Presença de pinus no Parque Serra do Tabuleiro pode alterar ecossistema e secar nascentes

A árvore tem um crescimento rápido, o consumo de água é maior – que afeta o solo e prejudica diretamente as demais árvores e plantas.

O porte majestoso e cheio de presença antecipa que ela é uma árvore dominadora. Onde quer que esteja fora de seu habitat natural, o pinus americano manda e desmanda no descontrole biológico. No Parque Estadual Serra do Tabuleiro, em Palhoça, essas árvores nativas dos Estados Unidos e do Canadá são motivos de preocupação.

A árvore, também chamada de pinheiro, é extremamente agressiva e onde nasce altera o ecossistema. Como ela tem um crescimento rápido, o consumo de água é maior – que afeta o solo e prejudica diretamente as demais árvores e plantas. Assim, a vegetação nativa desaparece por não ter condições de sobreviver sob a sombra da espécie exótica.

Os pinus estão por quase todo o parque e ajudam a propagar incêndios – Flávio Tin/NDOs pinus estão por quase todo o parque e ajudam a propagar incêndios – Flávio Tin/ND

Esse consumo excessivo de água pelos pinheiros pode afetar os mananciais do parque. Na Serra do Tabuleiro estão as nascentes de rios que abastecem a Grande Florianópolis: Forquilhinhas, Bugres, Matias, Antas, Ribeirão Vermelho, Águas Claras, Vargem do Braço, Cubatão do Sul. Caso não haja controle dessa espécie invasora, é possível que ela domine parte da vegetação e altere o lençol freático.

Fazer o controle de pinus não é tarefa fácil, como já descobriu o coordenador do Parque Estadual Serra do Tabuleiro, Carlos Alberto Cassini. Com apenas cinco motosserras, a derrubada de pinheiros em área plana tende a ter um bom resultado. Mas quando é para retirar as invasoras de áreas montanhosas, a situação é bem diferente.

No Morro Queimado, uma tarde inteira de trabalho resultou no corte de 10 árvores. Quase nada diante da quantidade de pinus a perder de vista. “Nós estamos avaliando a dificuldade do trabalho para então decidirmos como faremos”, disse Cassini.

O coordenador afirma que é “quase impossível” eliminar o pinus do parque. O que se pretende fazer é o controle dessa invasora, um trabalho de longo prazo que pode passar de 10 anos.

As condições para essa reação humana contra os pinheiros não são favoráveis. As sementes de pinus são leves e podem “voar” por longos 10 quilômetros com a ajuda do vento, além disso elas brotam com facilidade.

“Precisamos de todo apoio possível. Qualquer pessoa pode ajudar, até crianças podem arrancar os brotos com as mãos. Retirar essas invasoras do parque é uma necessidade urgente para que a vegetação nativa seja mantida”, afirma Cassini.

Operação no Cambirela

Com o apoio de voluntários e da Femesc (Federação Catarinense de Montanhismo), será realizada uma operação para o controle de pinus no Morro do Cambirela, onde há uma infestação de pinheiros. Para chegar ao local de corte, que é de difícil acesso, será utilizado um helicóptero.

As árvores cortadas são de baixa qualidade para a indústria madeireira, segundo Cassini, porque são jovens. Os pinus para fazer tábuas devem ter cerca de 10 anos, os do parque têm metade. Mas para outros usos a madeira tem utilidade. Um grupo de artesãos já solicitou ao parque a doação dos troncos.

Eucaliptos também devem ser eliminados do parque futuramente – Marcela Ximenes/NDEucaliptos também devem ser eliminados do parque futuramente – Marcela Ximenes/ND

Braquiária e eucalipto

No parque há outras duas espécies de plantas exóticas invasoras, o eucalipto e a braquiária. O primeiro é menos agressivo que o pinus, no entanto, cortar apenas a árvore não a elimina. É necessário utilizar um herbicida para que o eucalipto não rebrote. A braquiária é uma espécie de capim de origem africana. Essa planta pode impedir a regeneração da vegetação nativa após um incêndio como o ocorrido no dia 10 passado. O controle é mais fácil, basta arrancar a raiz do solo.

Para essas espécies ainda não há um planejamento para controle ou eliminação. Agora o maior inimigo do parque é a plantação de pinheiros que não para de crescer.

Pinheiro incendiário

Onde um pinus cresce nada mais nasce. É uma sentença triste para uma árvore, mas é o que acontece. O sol não alcança mais o solo e as folhas que caem do pinheiro formam uma barreira que impossibilita o surgimento de qualquer outra planta. Para piorar a má sina do pinheiro, as folhas fibrosas são apontadas como propagadoras de incêndios. As acículas queimam na superfície e a resina no subsolo.

As invasoras

No Brasil há 543 espécies exóticas invasoras listadas pelo MMA (Ministério do Meio Ambiente). É considerada exótica qualquer espécie que está fora de seu habitat e passa a ser invasora quando se prolifera e modifica o ecossistema local.

Em Santa Catarina, há 48 espécies de plantas exóticas invasoras, entre elas o pinus, o eucalipto e a braquiária presentes no Parque Serra do Tabuleiro. Também fazem parte a goiabeira e o limoeiro comuns na Grande Florianópolis.

Compensação ambiental

Como parte das compensações ambientais relacionadas à implantação das obras do Contorno Viário de Florianópolis, a concessionária Arteris Litoral Sul erradicou 46.155 plantas exóticas da região da Baixada do Maciambu, em Palhoça. Foram eliminados pinus, eucaliptos e goiabeiras desde o início do projeto Viva Restinga, em 2017, em 200 hectares do parque.

Além da retirada das espécies, o trabalho em desenvolvimento abrange o monitoramento de 251 árvores de 41 espécies distintas, que são matrizes de sementes destinadas à produção de mudas para recompor a mata nativa da região. Foram plantadas 8.032 mudas em 639 núcleos distintos.

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