Reduto do Rock em Florianópolis, Célula se transforma para funcionar na pandemia

Aglomerações e euforia dos shows foram substituídas por mesas e distanciamento. Mudanças no Célula Showcase para sobreviver na pandemia tornaram a casa mais intimista

Após nove meses sem funcionar, o Célula Showcase reabriu as portas em novembro. A retomada ocorreu mais por necessidade do que por vontade, conta Geraldo Borges Costa, um dos proprietários. Uma das mais importantes casas de show em Florianópolis, reduto do Rock, enfrentou risco de sobrevivência justo no ano que completou uma década de vida.

Célula Showcase, casa de shows de rock em Florianópolis, se adaptou para existir na pandemia‘Todo máximo cuidado é mínimo, em relação a pandemia’ é o lema que orienta a equipa na retomada, conta Borges – Foto: Caio Jory/Divulgação/ND

Desde o último show em ‘tempos normais’, um especial sinfônico com as músicas do Legião Urbana no dia 14 de março, até a retomada no dia 23 novembro, o Célula não abriu sequer para ensaios. Para pagar as contas, Borges e o sócio Caio Jory chegaram a organizar um crowdfunding, no qual arrecadaram R$ 25 mil.

Borges atribuí o sucesso da campanha ao fato do Célula não ser ‘um simples bar, mas ‘um movimento, uma casa’. Herança do Clube da Luta, importante movimento da música autoral em Florianópolis, o Célula é referência na América Latina, afirma Borges.

Essa nova ‘temporada’ da casa é batizada pelos proprietários como Célula #NovoNormal. O momento que exige nos mantermos vivos contra a Covid-19 imprimiu novas formas de interagir e experimentar coletivamente a música, alterando a forma como ela é apresentada.

Experiência mais acústica e intimista

“Antes ocorriam os shows e vivíamos isso. Agora cada um fica sentado no seu canto, os shows são mais acústicos e intimistas e não tão pulsantes” conta  Borges. O público que se aglomerava em pé agora está distribuído em mesas na frente dos palcos, com no máximo oito pessoas em cada mesa. A temperatura de cada cliente é aferida antes de entrar na casa.

Respeitando as normais estaduais, a ocupação máxima passou de 400 pessoas para 100. Em pouco mais de dez shows realizados desde a reabertura, o maior público recebido foi de 70 pessoas. O distanciamento físico também restringiu a realização de brincadeiras e a participação do público.

Para diminuir a circulação no local, a casa conta agora com um garçom. Ele também fiscaliza  o cumprimento das medidas sanitárias pelos clientes. Dentre as dificuldades, estão ‘fazer a galera beber sentada’ e controlar a interação. As vezes o pessoal acha rígido demais, mas atende. “É como a função de um pai” conta Borges, aos risos.

Palco adaptado

No primeiro show desta nova etapa, os organizadores esbarraram nas dificuldades impostas pelo decreto estadual. Subia ao palco a banda Phantom Lord, famosa pelos covers do Metallica, que conta com quatro integrantes.

O problema é que as normas da Ses (Secretaria Estadual de Saúde) exigem limite máximo de três pessoas no palco. O jeito foi deixar o baixista da banda tocando no camarim, e ‘levar o som’ através de uma estrutura de extensões.

Barreira de acrílico separa as bandas do público, e palco é restrito a três pessoas – Foto: Verônica Bochi/Divulgação/NDBarreira de acrílico separa as bandas do público, e palco é restrito a três pessoas – Foto: Verônica Bochi/Divulgação/ND

Como a maioria das bandas contam com mais de três integrantes, principalmente as autorais, a curadoria ficou mais complicada. Em alguns casos, os grupos se adaptaram com o uso de samplers (equipamentos que armazenam os sons).

Neste novo cenário de mesas distribuídas pela casa e público sentado, o bar do Célula Showcase também passou a ofertar comida. Por enquanto são vendidos apenas espetinhos. O objetivo é tentar contornar as baixas da casa, que ainda opera no vermelho.

“A célula é uma bicicleta muito grande. Precisa de força”, afirma o produtor. Orientados pelo lema ‘todo máximo cuidado é mínimo, em relação a pandemia’, a equipe assumiu a responsabilidade de zelar pelos clientes. E pede a confiança do público.

Questionado se os problemas financeiros podem levar ao fechamento da casa, Geraldo é enfático. “Não existe plano B pra gente. Vamos ter que segurar a Célula, nem que eu tenha que vender suco de limão. É uma promessa que fiz”.

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