Todas as faces da Ilha do Campeche, um dos principais pontos turísticos de Florianópolis

Dos enigmas pré-históricos às belezas naturais e exploração do turismo

Primeiros sinais da passagem do homem pela área datam entre cinco e dois mil anos - Marco Santiago/ND
Ilha foi tombada como patrimônio arqueológico, etnográfico e paisagístico em 2000 – Marco Santiago/ND

Os primeiros sinais da passagem do homem por aqui datam entre cinco e dois mil anos. Pelo menos é o que afirmam os monitores ambientais ao chegarmos ao fim da Trilha do Letreiro. Depois de desembarcar na praia com areias brancas como jasmim e águas transparente como a luz do dia, nos deparamos com a “Máscara Gêmea”, um tipo de inscrição na pedra que foi tida como única no mundo e que incluiu a Ilha do Campeche entre os oito sítios arqueológicos do país inscritos no Livro de Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

Por ali, também deixaram vestígios grupos de tradição Itararé-Taquara, que já utilizavam cerâmica, e os Guaranis. No século 18, com a implantação da terceira área baleeira do Brasil Meridional, na Armação do Pântano do Sul, o local serviu de ponto para a caça da baleia e até o início do século passado chegou a abrigar roças de mandioca, feijão, batata-doce e milho.

Primeiros sinais da passagem do homem pela área datam entre cinco e dois mil anos - Marco Santiago/ND
Primeiros sinais da passagem do homem pela área datam entre cinco e dois mil anos – Marco Santiago/ND

Hoje, a Ilha do Campeche padece de cuidados especiais. As ocupações mais recentes, por volta dos anos 1940, desencadearam uma disputa pela posse do espaço que acabou ficando sob o poder dos associados do Clube de Caça, Pesca e Tiro Couto de Magalhães, que permanecem lá até hoje. Os quatis são testemunhas desse período.
Durante anos, a exploração desordenada, que foi impulsionado com o turismo na década de 1980, criou um cenário negativo na ilha por conta do acumulo de lixo, da degradação do meio ambiente e do descaso com o patrimônio arqueológico. Nos anos 1990, chegou a se cogitar a instalação de um empreendimento turístico, que acabou descartado depois de muitos debates nas comunidades do entorno.

Foi só no ano 2000 que a ilha foi tombada como patrimônio arqueológico, etnográfico e paisagístico, dando início a um período de retomada da preservação do meio ambiente e do patrimônio cultural. Que ano a ano avança sobre questões ainda não totalmente resolvidas, como a falta de saneamento adequado e a insistência em algumas ilegalidades, como o transporte clandestino de turistas por embarcações não cadastradas.

Caça, desequilíbrio e divisão territorial

Nilton Firmino Cardoso, 88 anos, lembra que a primeira vez que aportou na ilha ainda era criança. “Meu irmão era um dos sócios fundadores do Clube de Caça. Para embarcar pra vir cada um trazia uma muda de planta”, recorda o único morador fixo atualmente na Ilha do Campeche. Entre idas e vindas, no auge do Clube de Caça da Associação Couto Magalhães, Cardoso decidiu fixar moradia e atualmente cuida dos 90% da área com cessão de uso à associação. Um por cento da ilha está sob concessão da Pioneira da Costa e os 9% restantes estão sob domínio da União.

Cardoso demonstra descontentamento com a interferência dos órgãos de fiscalização e diz que até a chegada deles, o clima era mais tranquilo entre associados do clube, pescadores e turistas. “Eles vêm aqui, exploram e ditam as regras”, reclama. Atualmente, a associação, que teve o nome modificado para Acompeche (Associação Couto Magalhães de Preservação da Ilha do Campeche) tem direito de levar 84 pessoas por dia à ilha.

Em 2014, a Justiça Federal determinou a demolição do restaurante mantido pela associação por estar sobre restinga em APP (Área de Preservação Permanente).

Falta saneamento adequado e Plano de Manejo

Um dos maiores problemas para a manutenção adequada do bem tombado é a falta de um Plano de Manejo, de estrutura adequada para recepção dos visitantes e problemas com saneamento e o descarte de resíduos sólidos. O desequilíbrio na fauna, sobretudo dos pássaros, que têm seus ovos consumidos pelos quatis introduzidos a partir de 1940 com a chegada do Clube da Caça Couto Magalhães, também tem despertado preocupação aos biólogos e órgãos ambientais.

Com o regramento das visitações e a intervenção dos órgãos ambientais, foi criado em 2004 o Fundo de Preservação que deveria custear os estudos para elaboração do Plano de Manejo, além de ter seus recursos revertidos para a preservação da ilha e custeio da visitação e do monitoramento. A verba do fundo é composta pela Taxa de Desembarque paga pelas associações que realizam o transporte de visitantes. Atualmente cada associação deposita R$ 5 por pessoa que desembarca na ilha, com exceção da Associação dos Pescadores da Armação, que paga R$ 3 porque faz o transporte dos funcionários do Iphan que trabalham na gestão da ilha..

Ao longo de anos, as associações não efetivaram a prestação de contas corretamente, o que só tem ocorrido recentemente, e até hoje a Ilha do Campeche ainda não dispõe de Plano de Manejo. Num único dia, na alta temporada, juntas, as quatro associações que fazem o transporte pago chegam a arrecadar R$ 72 mil e repassam em média R$ 4.000 para o Fundo de Preservação.

Número de visitantes é limitado ao máximo de 800 na alta temporada e 770 nos demais meses do ano - Marco Santiago/ND
Número de visitantes é limitado ao máximo de 800 na alta temporada e 770 nos demais meses do ano – Marco Santiago/ND

Cotas para transporte de visitantes

Atualmente a Ilha do Campeche mantém o turismo controlado por meio de um TAC (termo de ajuste de conduta) firmado entre o MPF (Ministério Público Federal) e as seis entidades que atuam e exploram o turismo no local (Iphan, Instituto Ilha do Campeche, Associação dos Pescadores da Armação, Associação dos Pescadores do Campeche, Associação dos Barqueiros da Barra da Lagoa, Associação Couto Magalhães). O número de visitantes é limitado ao máximo de 800 na alta temporada e 770 nos demais meses do ano. E a gestão é feita pelo Iphan, que controla o numero de pessoas e fiscaliza o local.

O transporte até a ilha é realizado por três associações de pescadores, elencadas devido a ligação histórica com o lugar: Barra da Lagoa, Campeche e Armação. A Couto Magalhães também tem uma cota de pessoas que pode transportar diariamente. No entanto, o lugar não está livre de ilegalidades:

“Um dos grandes problemas é o transporte ilegal por barcos que não são signatários do TAC. Como a praia é pública, ninguém pode ser proibido de chegar aqui, o que acontece é que na alta temporada esses barcos trazem muita gente e se corre o risco de extrapolar o número máximo autorizado de pessoas na ilha”, conta o monitor ambiental Douglas Cadorin.

O custo do transporte varia entre R$ 90 e R$ 130, dependendo do ponto de embarque. A visitação aos sítios arqueológicos por meio das trilhas só pode ser feita com acompanhamento dos monitores e também são pagas, entre R$ 10 e R$ 25.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Meio Ambiente

Loading...