Remoção de banco de areia na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, recebe críticas ambientais

Banco de areia formado após desastre de janeiro 'ampliava' faixa de areia em trecho da Lagoa da Conceição, provocando problemas com distribuição da água das chuvas

A Floram (Fundação do Meio Ambiente) realizou entre o fim de outubro e início de novembro a remoção de um banco de areia que se formou na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, após o rompimento da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) em janeiro deste ano.

A interferência, realizada no trecho próximo a servidão Manoel Luiz Duarte, foi alvo de críticas por pesquisadores do laboratório Ecoando Sustentabilidade, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que monitora periodicamente a situação da laguna. Entre outras coisas, eles apontam risco na liberação de poluentes “presos” na areia.

Sedimentos do rompimento da lagoa de evapoinfiltração “ampliaram” faixa de areia na região próxima ao desastre – Foto: Felipe Bottamedi/NDSedimentos do rompimento da lagoa de evapoinfiltração “ampliaram” faixa de areia na região próxima ao desastre – Foto: Felipe Bottamedi/ND

Em nota publicada nesta quinta-feira (25), os pesquisadores pediram cautela na remoção dos sedimentos assentados no local assim como a preservação da nova vegetação que cresceu. Segundo o laboratório, é importante para a recuperação da lagoa. A alternativa seria tornar a paisagem afetada pelo desastre em um memorial.

A área em questão contava com material arenoso que se acumulou nas margens após o extravasamento da lagoa de evapoinfiltração. Também chamada de “delta arenoso” ou baixio, os sedimentos “aumentaram” a faixa de areia e favoreceram o crescimento de novas espécies de plantas e a organismos.

A Floram decidiu pela construção de pequenos canais, direcionando a água e os sedimentos para a laguna. “Determinamos que a Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) realizasse nivelamento para permitir que a área volte ao normal após bastante análise técnica”, afirmou a superintendente da Floram, Beatriz Kowalski.

Na autorização ambiental o órgão aponta necessidade de evitar acúmulo de águas pluviais (da chuva) que reduzem “o contato e circulação com as águas salobras da Lagoa da Conceição. Esse acúmulo […] tem causado o desenvolvimento de vegetação, com consequente decomposição de matéria orgânica, causando mau cheiro, além da proliferação de vetores, tais como mosquitos”.

Professores documentaram alterações no baixo da Lagoa da Conceição – Foto: Ecoando Sustentabilidade/Divulgação/NDProfessores documentaram alterações no baixo da Lagoa da Conceição – Foto: Ecoando Sustentabilidade/Divulgação/ND

Risco de nova poluição

A nota técnica detalha a evolução do banco de areia, que se estendia por 120 metros logo após o desastre. Ao todo, quase 38 metros era coberto pela lagoa. Em razão dos ventos o baixio passou a ter 98 metros em agosto – 19 estavam submersos “mostrando certo espalhamento da porção imersa e estabilização da emersa”, aponto o estudo.

Segundo o Ecoando Sustentabilidade, os poluentes ficam “presos” ao pacote arenoso. “O menor distúrbio pode suspendê-los e disponibilizá-los na coluna d’água, interferindo novamente no equilíbrio levantando um sinal de advertência, até mesmo para intervenções manuais”.

Ainda segundo os pesquisadores, o problema de fato ocorreu com a abertura dos canais podendo “ser observado dias após as intervenções em 30/10 e 02/11, quando as águas já apresentavam coloração marrom escura, odor desagradável”.

A Floram nega a proliferação de poluente. “Não tiramos o material, apenas nivelamos o que era predominantemente areia. Nos munimos de todas as avaliações e estudos”, afirma Kowalski. Na nota técnica, o órgão ressaltou que “a movimentação da areia deve ser feita somente de forma manual”.

Novas espécies

Os estudiosos também apontam que muitas das espécies que cresceram no local, apesar de não serem naturais da lagoa, são biorremediadoras de desastres e auxiliam na absorção de metais e esgoto doméstico. Eles também apontam a proliferação de outros organismos como parte do processo de recuperação – a nota completa pode ser lida neste link.

“A formação do baixio nas margens da Lagoa da Conceição não foi natural, assim como não são os aterros das Baías Norte e Sul, como as engordas das praias de Canasvieiras[…]. Mesmo essas drásticas intervenções não evitaram a resiliência dos ecossistemas e o repovoamento da fauna e flora típicas locais, bem como não justificaram a remoção destas comunidades a posteriori”, afirmam.

Os pesquisadores sugerem outras saídas para a remoção da água pluvial, como a retirada com bombas de sucção e o direcionamento para tratamento na própria ETE, “evitando a ‘diluição’ e remobilização de poluentes no sistema lacunar”.

Para o laboratório, ao invés da remoção o local deveria ter sido transformado em um memorial da tragédia de janeiro, resgatando “as culturas e histórias carregadas pela lama”.

+

Últimas notícias

Loading...