainda do estudo”, comenta a professora.

Além disso, o polvo pigmeu ainda faz parte da pesquisa para compreender se consegue reintroduzir no ambiente as conchas naturais para que os animais parem de utilizar lixo como morada.

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