Por que o ‘vômito de baleia’ vale tanto? Entenda o que fazer caso encontre a substância

Âmbar cinza é produto cobiçado por perfumes de grife e pode servir até como estimulante sexual; saiba as chances de encontrar e como proceder para identificar e vender o "vômito"

Com as notícias dos milionários que “ganharam na loteria” ao encontrar o âmbar cinza, conhecido como “vômito de baleia”, na Tailândia, muita gente sonha em se deparar com a substância pelas praias catarinenses.

Inclusive, diante da repercussão já surgem casos de candidatos a milionários em Santa Catarina que encontraram objetos parecidos no Litoral e tentam identificá-los.

Mas afinal, como se certificar e vender o âmbar gris? Por que ele é tão valioso? Para responder essas questões, o ND+ consultou profissionais da área.

Catarinenses tentam identificar suspeitas de “vômito de ouro” de baleias – Foto: Reprodução/Montagem/NDCatarinenses tentam identificar suspeitas de “vômito de ouro” de baleias – Foto: Reprodução/Montagem/ND

Em primeiro lugar, vale relembrar que a substância que se popularizou através da mídia internacional pela denominação “vômito de baleia” na verdade é algo mais parecido com fezes do que um gorfo propriamente, conforme explicam os professores de Ecologia e Zoologia e Oceanografia.

“Não é exatamente um vômito, é um produto do intestino desses bichos, chamado âmbar cinza”, pontua Paulo Simões Lopes, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

O professor da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), André Silva Barreto, complementa: “o âmbar cinza é produzido no intestino dos cachalotes e não é um ‘vômito de baleia’ como vem sendo colocado. Os cachalotes são animais que vivem em águas profundas e ocasionalmente defecam esse material”.

O que faz o âmbar gris valer tanto assim?

A substância avaliada em até R$ 1,2 milhão resolveu a vida de sortudos na Tailândia e outros locais do mundo. E levanta o questionamento: por que alguém paga tanto dinheiro no produto da digestão de um animal?

Professor de Ecologia e Zoologia e membro do LAMAQ (Laboratório de Mamíferos Aquáticos), Paulo Simões explica que a substância é valiosa porque é cobiçada por perfumarias e é extremamente rara.

“No passado, os perfumes do mundo inteiro precisavam desta substância, que funcionam como um fixador. É claro que hoje em dia esse processo é feito de maneira artificial, porque não tem como depender da digestão de baleias para todos os perfumes do mundo. Mas essa substância ainda é muito valiosa para quem fabrica perfumes caros, porque é rara”, frisa.

Simões explica que isso acontece porque esse animal se alimenta de lulas gigantes, que proporcionam a criação da substância. “Os cachalotes são raros perto da costa e por isso encontrar um pedaço de âmbar cinza é ainda mais raro”, corrobora André Silva Barreto.

Profissional especializado em baleias, Barreto reforça que o valor pode variar muito dependendo da quantidade e da característica da substância.

“É importante destacar que há uma grande variação no valor, pois quanto mais maturado o âmbar, maior o valor. Note que todas as notícias que circulam na internet falam de valores estimados, mas nunca de valores de venda. Há muito exagero circulando por aí”, conclui.

Há chances de existir âmbar gris em SC?

Se deparar com o “vômito de baleia” em Santa Catarina é extremamente difícil, mas não é impossível. Paulo Simões Lopes afirma que já se deparou com diversas baleias cachalote na costa brasileira, mas há uma condição geográfica que dificulta ainda mais a possibilidade da digestão do cetáceo chegar até a praia.

“Em toda aquela costa entre a Tailândia e o Japão, existe uma costa abissal, o oceano é muito fundo pertinho da praia, ele desce verticalmente. Aqui onde estamos é muito mais difícil essa substância aparecer. Isso porque elas ficam a uma distância de mais de 180 km da costa, não tem baleias cachalotes mais perto. É uma viagem grande, o que torna essa chegada muito mais difícil”, explica.

Uma pesquisa da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) realizada em 2018 levantou um número médio de de 871,31 baleias cachalote na região Sul do Brasil. O dado foi apurado por mergulhos do cetáceo, e podem estar “subestimados”, segundo a autora.

O que fazer caso você encontre a substância

Com a repercussão dos fatos na Tailândia, surgiram suspeitas em Santa Catarina de pessoas que encontraram substâncias parecidas, em Itajaí e na praia de Itapirubá, no Sul do Estado.

No entanto, confirmar que realmente se trata do âmbar gris pode ser um desafio. Paulo Simões Lopes ressalta que o âmbar gris não é facilmente reconhecido.

“Não dá para extrair DNA disso. É difícil de identificar esse material, porque é muito raro, ninguém tem outro para comparar. E hoje em dia é mais difícil ainda, depois da caça das baleias, tem cada vez menos”, explica.

O professor André Barreto destaca, porém, que existem maneiras de identificar a substância. O primeiro passo é fazer alguns testes característicos do âmbar gris.

“Eu nunca vi pessoalmente um pedaço de âmbar cinza e meu conhecimento vem de artigos publicados sobre o material. O que se relata é de que é um material que flutua na água, com textura que parece a de argila quase seca e que possui um odor que pode ser desagradável (quando fresco), mas que se torna agradável na medida em que vai maturando. Como é um material oleoso, um teste que pode ser feito é aquecer um pedaço de arame e encostar no material. O âmbar cinza verdadeiro tem de derreter e virar um líquido opaco, que ao secar ficaria grudento”, descreve o professor, o que faz o leitor quase se imaginar tocando e brincando com a substância.

Ele informa que existem laboratórios que utilizam algumas técnicas para confirmar que se trata da substância. “A identificação do âmbar cinza pode ser feita através de uma técnica chamada espectrometria de massa, e existem diversos laboratórios no Brasil que poderiam fazer isso, incluindo a Univali”, afirma.

Como vender o vômito de baleia, ou melhor, o âmbar gris?

Depois de ter sorte o suficiente de ter encontrado, e finalmente ter confirmado a identificação do “vômito de ouro”, outro ponto delicado entra no assunto: como vender?

O assunto é polêmico. Na Índia, por exemplo, a venda do âmbar gris é proibida. Um caso recente ilustra bem a situação, já que no dia 23 de setembro três pessoas foram presas na cidade de Kochi por tentar vender 1 kg da substância em um mercado, no valor convertido estimado em cerca de R$ 744 mil.

Conforme as informações divulgadas pela imprensa local, a atividade foi banida por uma lei de proteção animal de 1972. Por conta da valiosidade da digestão da baleia cachalote, a espécie é alvo de caças, como informa o Indian Express.

De acordo com o IMA/SC (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina), existe lei de proteção às baleias, mas não há nada que proíba a comercialização do âmbar gris na região.

A professora de Química e membro do Quimidex (Laboratório da UFSC), Anelise Regiane, que é especialista em perfumes, explica que no Brasil é improvável que existam compradores do âmbar cinza.

Segundo ela, o sortudo pode tentar entrar em contato diretamente com as perfumarias estrangeiras que utilizam a substância. A reportagem entrou em contato com a Natura, que respondeu que não utiliza nenhum ingrediente de origem animal em seus produtos.

A professora destaca, ainda, que como o caso da Natura, muitas marcas têm abolido o uso de ingredientes animais. “Muitas casas de perfumaria estão se tornando veganas, então não usam nenhum material de procedência animal. Há preferência pelo uso dos materiais sintéticos”.

Outra opção é utilizar um mediador pela internet. Existem serviços que identificam a substância e fazem a conexão com compradores. Como por exemplo o Ambergris Connect, da Inglaterra, que faz parte da IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias do Reino Unido).

Afinal, “vômito de baleia” é cheiroso?

Anelise Regiane esclarece que, quando a substância – que, cabe lembrar, mais se assemelha a “fezes” da baleia – é produzida, ela tem mau cheiro. No entanto, diversos processos ocorrem para alterar esse aroma.

“Quando a baleia produz, dentro do intestino, ele tem cheiro de fezes. Só que quando a baleia excreta e ele vai para o mar, ele passa bastante tempo rolando na água salgada, sob o efeito do sol. Então esse tempo de maturação faz com que aquelas fezes vão ficando cada vez mais claras, adquirindo essa cor cinza, então um âmbar mais cobiçado é o âmbar cinza bem clarinho, quase branco, e as moléculas também vão se modificando ao longo do tempo, sofrendo vários processos, dentre eles a oxidação. E como elas modificam, esse aroma de fezes vai sumindo e vai aparecendo o aroma gostoso do que é usado na perfumaria fina”, analisa.

Amostra do aroma é oferecida em Florianópolis

Para quem ficou com curiosidade de conhecer o aroma do âmbar cinza, será possível. Anelise Regiane conta que possui uma amostra do aroma sintético no Quimidex, que será disponibilizado ao público.

“Como eu recebi recentemente ainda não colocamos na exposição. Mas sim, a intenção é que faça parte da experiência olfativa da exposição”.

Ela revela ainda quais são as características da fragrância: “o ambergris tem como descritores do aroma: doce, floral, animálico (indólico), marinho”, ela descreve.

Substância era utilizada na medicina tradicional e também é estimulante sexual

Um artigo publicado no Journal of Complementary Medicine and Alternative Healthcare (no português Diário de Medicina Complementar e Tratamento Alternativo), jornal sediado na Califórnia, Estados Unidos, responsável por reproduzir estudos sobre terapias alternativas, explicou algumas utilizações do âmbar gris além dos perfumes.

O estudo expôs efeitos hormonais provocados pela substância, que funciona como um estimulante sexual. Testes realizados com ratos mostraram maior frequência de ereção peniana e mais “apetite e performance” dos animais.

Além disso, registros históricos indicam que o âmbar gris era utilizado na medicina tradicional e também na fabricação de incensos em diversas culturas.

Suspeitas do “vômito de ouro” em Santa Catarina

Um morador de Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina, acredita ter encontrado âmbar cinza, conhecido como ‘vômito de baleia’, na praia de Cabeçudas.

O homem, que prefere não se identificar, contou que pratica detectorismo como hobby, que é a prática de encontrar objetos com o auxílio de detectores de metais, e que encontrou o material há alguns meses.

Morador de Itajaí acredita que encontrou “vômito” de baleia milionário – Foto: Arquivo Pessoal/NDMorador de Itajaí acredita que encontrou “vômito” de baleia milionário – Foto: Arquivo Pessoal/ND

“O mar estava bem agitado, tinha ressaca, e eu estava bem perto das ondas. Do nada o mar jogou a pedra praticamente nos meus pés. Era uma pedra diferente, mais leve, e na hora pensei que poderia ser o vômito de baleia”, disse o rapaz.

O morador de Itajaí chegou a levar a substância para análise do pesquisador da Univali, André Barretos, que acredita ser o âmbar cinza, também chamado de ambergris.

“Ele trouxe esse material aqui no laboratório. Inicialmente, achei que poderia ser mesmo ambergris (que não é um vômito, apesar de todos falarem assim). Eu só conhecia a substância por trabalhos e reportagens, nunca tinha visto ao vivo. É possível que seja, mas precisaria de uma análise por alguém que tivesse mais experiência para ter certeza”, destacou o pesquisador.

O possível sortudo afirmou que não quis prosseguir com as análises por medo de perder a pedra. Ele teve contato com as possibilidades de encontrar o vômito de baleia em Itajaí através de uma reportagem do ND+ sobre as chances de se encontrar a substância no Estado.

Pesquisador da Univali diz que é possível ser o âmbar cinza, “vômito” valioso de baleia, mas é necessário mais pesquisas – Foto: Arquivo Pessoal/NDPesquisador da Univali diz que é possível ser o âmbar cinza, “vômito” valioso de baleia, mas é necessário mais pesquisas – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Outro candidato a milionário apareceu na praia de Itapirubá, em Imbituba, no Sul do Estado. Odair de Souza, de 46 anos, informou à reportagem que encontrou a substância enquanto caminhava pela praia.

Ele relata que também havia lido as notícias sobre o âmbar cinza e suspeito quando avistou a substância. “Quando eu vi, já tinha conhecimento do que era, porque já tinha lido sobre o assunto. Então eu peguei [a substância] e trouxe para casa, já sabendo o que era. Só não sabia sobre valores”.

O homem revela que ainda não levou a nenhum especialista para verificar o que é de fato o objeto, mas tem confiança com base em suas pesquisas.

“Após pesquisar bastante na internet sobre isso, fazer os testes para ver se era real mesmo, eu mesmo cheguei à conclusão de que era, não levei a profissional nenhum. Porque tem todas as semelhanças, então eu concluí”.

Morador do Sul do Estado suspeita que encontrou o âmbar gris - Arquivo Pessoal/ND
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Morador do Sul do Estado suspeita que encontrou o âmbar gris - Arquivo Pessoal/ND
Segundo ele, a substância estava na praia de Itapirubá, próximo às dunas - Arquivo Pessoal/ND
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Segundo ele, a substância estava na praia de Itapirubá, próximo às dunas - Arquivo Pessoal/ND
Ele teria comparado o objeto que encontrou com imagens da internet - Arquivo Pessoal/ND
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Ele teria comparado o objeto que encontrou com imagens da internet - Arquivo Pessoal/ND
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"Após pesquisar bastante na internet sobre isso, fazer os testes para ver se era real mesmo, eu mesmo cheguei a conclusão de que era, não levei a profissional nenhum. Porque tem todas as semelhanças, então eu concluí", disse - Arquivo Pessoal/ND

Os “ganhadores da loteria” na Tailândia

O caso mais recente foi da dona de casa Siriporn Niamrin, de 49 anos. Ela encontrou um grande bloco de vômito de baleia na província de Nakhon Si Thammarat, na Tailândia.

“Foi sorte encontrar uma peça tão grande. Espero que me traga dinheiro. Estou mantendo-o seguro em minha casa e pedi ao conselho local uma visita para verificá-lo”, disse Siriporn ao The Sun.

Tailandesa segurando o vômito de baleiaVômito de baleia faz de uma dona de casa milionária – Foto: Reprodução

Em 2019, o sortudo da vez foi um catador de lixo, que encontrou o vômito enquanto “garimpava a praia”.

Catador de lixo mostra a fonte de sua fortuna – Foto: ReproduçãoCatador de lixo mostra a fonte de sua fortuna – Foto: Reprodução

Já no início de 2021, um grupo de pescadores de tainha percebeu uma forma branca no meio das ondas, em direção à praia, enquanto empurrava o barco para a doca. Chalermchai Mahapan encontrou um pedaço de vômito de baleia avaliado em até R$ 1,2 milhão.

Chalermchai Mahapan, de apenas 22 anos, ficou rico de dar nojo – Foto: ReproduçãoChalermchai Mahapan, de apenas 22 anos, ficou rico de dar nojo – Foto: Reprodução

“Eu não tinha ideia do que era essa coisa até que perguntei aos aldeões idosos aqui que me informaram sobre o âmbar gris”, disse Mahapan ao Daily Mail.

Uma amostra da pedra foi enviada a um laboratório, que confirmou a composição da matéria. “Sinto-me muito sortudo por tê-lo encontrado”, celebrou o agora milionário Mahapan.

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