Protagonista de grandes tragédias, Vale do Itajaí pode enfrentar novo avanço das águas

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Com mais de 180 mortos nas grandes inundações de 1983 e 2008, povo da região é marcado pelas cheias dos rios e prejuízos de quase R$ 3 bilhões apenas nos dois anos. Itajaí aparece em estudo científico como uma das principais cidades de Santa Catarina que deve enfrentar aumento do nível do mar nas próximas décadas. Prefeitura aprimora plano de contingência e mira obras para frear impactos

REPORTAGEM: Thomás Garcia
PESQUISA/TEXTO/EDIÇÃO: Beatriz Carrasco
ARQUIVO: Bruna Stroisc​​h

Aos 56 anos, Osmar Norberto Marqui, o seu Marzinho, ainda guarda na memória o caos vivido pelos moradores de Itajaí nas inundações de 1983 e 2008. As perdas, no entanto, não se restringem àqueles anos. Agricultor do bairro São Roque, ele viu sua plantação ser destruída em 14 diferentes eventos climáticos extremos.

Seu Marzinho mora no Espinheiros, bairro vizinho da terra em que planta e também perto do rio Itajaí-açu. A casa dele fica em uma das localidades que podem sofrer, daqui 30 anos, com o aumento do nível do mar. É o que afirma estudo da Ong Climate Central, citado na Conferência sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas, a COP25, que ocorreu neste mês em Madri, na Espanha.

Itajaí pode ter área inundadas conforme projeção de 2050 – Foto: Climate Central/NDItajaí pode ter área inundadas conforme projeção de 2050 – Foto: Climate Central/ND

Itajaí aparece na projeção como um dos municípios que mais pode enfrentar os impactos do avanço das águas em Santa Catarina. As áreas que, segundo o estudo, estão em risco nas próximas décadas são: Centro, Espinheiros, Imaruí, Salseiros, Murta, Praia Brava e Cabeçudas.

Na reportagem, o ND+ explorou o território catarinense em uma projeção do ano de 2050, sob o cenário de “poluição moderada”, que consiste em um aumento gradual da temperatura da Terra em até 2ºC, até o fim do século. O índice é 0,5ºC acima do que foi estipulado durante o Acordo de Paris, quando 200 países se comprometeram em reduzir a emissão de gases do efeito estufa – substâncias como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4).

Nos anos 1980, Brasil viu a força do rio no Vale

Desde que nasceu, Marzinho ajuda o pai com a agricultura no mesmo pedaço de terra. Atualmente, 90% de sua plantação é de aipim (cerca de 40 mil pés), mas tem também feijão, melancia, milho verde, cana de açúcar, pera, abóbora e batata doce.

Marzinho sofreu com inundações em Itajaí no decorrer de sua vida – Foto: Thomás Garcia/NDMarzinho sofreu com inundações em Itajaí no decorrer de sua vida – Foto: Thomás Garcia/ND

Assim como a família do agricultor, grande parte dos 219 mil habitantes de Itajaí vivem constantes inundações. Uma das mais emblemáticas aconteceu em julho de 1983, quando todo o Brasil passou a acompanhar o Vale do Itajaí sendo devastado pelas águas. Houve comoção nacional, com envio de doações e convocação das Forças Armadas.

O rio Itajaí-açu chegou aos 15 metros e tomou o que apareceu em seu caminho. Foram 49 pessoas mortas, 135 cidades atingidas e 200 mil desabrigados, com prejuízo estimado em R$ 1 bilhão.

Reportagem do jornal O Estado de 13 de julho de 1983 – Foto: Anderson Coelho/O Estado/NDReportagem do jornal O Estado de 13 de julho de 1983 – Foto: Anderson Coelho/O Estado/ND

Apenas em Itajaí, quase 40 mil moradores ficaram desabrigados e cinco mil animais morreram. Entre os bairros mais atingidos estavam Murta, Salseiros, Espinheiros, Pedra de Amolar, São Vicente, Nova Brasília, Bambusal e Pró-Morar. A água atingiu mais de dois metros nestas localidades. No Porto de Itajaí, 87 metros do cais e três embarcações ficaram destruídos.

Marzinho, na época com 20 anos, conta que na região conhecida como Brejo, no bairro Cordeiros, viu a água bater na altura do seu peito.

“A gente só conseguia andar de bateira (embarcação pequena) nessa parte mais alta da cidade, então imagina a parte mais baixa como estava. Me lembro bem, estávamos em seis dentro da bateira, saíamos dela e a água quase cobria a gente. Aqui na região do São Roque também cobriu tudo”, relembra o agricultor.

A memória de Marzinho ilustra bem uma situação recorrente da época. Como o Corpo de Bombeiros ainda não era bem estruturado como é hoje, o Estado não conseguia dar o suporte necessário para a população. Era comum os próprios moradores saírem em pequenas embarcações para auxiliarem nos resgates.

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Roubos, saques e o choro do prefeito

Jornal O Estado destacou choro de prefeito ao ver estragos em Itajaí em 1983 – Foto: O Estado/Reprodução/NDJornal O Estado destacou choro de prefeito ao ver estragos em Itajaí em 1983 – Foto: O Estado/Reprodução/ND

O caos que dominava a cidade com a falta de água potável, alimentos e gás de cozinha, também gerava situações de roubo e saque.

“Foi uma época de muito roubo, muita coisa por causa da inundação. Saqueavam mercados,  saqueavam produtos que iam boiando nas águas. O gás ficava em depósitos, aí a água subia, eles começavam a boiar e a turma ia tudo de bateira atrás para saquear”, recorda seu Marzinho.

A situação foi tão alarmante naquele ano, que o prefeito de Itajaí, Arnaldo Schmidt Júnior, chegou a chorar em público ao observar tudo embaixo d’água. O jornal O Estado definiu as lágrimas como o “retrato da cidade de Itajaí”.

“Eu perdi tudo, a plantação foi toda embora. Levou meses para vazar essa água, e quando vazou, não tinha mais plantação. Só gado morto e ovelha. Era como se tivesse que preparar um terreno do zero para poder plantar de novo, como se fosse derrubar a mata para começar. Era um cheiro horrível de animal morto e tinha que limpar tudo, era horrível e dava muito trabalho. O prejuízo financeiro foi gigante”, conta Marzinho.

Seis filhos, sem lar

Para dona Dina, de 69 anos, vizinha de Marzinho, o prejuízo causado pelas inundações de 1983 também foram grandes. Com seis filhos, incluindo um bebê de apenas nove meses, conta que acabou perdendo sua casa no bairro Costa Cavalcante, que foi levadas pelas águas.

“O que mais me marcou foi perder a casa nas enchentes porque aí tive que ficar com seis crianças no alojamento em São Cristovão uns três ou quatro meses. Depois passaram a gente para um outro alojamento no Morro Cortado, na praia Brava”.

Depois da transferência para o novo abrigo, no entanto, Dina ainda estava longe de reencontrar seu lar. Foram longos 16 meses de espera para ter uma casa.

“Fiquei um ano e quatro meses morando em alojamento, até ser contemplada com uma casa pelo governo federal no Rio Bonito. Demorou bastante. Graças a Deus não perdi ninguém, mas a perda de bens materiais foi enorme, é uma coisa que marca muito a vida da gente”, recordou.

25 anos depois, 135 mortos

Duas décadas depois, os catarinenses do Vale do Itajaí viveram outra grande tragédia. Em 2008, 135 mortos, 51.297 pessoas desalojadas e 27.410 pessoas desabrigadas. As cidades mais atingidas foram Blumenau, Itajaí e Ilhota.

ND cobriu a grande enchente de 2008 – Foto: Reprodução/NDND cobriu a grande enchente de 2008 – Foto: Reprodução/ND

Apenas em Itajaí, de acordo com dados do Formulário de Avaliação de Danos da Defesa Cívil, foram 1.929 desalojados e 18.208 desabrigados. Os prejuízos materiais, econômicos e sociais alcançaram cifra superior a R$ 1,6 bilhão.

O porto da cidade também teve suas atividades paralisadas depois que três de seus quatro cais foram danificados pelas águas do rio Itajaí-Açu. Os prejuízos foram de cerca de R$ 200 milhões.

Reportagem do ND de 26 de novembro de 2008 noticiou fechamento do porto – Foto: ND/ReproduçãoReportagem do ND de 26 de novembro de 2008 noticiou fechamento do porto – Foto: ND/Reprodução

Marzinho, novamente, perdeu tudo. “Em 2008 a inundação deu mais prejuízo porque perdemos o ano todo. Eu tive um prejuízo de R$ 87 mil em 2008”, conta.

Para o agricultor, a inundação de 2008 foi pior, pois atingiu mais pessoas. A população era maior, lembra ele. E a tendências desses desastres, na visão de quem muito os viveu, é de piorar.

“Aquelas épocas tinha lugar pra água acumular. Agora é tudo construído, seria pior ainda, hoje aterrou tudo. Tá tudo aterrado, é rio entupido que não dá mais conta, se chegar outra vai ser pior ainda”.

Plano de contingência

O plano de contingência da Defesa Civil de Itajaí começou a ser implantado após a grande enchente de 2008. Em janeiro de 2011, começou a funcionar o sistema de telemetria, que mede o nível do rio e o índice pluviométrico (volume de chuva). 

Atualmente, são monitorados os níveis dos rios em Itajaí, e também de Brusque e Blumenau que desembocam no município. O equipamento faz uma medição, via rádio, a cada 10 minutos, atualizando as informações. É um sistema autônomo que independe de energia elétrica, funciona por baterias e painel solar. São nove estações que fazem a medição, além de uma Estação Meteorológica.

O plano de contingência de Itajaí também constitui as ações coordenadas do GRAC (Grupo de Gestão de Desastres) – prefeitura, Rener (Rede Nacional de Emergência de Radioamadores), Jeep Clube, Bombeiros, e polícias Militar e Civil.

O grupo é preparado e tem funções pré-definidas caso a Defesa Civil municipal emita alertas. O Município também tem mapeado os locais que podem servir como abrigos – são 49, com informações detalhadas sobre capacidade, acesso a internet, permissão para animais, entre outras.

Com informações de outras enchentes e inundações ao longo da história, como volume de chuva e nível dos rios, o plano de Itajaí consegue prever com antecedência quando há riscos, e emitir alertas.

Segundo a Defesa Civil, a base de dados é capaz de indicar qual região será atingida caso o nível do rio chegue a determinada altura. Em 2011, por exemplo, o órgão emitiu alerta 12 horas antes de uma inundação acontecer, o que reduziu os danos.

Obras para minimizar os impactos

Para minimizar os impactos das chuvas, autoridades têm buscado medidas para a região. Em audiência pública realizada na Câmara de Vereadores de Itajaí em 9 de dezembro, foi discutida a dragagem do rio Itajaí-Mirim, considerada fundamental para conter cheias na região. A audiência foi proposta pelo vice-presidente da Comissão de Proteção Civil da Assembleia Legislativa, deputado Onir Mocellin (PSL).

Na reunião, o deputado assumiu o compromisso de trabalhar pelos recursos junto ao governo federal. Trata-se da liberação de R$ 94 milhões já garantidos para obras no rio, e a inclusão no orçamento da União de R$ 165 milhões para a construção da barragem de Botuverá, obra prevista no Plano Nacional de Segurança Hídrica.

No mesmo dia foi assinada pelo Município de Itajaí a ordem de serviço para a macrodrenagem do rio Bonito. A obra orçada em mais de R$ 15 milhões visa a prevenção de inundações na bacia do Rio Bonito, no bairro São Vicente.

São previstas a colocação de mais de cinco quilômetros de tubos e galerias, com início em janeiro. A obra tem prazo de um ano, mas, de acordo com a prefeitura, será realizada em etapas para minimizar o impacto das intervenções aos moradores.

Além disso, também já está em andamento a obra de dragagem para aprofundar o canal de acesso da nova bacia de evolução do complexo portuário de Itajaí. O valor total da obra é de R$ 45 milhões.

Obras com o prazo expirado

Levantamento da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) mostra o andamento de obras de contenção de enchentes em Santa Catarina.

No Vale do Itajaí constam três projetos com o prazo de conclusão expirado. São obras nas cidades de Blumenau, Ilhota e na bacia do rio Itajaí em Rio do Sul, Taió e Timbó.