Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Bazar de luxo comercializará cerca de 8 mil peças de marcas nacionais e estrangeiras

Casa Lar Semente Viva, que abriga crianças afastadas judicialmente de suas famílias, receberá parte do valor das vendas de roupas, calçados, acessórios e objetos de segunda mão

Natural de São Joaquim, na Serra catarinense, Daniana Zanette se mudou com os pais para Florianópolis quando ainda era uma criança de colo.

Com cerca de 10 anos de idade, ela e uma vizinha, cuja mãe recebia roupas de doação, reformavam peças adultas para usarem, já que Daniana aprendera muito cedo a crochetar, bordar e costurar no ateliê da família.

Daniana Zanette, criadora do J’Amei Bazar – Foto: Scheila Yoshimura/Divulgação/NDDaniana Zanette, criadora do J’Amei Bazar – Foto: Scheila Yoshimura/Divulgação/ND

Mais tarde, teve loja de bijuterias, trabalhou na badalada Daslu, em São Paulo, montou marca de acessórios na Ilha de Santa Catarina e hoje mantém também uma grife de tricô e crochê.

Em uma temporada em Nova York, conheceu o mercado de luxo e a chamada moda second hand (segunda mão), o que lhe deu a ideia de criar um brechó de marcas internacionais em forma de bazar, o J’Amei.

A 10ª edição ocorrerá de 5 a 7 de novembro, das 10h às 20h, no Majestic Palace Hotel, com parte da renda destinada à Casa Lar Semente Viva, entidade que abriga crianças afastadas judicialmente de suas famílias.

Neste ano, o evento soma quase 8 mil itens de participantes de Santa Catarina, Paraná e São Paulo, com a novidade de poderem ser adquiridos simultaneamente por meio do Instagram.

Já na infância reciclavas peças de roupas. O que fazias com elas?

Minha vizinha recebia as peças, pois a mãe dela trabalhava em uma rede de farmácias aqui do Estado e o dono sempre fazia uma mala de roupas para doar a ela. Como se tratava de roupas de adulto, pouquíssimas da nossa idade, em torno de 10, 12 anos, eu ficava imaginando como poderia fazer para usá-las, porque tinha muita coisa linda e praticante nova, tecidos renomados.

Então eu reformava e nós usávamos. Era uma felicidade, primeiro, por estar sempre de roupa nova; segundo, porque ganhamos; e, por último, uma ativação do eu que fiz.

Minha mãe me ensinou muito cedo a crochetar, bordar e costurar, na mão e na máquina. Ela tinha um ateliê de tricô e crochê atrás de casa, e lá havia muitas máquinas, inclusive de costura. Era a minha diversão. Sempre tive habilidades manuais. Acho realmente que ela projetava isso em mim.

Por quanto tempo fizeste isso? Chegaste a reaproveitar roupas usadas para vender ou doar?

Praticamente, dos 10 aos 15 anos. O que não usávamos a mãe dela doava para outras pessoas. Ela dizia: “agora vocês vão tirar dos armários as coisas que não usam mais e colocar para doar, já que ganharam essas”. Vender, nunca pensei a princípio, mas eu imaginava todas essas “criações” em uma loja. Eram calças que viravam saias, vestidos em saias, camisas em vestidos… muita coisa inimaginável eu fazia com aquele acervo.

A grife de crochê ainda existe?

Nessa época, minha mãe, Ieda, tinha uma malharia de crochê e tricô com a prima dela, Luiza. A marca era ielu (Ieda e Luiza). Hoje recém-montamos uma marca que leva o mesmo nome, eu e minha prima Maria Luiza.

Passávamos todas as tardes da nossa infância na malharia e convivíamos com linhas, lãs, máquinas, projetos e clientes. Era aquele clima de criação, produção, correia e noites em claro para elas entregarem suas encomendas. E nós no meio dos deveres da escola e das brincadeiras.

Nossas tardes eram recheadas de moda e empreendedorismo. Isso, com certeza, está no nosso DNA. Nossas avós italianas costuravam e crochetavam impecavelmente. Tenho peças maravilhosas guardadas até hoje! Amo o que tem história, amo as raízes e honro o legado que elas nos deixaram.

Daniana (à esq.) e a prima Maria Luiza Ramos mantém uma grife de crochê e tricô – Foto: Divulgação/NDDaniana (à esq.) e a prima Maria Luiza Ramos mantém uma grife de crochê e tricô – Foto: Divulgação/ND

Quando começaste a lidar com bijuterias? Crias as peças?

Comecei com uma loja no antigo shopping Entrelaços, na avenida Rio Branco, em 1998. Eu trazia de São Paulo, comprava peças e colocava minha marca, Mix Acessórios. Fiquei com a loja por seis anos, vendi para minha cunhada e fui morar em São Paulo.

Com tantas idas e vindas de lá para cá, acabei me apaixonando por aquela vida que não dorme. Então, fui trabalhar com joias na Daslu. Lá encontrei outro mundo, outra realidade, uma economia que realmente reafirmou meu olhar para o comércio.

Voltei e montei uma marca de acessórios com uma sócia, a Tous Bijous. Era varejo, mas o foco era atacado. Criávamos para grandes marcas, como Arezzo, Schütz, Raphaela Booz, Morena Rosa, entre outras, por quase quatro anos.

Logo após, segui sozinha. Com a China invadindo o mercado de acessórios, vindo com tudo, preços muito baixos, o mercado para confecção, fundição, criação deste segmento caiu demais. Algumas marcas migraram para a semijoia ou fecharam. Eu continuei com minha marca, mas direcionei para acessórios de cabelo, a J’Amei Bijou.

Como se deu o teu ingresso na Daslu? Uma loja tão sofisticada deve ser bastante exigente com os funcionários.

Sim, muuuito, muito. Eu tinha amigas lá que me indicaram para uma entrevista. Como eu tive experiência no comércio, tive muitas responsabilidades muito nova – com 18 anos, já tinha um bebê e uma loja (na entrevista elas me perguntaram tudo) – e era do Sul (eles valorizam muito o povo daqui, viu?!), minha entrada foi mais fácil. Fiz um mês de treinamento para, logo após, ser aprovada.

O que viste em Nova York que te instigou a lidar seriamente com roupas usadas?

Fui para Nova York antes de São Paulo, em 2004, por apenas três meses para estudar inglês. Mas tinha muitas horas vagas, e foi uma das metrópoles onde bati muita perna e tive acesso ao mercado de luxo e à moda second hand.

Meus olhos brilhavam, porque tinha o poder de compra de várias peças renomadas com valores acessíveis. O dólar também não era tão alto. Bons tempos!!! (risos)

A quantidade e qualidade de brechós em bairros descolados, lojas, feiras de rua… Um amigo meu, cabeleireiro, que morava lá há algum tempo, me levava para conhecer partes alternativas de todos os distritos e bairros.

Naquela época, eu já era “brechorenta”, entrava em todos os lugares com objetos, roupas, livros e decorações usados. Me perguntava por que não existe isso no Brasil, assim natural, nada escondido, empoeirado ou amarrotado, onde as pessoas entram para comprar e reutilizar o que já foi de alguém um dia.

Empresária de moda investiu também na produção de acessórios de cabelo – Foto: Divulgação/NDEmpresária de moda investiu também na produção de acessórios de cabelo – Foto: Divulgação/ND

Como foi a tua preparação para entrar no ramo? Pesquisa? Cursos?

Nunca me prepararei para as coisas, foram acontecendo aos poucos, uma construção de muitas experiências. Um curso que fiz pelo IED (Instituto Europeo Di Design), juntamente com o Sebrae, foi em Berlim.

Lá também tive contato com feiras de rua, os brechós que eram gigantes e a compra era por peso. Tudo o que você escolhia, colocava em uma balança e pesava: um, dois ou três quilos, como se compra frutas na feira! Comprei casacos maravilhosos e as meninas, 15 que acompanhavam a trip, ficavam enlouquecidas…

Por que fazer um bazar anual itinerante ao invés de um permanente?

Porque as pessoas esperam por ele, cria expectativa tanto para quem compra como para quem deixa suas peças à venda. Minhas clientes da captação fazem a mala o ano todo me esperando! Acho que essa é a magia do bazar!

Florianópolis é um bom mercado para este tipo de negócio?

Sim, eu acho. Antes menos; agora, mais. Como em todo o país, o Brasil não tinha essa cultura. A cabeça está abrindo e elas não sentem mais “vergonha” de vender, nem de comprar!

O brechó até há pouco tempo era associado a produtos de baixa qualidade. Ele foi gourmetizado? Como se tornou opção de compras para a classe A?

Sim, era, pois se tratavam de peças que as pessoas não usavam porque não se encontravam em bom estado. Hoje, com o fast fashion (moda rápida), o consumo acelerou demais, as pessoas compram com mais facilidade e deixam de usar da mesma forma. Acabam acumulando muitas coisas e não sabem o que fazer com elas. O luxo que se tornou mais popular e de fácil acesso a todas classes.

A internet também ajudou esse acesso ao conhecimento, a explorar e encontrar peças em brechós online, plataformas de venda, que somente com a foto você já pode colocar seu produto para vender, pagando apenas uma porcentagem. Você leva ao correio e pronto, recebe o valor que acha justo por uma peça que já usou.

“Moda circular” é algo novo?

Acredito que somente o termo, porque a moda sempre volta. Ela circula realmente se você tiver espaço para guardar e vai usar novamente em alguma outra fase da sua vida.

Mas, hoje, tem um formato diferente, que ainda está sendo introduzido no mercado, em vários segmentos, não só na moda: ter mais qualidade na produção, na matéria-prima, e fazer com que ela tenha uma “vida útil” mais longa. Assim, ela pode ser reaproveitada por outras pessoas, no caso, vendida também.

As primas Maria Luiza (à esq.) e Daniana, companheiras desde a infância, hoje são sócias – Foto: Divulgação/NDAs primas Maria Luiza (à esq.) e Daniana, companheiras desde a infância, hoje são sócias – Foto: Divulgação/ND

Acreditas que comprar e vender roupas, calçados e acessórios de segunda mão tem um propósito além dos preços mais baixos?

Sim! Aliás, é o que eu mais acredito. Acho que a second hand se torna realização de sonhos. Trabalhamos e ganhamos dinheiro para realizar sonhos.

Consumir é a realização de algumas metas: trabalhar para comprar uma casa, um carro, um terreno, e nem sempre tudo isso é novo em folha, muitas vezes já foi de alguém que foi feliz com esse bem e vendeu. Aí você compra e se realiza! E por que não com uma roupa ou sapato, uma bolsa?!!

Presencio tantas mulheres saindo do bazar radiantes, dizendo: “obrigada, Dani!! Comprei a minha primeira Louis Vuitton ‘original’ ou meus primeiros óculos Dolce&Gabbana ou minha Chanel, meu sonho de consumo realizado!”

Como a second hand pode impactar a indústria da moda, que precisa lançar novidades constantemente para girar a cadeia produtiva?

Acho que podemos falar sobre o impacto ambiental que toda essa produção desenfreada está causando. Os novos perfis de consumidores buscam conexões verdadeiras e práticas sustentáveis diante da situação mundial.

A pandemia do coronavírus gerou uma preocupação generalizada com o futuro do planeta,  e o consumo consciente está se tornando um estilo de vida. Estamos voltando às origens, ao vidro, ao fogo, aos orgânicos e à compra mais certeira. Realmente, não sei como vai impactar, mas que vai, vai…

Que marcas costumam aparecer em teus bazares?

Eu mesma faço a curadoria, minuciosa, peça por peça! Nem todas vão para a venda (são devolvidas). Muitas marcas nacionais e internacionais: Hermès, Prada, Louis Vuitton, Dolce&Gabbana, Valentino, Christian Dior, Salvatore Ferragamo, Burberry, Missoni, Cartier, Diesel, Polo Ralph Lauren, Tommy Hilfiger, Animale, Bobô, Mixed, John John, Schütz, Cris Barros, NK, Nike, Le Lis Blanc, Zara.

Produtos de marcas de luxo compõem o J’Amei Bazar – Foto: Divulgação/NDProdutos de marcas de luxo compõem o J’Amei Bazar – Foto: Divulgação/ND

Nesta edição, serão vendidas peças do ex-governador Hercílio Luz (1860-1924). São raridades?

Sim, vamos vender peças incríveis da família. Acho que querem que essas peças fiquem por aqui na região. O acervo é realmente incrível, praticamente nada fala português (risos).

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