A vida é uma festa: Valdir Agostinho é um ícone da arte popular em Florianópolis

Multiartista que atua com música, artes plásticas, teatro, ecologia e performance fará show inédito no Teatro Ademir Rosa, no CIC

Um dia ele sonhou não pescar. Mas foi vendo os pescadores da comunidade da Barra da Lagoa usar a pandorga para arrastar mar adentro a linha de espinhel que Valdir Agostinho se apaixonou pela pipa. Foi até a venda, comprou as únicas três cores de papel, colou, brincou.

E quando brincava, conta ele, o menino tinha a intuição de que um dia faria música e sua música tocaria no rádio. Contrariando o destino dos irmãos, em vez de pescador tornou-se um multiartista, hoje uma referência da arte popular e da cultura regional de Florianópolis.

Cinco décadas dos 63 anos do artista foram dedicadas à arte, à música e ao fortalecimento das tradições culturais – Foto: Anderson Coelho/NDCinco décadas dos 63 anos do artista foram dedicadas à arte, à música e ao fortalecimento das tradições culturais – Foto: Anderson Coelho/ND

No próximo dia 1º de novembro, Valdir Agostinho apresenta show inédito em Florianópolis no Teatro Ademir Rosa (CIC), palco almejado há muitos anos. Para o espetáculo A Vida é Uma Festa ele reúne sua banda Bernunça Elétrica e convidados, entre os quais alguns dos principais nomes da cena musical de Santa Catarina: Guinha Ramires, André FM, Gazu e o grupo Stonkas, entre outros.

Na última terça-feira (22), uma hora antes de juntar-se à família para comer uma galinhada no almoço de comemoração aos 90 anos da mãe, Valdir compartilhou memórias e mostrou preparativos para o show. O figurino está sendo bordado à mão com lacres de latinhas e outros materiais reaproveitados. “Tocar no CIC é o sonho de uma pessoa merecedora, que lutou muito pela música, pela arte” disse.

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E lutou mesmo. Dos 63 anos de vida, pelo menos 50, pelos cálculos, foram dedicados à arte, à música, ao fortalecimento das tradições culturais da cidade e à causa ambiental. “A Ilha precisa se reconhecer e o Valdir Agostinho é a pessoa certa para isso. Ele é todos nós. Carrega a ancestralidade açoriana”, afirma Nani Lobo, músico e reconhecido diretor musical no Estado.

“A extinção da pesca é a mesma do mané”

De todas as vertentes do menestrel Valdir Agostinho – performance, música, Carnaval, artes plásticas, arte-educação, ecologia — a música é certamente uma das principais. O pai e o tio tocavam em bailes da região. Quando menino, cresceu em meio ao Terno de Reis, as cantorias do boi de mamão, da Festa do Divino. Todas essas referências ele incorporou, já aos 15 anos, quando comprou o primeiro violão. Nos anos 1990 liderou a banda Bernunça Elétrica e o primeiro e único CD foi lançado em 1998, A Hora do Mané: uma combinação de temas regionais e música popular.

“Para mim, ele é como Chico Science de Florianópolis. A música dele é regional, rock’n roll e universal ao mesmo tempo. Traz a questão da reverência à natureza.  Muitos grupos, como o próprio Dazaranha, bebem dessa fonte”, opina o músico Nani Lobo, que junto a Guinha Ramires assinou a produção musical de A Hora do Mané.

O manezinho é referência da arte popular e da cultura regional da Capital – Foto: Anderson Coelho/NDO manezinho é referência da arte popular e da cultura regional da Capital – Foto: Anderson Coelho/ND

A irreverência e a coragem para falar o que ninguém tinha coragem também são evidentes na trajetória do artista. Em defesa do meio ambiente e da preservação da Barra da Lagoa, cantou denúncias: “perdendo amor ao chão como quem não em mais fé / a extinção da pesca é a mesma do mané”, diz a canção O Rio que Corre. Contra a especulação na Barra, bradava em alto e bom som: a “Barra da Lagoa não é Miami”.

Nascido e criado na Barra

Valdir Agostinho nasceu na cabeceira da ponte que conecta o Centrinho da Lagoa da Conceição à Avenida das Rendeiras, onde o pai tinha um terreno e um galpão de pesca. “Papai depois comprou essa chácara [hoje a chácara deu lugar a algumas casas no alto do morro na altura do número 2.200 da Rodovia Jornalista Manoel de Menezes, logo depois da Praia Mole] e viemos aqui para cima. Era enorme, tinha um monte de bananas”, lembra o artista.

Na época, o sonho dos rapazes do bairro era só ir pescar no Rio Grande, cidade no Sul do Rio Grande do Sul que é referência em pesca. Iam para lá para trazer dinheiro e poder casar. “E eu sonhava que iria para a cidade de Floripa. E eu fui”.

Na cidade, Valdir entrou para a faculdade da vida. Foi trabalhar na então famosa galeria de arte Estúdio A2. Conheceu músicos e artistas, de Rita Lee a Gilberto Gil. Participou de vernissages, trabalhou com o saudoso Beto Stodieck. Conviveu com grandes expressões da cultura e arte da cidade: Martilho de Haro, Franklin Cascaes, Eli Heil.

“Aquilo abriu muito a minha mente. Acho que já era diferente dos meus irmãos. Eu fazia o meu brinquedo e era bem caprichoso e já tinha visão. Eu pegava o balaio de siri e ia vender aqui na Praia das Areias [atual Av. das Rendeiras]. Quando eu fui vender CD, parece que era siri: ‘vai comprar um CD só?’”, conta.

O colorido do plástico

Se quando menino Valdir Agostinho fez a primeira pandorga usando só três cores de papel (amarelo, papel de jornal e branca), as únicas à venda na época, imagine quando o artista viu chegarem as empresas de plástico: uma imensidão de cores e formas.

Um dos figurinos do show está sendo bordado à mão com lacres de latinhas – Foto: Anderson Coelho/NDUm dos figurinos do show está sendo bordado à mão com lacres de latinhas – Foto: Anderson Coelho/ND

“Comecei a me iludir. Pensava: ‘vai dar para fazer isso e aquilo’, como se fosse uma coisa bonita. Depois é que eu levei um susto. Comecei a andar nas praias, rios e vi muita coisa”, lembra.

Foi assim que o artista passou a trabalhar com materiais recicláveis e descartados. O ateliê dele é hoje um universo de criações feitas com tudo o que foi coletando ao longo dos anos. Guitarra feita com calota de carro, garrafas pet transformadas em manto. A arte-educação para crianças foi uma consequência. Por esse trabalho, foi convidado a representar o Brasil em vários lugares do mundo.

Artista intuitivo e autodidata

O artista transita entre a performance, o teatro, a música e os trabalhos manuais. Fez grandes Carnavais e saiu vencedor da maioria. Não frequentou a academia. Refere-se ao tio ao falar de intuição e da trajetória como autodidata.

“Meu tio era um curador da Barra da Lagoa. Então eu trago aquilo do meu tio, isso de ser intuitivo. Quando tu vai falar uma coisa pra mim que está no livro, mais ou menos eu já tinha assimilado. Acho que as coisas estão no ar e eu capto. Meu tio que não estudou em lugar nenhum dizia o tempo que ia dar, fazia as moças casarem, quando estava amarrado, desamarrava as coisas. Meu tio já tinha isso e eu acredito nisso. Então se eu acredito, eu posso atuar. A fé nada mais é do que acreditar e ter a certeza de que se pode”, ensina.

Para a pesquisadora, professora de história da arte e curadora Sandra Makowiecki, Valdir é um personagem ímpar da cultura de Florianópolis e um artista considerado naïf, termo usado para quem é autodidata e desenvolve linguagem pessoal e original de expressão.

“O Valdir mistura arte e cultura, porque ele cria coisas que não existem, mas o papel dele é mais importante como agente cultural. É um reprodutor criativo das tradições, da alma pura, da pandorga, da criança que existe dentro da gente. Todo esse universo é muito misturado”, diz Sandra.

Antes de finalmente juntar-se à família para o almoço de 90 anos da mãe, Valdir compartilhou mais uma memória. “Olho lá para trás e lembro da casa de uma senhora. Quando eu ia vender siri, tinha que passar na casa dela e sempre via o lugar cheio de recortes na parede. Ela recortava figura de cachorro e pintava com lápis de cor. Recortava as galinhas com os pintinhos e descobri que dali veio a minha paixão. Foi ali. Antes disso só na casa da minha mãe, que para enfeitar os armários para botar os pratos e as canecas, fazia aqueles papeizinhos com rendinha, com picotado, que era da oração do Pão por Deus”.

Serviço:

O quê: A Vida é Uma Festa, show de Valdir Agostinho & Bernunça Elétrica e convidados
Quando: 1/11, 21h
Onde: Teatro Ademir Rosa, no CIC, Av. Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica, Florianópolis
Quanto: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia)

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