Relatório aponta média alta de coliformes na Lagoa da Conceição nas últimas duas décadas

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Relatório do IMA mostra histórico de balneabilidade do local entre 1996 e 2020; número alto de coliformes fecais por 100 ml de água chama a atenção

REPORTAGEM: Ian Sell
EDIÇÃO: Juliano Zanotelli

Após a aparição de uma espuma densa e amarelada, a poluição em um dos principais cartões-postais de Florianópolis, a Lagoa da Conceição, voltou à tona. A situação assusta os pouco mais de 11.811 moradores da região, segundo censo do IBGE de 2010.

No domingo, dia 24 de maio, o fenômeno voltou a se repetir após quase uma semana, quando foi constatada uma fissura numa tubulação da Casan que causou o vazamento de esgoto no local.

No entanto, conforme o histórico de balneabilidade do IMA (Instituto do Meio Ambiente), a questão da poluição na lagoa vem de longa data. O portal aponta o histórico de balneabilidade no local de 1996 a 2020 com coletas feitas por profissionais responsáveis do órgão.

A equipe do ND flagrou a espuma na Lagoa da Conceição – Foto: Anderson Coelho/NDA equipe do ND flagrou a espuma na Lagoa da Conceição – Foto: Anderson Coelho/ND

As amostragens realizadas consideram a presença de bactérias fecais na água, de acordo com critério estabelecido pela Resolução 274 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

No período foram constatados 2.360 pontos próprios (55%) para banho contra 1.954 impróprios (45%). O que chama atenção é a média alta de coliformes fecais. A média de 1996 a 2020 é de 2.351,6 Escherichia coli por 100 mililitros de água. O limite é de 800 por 100 ml para que o local seja próprio para banho.

* gráfico elaborado pelo professor de Power BI, Vitor Guimarães, e o economista, Bruno Negri.

Conforme o IMA, um ponto é impróprio para banho quando em mais de 20% de um conjunto de amostras coletadas nas cinco semanas anteriores, no mesmo local, for superior a 800 Escherichia coli por 100 mililitros ou quando, na última coleta, o resultado for superior a 2000 Escherichia coli por 100 mililitros.

Atualmente a coleta e análise são feitas em nove pontos na região:

  • Ponto 37: FRENTE À SERVIDÃO PEDRO MANUEL FERNANDES;
  • Ponto 38: NOS TRAPICHES DOS SERVIÇOS DE TRANSPORTES;
  • Ponto 39: FRENTE À RUA DE ACESSO À PRAIA DA JOAQUINA;
  • Ponto 41: CANTO DA LAGOA – AO LADO DO POSTO DE SAÚDE;
  • Ponto 43: FRENTE AO ACESSO PARA O RIO TAVARES;
  • Ponto 61: ALTURA Nº 1480 DA AV. DAS RENDEIRAS;
  • Ponto 62: FRENTE A RUA MANUEL ISIDORO DA SILVEIRA;
  • Ponto 66: ALTURA DO Nº 2267 DA AV. OSNI ORTIGA;
  • Ponto 72: FRENTE À RUA CANTO DA AMIZADE.

Há de se ressaltar que a coleta nestes nove pontos começou apenas em 2009, segundo o histórico no portal. Veja:

  • 1996: Ponto 37;
  • 1997 e 1998: Pontos 37, 39, 41 e 43;
  • 1999 a 2008: Pontos 37, 38, 39, 41, 43, 61, 62 e 66;
  • 2009 a 2020: Pontos 37, 38, 39, 41, 43, 61, 62, 66 e 72.

De acordo com o IMA o aumento do número de pontos analisados é solicitado pela prefeitura do município. “São sempre pontos onde há maior fluxo de banhistas”, explicou por meio de assessoria.

“O IMA não faz análise de balneabilidade um ano inteiro apenas para indicar para as pessoas entrar ou não na água, mas especialmente para indicar aos gestores para tomar providências com relação aos locais que sempre estão poluídos”, explica o órgão.

Imagem de cartão postal, do fim da década de 1970: ainda um vilarejo – Foto: Postais Edicard/DivulgaçãoImagem de cartão postal, do fim da década de 1970: ainda um vilarejo – Foto: Postais Edicard/Divulgação

Pontos críticos

A situação piora quando se fala apenas no ponto 38, local onde fica o trapiche. De 1999 a 2020 são apontados 460, ou 88% dos pontos impróprios para banho, com uma média de 7.249,6 coliformes por 100 ml de água.

Pontos 62 e 38 na Lagoa da Conceição – Foto: ReproduçãoPontos 62 e 38 na Lagoa da Conceição – Foto: Reprodução

O ponto 62, localizado em frente à rua Manoel Isidoro da Silveira, é outro local que historicamente possui resultados elevados de Escherichia coli. Apenas no ano de 2012 a média foi inferior a 2 mil coliformes por 100 ml.

A média histórica do local é de 5.251,9 coliformes por 100 ml, ou seja, muito acima dos 800 “aceitáveis”.

Nesta segunda-feira (1) o órgão afirmou que nesses pontos há sempre o maior índice de esgoto na água, apresentando sempre maior número de coliformes fecais.

“Seguimos sempre em contato com a Casan em busca de soluções, além de reuniões para apresentar para eles [Casan] os dados. Inclusive os pontos da Lagoa apresentam uma evolução, mas ainda tem situação a se fazer”, explica o IMA através de assessoria.

Impactos que a poluição pode causar

Conforme o biólogo especialista em gestão ambiental, Emerilson Gil Emerim, a poluição da lagoa pode causar impactos aos organismos e seres humanos, causando prejuízos à flora e fauna da lagoa, além das atividades de lazer desenvolvidas no local.

O esgoto irregular é vetor de uma série de doenças, transportando bactérias e vírus, vetores das famosas “viroses”, explica o profissional.

Após contato com a água infectada, o problema mais “normal” acaba sendo a gastroenterite, onde ocorre a inflamação do sistema gastrointestinal. Entre os sintomas estão náuseas, vômito, dor de estômago, diarreia, dor de cabeça ou febre.

Conforme a Secretaria de Saúde de Florianópolis, foram registrados quatro casos de atendimentos por gastroenterite nos centros de saúde da região, englobando Lagoa da Conceição e Barra da Lagoa, na última temporada de verão.

Contato com água infectada pode gerar série de sintomas – Foto: Anderson Coelho/NDContato com água infectada pode gerar série de sintomas – Foto: Anderson Coelho/ND

Segundo relatório da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), a vida animal também pode estar ameaçada. A presença de peixes e crustáceos mortos recentemente reforçam uma das consequências das baixas concentrações de oxigênio observadas nas águas do local.

“A presença de espécies potencialmente produtoras de toxinas enriquecendo essa escuma deve ser considerada com muita atenção, pois pode amplificar as perdas dos organismos já relatadas pela falta de oxigênio”, diz o relatório.

O biólogo Marco Perotto explica que o que deve acontecer é a seleção de algumas comunidades aquáticas com maior adaptação ao meio. “Ainda é cedo para falar sobre uma possível extinção local. A possibilidade técnica e teórica existe”, afirma.

Possíveis soluções

Como uma possível solução, Emerim cita um rígido monitoramento das águas de drenagem. “É sabido que existe uma série de lançamentos de esgoto irregularmente na lagoa. O que pode resolver é um bom tratamento de coleta, além do tratamento de efluentes por parte da Casan. O último incidente foi potencializado pelo rompimento de uma rede”, afirma.

“Estamos num período de pouca chuva, deveríamos ter pouca drenagem. Quando acontece uma chuva é feito toda uma lavagem da área urbana que naturalmente vai drenar pra lagoa, as drenagens poderiam ter um pré-tratamento antes de ser lançadas”, relata.

Para o profissional, uma solução voltada a hidrodinâmica que favorecesse uma maior troca de águas entre a parte sul e norte da lagoa, através do aumento do vão central da ponte da avenida das Rendeiras, seria o ideal.

Novo teste do IMA confirmou esgoto

O IMA confirmou a presença de esgoto em três pontos da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. O órgão divulgou na terça-feira, dia 26 de maio, o resultado da coleta realizada na semana anterior, além de um relatório com levantamento histórico sobre o monitoramento da qualidade da água no local.

Imagens feitas pelo IMA durante a coleta – Foto: IMA/Divulgação/NDImagens feitas pelo IMA durante a coleta – Foto: IMA/Divulgação/ND

As análises buscam identificar os motivos que levaram ao aparecimento de manchas na Lagoa da Conceição nos últimos dias.

O órgão realizou coletas nos pontos 38 (trapiche), 62 (rua Manuel Isidoro da Silveira) e 72 (rua Canto da Amizade). Nas três áreas foi verificada a presença da bactéria Escherichia coli. Conforme o IMA, em valores “toleráveis”.

A concentração de fósforo total obtida é considerada normal, conforme o órgão. Valores de nitrogênio são normais. Os valores de surfactantes (líquido que reage na água se em contato com esgoto) encontram-se cinco vezes acima dos padrões de qualidade.

Ações de combate a poluição

Conforme a Floram, a Prefeitura de Florianópolis seguirá fiscalizando os focos de ligações irregulares de esgoto e vazamentos na Lagoa da Conceição. Para realizar estas ações, o município criou o Programa Se Liga na Rede, em parceria com a Casan e ECHOA Engenharia, além da Blitz Sanear, que conta também com as equipes de Saneamento e da Vigilância em Saúde.

“O Município realiza mais de 70 ações semanais desde outubro de 2018. A Blitz Sanear já inspecionou residências, imóveis comerciais, shopping centers, hotéis, restaurantes, pousadas, condomínios e edifícios em mais de 30 localidades de Florianópolis, inclusive na lagoa”, informou o órgão.

No dia 25 de maio, o município publicou um decreto (nº 21.600) no Diário Oficial instituindo o Comitê de Recuperação Ambiental da Lagoa da Conceição. Em 15 dias, será definido um plano de ações de recuperação no local, em função do derramamento de esgoto.

O Comitê será composto por representantes da Floram, Superintendência de Saneamento e Habitação da Secretaria de Infraestrutura, Comcap, Agência de Regulação de Serviços Públicos de Santa Catarina (Aresc), Casan e AMOLA (Associação de Moradores da Lagoa).

Na primeira reunião realizada na terça-feira (26), foi decidido que a Casan deverá remover a espuma acumulada, iniciar um monitoramento de qualidade da água, analisar níveis de coliformes e nitrogênio, além de realizar a manutenção imediata de toda a rede de esgoto.

Todos os casos serão analisados através de estudos e laudos complementares para apurar e responder todos estes questionamentos, construindo um plano sólido de recuperação ambiental do local.

Residências são fiscalizadas

A prefeitura de Florianópolis, em conjunto com a Casan, fiscalizou imóveis e realizou testes na rede de drenagem pluvial na Lagoa da Conceição, na quarta-feira, (27). Como resultado, uma residência foi multada por crime ambiental.

Redes de esgoto próximo da orla foram conferidas – Foto: PMF/Divulgação/NDRedes de esgoto próximo da orla foram conferidas – Foto: PMF/Divulgação/ND

Um vazamento de esgoto foi identificado, na terça-feira (26), na Servidão Professor Bonifácio Francisco Vieira. Após fiscalização de três residências do local, não foi possível determinar qual delas era a responsável pelo vazamento.

Moradores falam em descaso

A reportagem do nd+ entrou em contato com moradores locais para entender como tem sido conviver com os recentes casos de poluição. Veja os depoimentos:

“Moro há 30 anos na Lagoa e nunca vi nada parecido [espumas]. Desde o Natal já venho observando que a água nenhum dia foi ‘clarinha’. A situação só piora”. – Marcelo Brandão, morador da Lagoa da Conceição.

“Moro há mais de 15 anos na região da Lagoa. Convivemos com vazamentos de esgoto saindo por conta de danos nas bombas de recalque. Já vimos em diversos pontos. Seja por falta de manutenção, canos trincados, muito descaso”. – Beatriz Boleman, moradora da Lagoa da Conceição

“Devido ao vento sul, hoje (27) deu uma melhorada [na água] pela troca de água, ontem estava mais feio (26). Eu acredito que espuma, fiz alguns testes que me levam a acreditar, ela ocorre com o passar de embarcações, principalmente jet-skis. O jet-ski tem um motor que ele faz a propulsão com jato de água. Não digo que o problema da poluição venha desse veículo. Pela característica do motor, a sujeira quando passa pela turbina, ela faz uma espuma e essa espuma tem se juntado e feito essa espuma amarelada”. – Leonardo Santos, morador da Lagoa da Conceição.

Vista panorâmica registrada em 1969, quando era apenas um paraíso de água, verde e dunas – Foto: Acervo/ Carlos DamiãoVista panorâmica registrada em 1969, quando era apenas um paraíso de água, verde e dunas – Foto: Acervo/ Carlos Damião

Histórico de notícias sobre poluição no local:

MPF assume o caso

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) encaminhou para o MPF (Ministério Público Federal) a investigação cível do caso que apura o despejo de efluentes não tratados ou em desacordo com a legislação vigente da Lagoa da Conceição. A declinação da competência ocorre após a constatação de que a área investigada está dentro dos limites que constituem o terreno de marinha pertencente à União.

A 32ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital havia instaurado uma notícia de fato na segunda-feira, dia 18, a qual foi convertida em inquérito civil no dia seguinte após a realização de diligências, como a realização de vistoria na Lagoa da Conceição pelos órgãos de fiscalização ambiental, que comprovaram a origem da poluição.

Após a instauração do inquérito civil, chegou ao MPSC a informação de que Procuradoria da República em Florianópolis havia instaurado a Notícia de Fato que versa sobre o lançamento irregular de esgoto, pela Casan, na rede pluvial que desemboca nas águas do local, na altura das esquinas das ruas Henrique Veras do Nascimento com Manoel Isidoro da Silveira.

O MPF apontou, em ofício à Polícia Civil, interesse federal no caso, pois trata-se de laguna litorânea que integra o rol de bens da União, uma vez que, no sentido do litoral, todo terreno que estiver localizado a 33 metros da preamar média é considerado da União, bem como que a poluição decorrente afetou diretamente a Lagoa da Conceição.

O Promotor de Justiça Paulo Antonio Locatelli compartilhou o entendimento e determinou o encaminhamento do inquérito ao MPF.

No inquérito civil, o MPSC apurou que o despejo de efluentes não tratados na Lagoa da Conceição foi um dos motivos pelo qual se formou a espuma que atualmente pode ser vista no local dos fatos, especialmente no Canto da Lagoa e na Lagoa Pequena, região próxima do chamado “centrinho” da Lagoa. A espuma é formada por material orgânico em decomposição, considerado um rejeito que precisa ser recolhido.

Com a declinação da atribuição, os autos da notícia de fato serão remetidos à Procuradoria da República em Santa Catarina, que dará continuidade à apuração.