Cercado de mistérios, Belchior deixou rastros das passagens por Santa Catarina

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Amizade inesperada com um professor da UFSC fez o artista cearense passar temporadas nestas terras. Sempre com discrição, lugares específicos, bons livros e vinhos

A obra de Belchior vive e se mistura com a arte e os ‘causos’ guardados na memória de catarinenses. O Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, foi um dos refúgios do cantor e poeta cearense durante sua vida. É de lá, inclusive, que vem o novo álbum do artista, Belchior Canta Cruz e Souza, que está em fase de financiamento coletivo. A meta é alcançar R$ 126 mil ainda neste ano.

Trovador misterioso, Belchior não deixou marca diferente em suas passagens por Santa Catarina. Com a ajuda de dois amigos e um conhecido, a reportagem refaz alguns dos rastros deixados pelo artista nestas terras. E não foi só nas da Capital.

Belchior em FlorianópolisPor causa do amigo José Gomes Neto, Belchior praticamente adotou Florianópolis – Foto: Clovis Medeiros/Arquivo Pessoal/ND

O encontro que te trouxe

Para refazer os caminhos de Antônio Carlos Belchior, o professor José Gomes Neto é peça-chave. Morador do Sul da Ilha de Santa Catarina e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), ele não imaginava que conheceria o cantor, muito menos que se tornaria um de seus grandes amigos e confidentes.

O encontro inesperado foi lá nos anos 1970. Quando Belchior descobriu, a partir de uma reportagem publicada em São Paulo, que um professor universitário em Florianópolis estaria usando suas músicas para ensinar português.

Ao chegar à Ilha, pouco depois do lançamento do disco Alucinação (1976), deixou avisado ao então empresário que “em Santa Catarina, você dá um jeito de trazer aquele professor”.

Assim conheceu José Gomes Neto, que usava as letras do cearense para otimizar a didática de ensino. “Português é uma língua lindíssima e você tem que trabalhar a beleza de uma língua explorando-a”, defendeu. “Isso que me ligou a Belchior”, completou.

Belchior e o professor José Gomes Neto em Florianópolis – Foto: Clovis Medeiros/Arquivo Pessoal/NDBelchior e o professor José Gomes Neto em Florianópolis – Foto: Clovis Medeiros/Arquivo Pessoal/ND

Conectaram-se intelectualmente e a amizade deslanchou. Belchior, que antes era só uma referência distante nas aulas, passou a também tirar dúvidas dos alunos. Visitou, por exemplo, os cursos de Letras e de Jornalismo da universidade – o último, ficava num “puxadinho” isolado no prédio do CCE (Centro de Comunicação e Expressão) na década de 1970.

“O artista ia dar mais prazer aos alunos do que o velho professor de português”, brinca Gomes.

O sentimento era recíproco. Quando vinha à Capital catarinense, o poeta nordestino deixava evidente o apreço pelos alunos. “Professor, nós teremos aquele encontro maravilhoso com a juventude da universidade?”, perguntava. Gostava de gente crítica.

Gomes se tornou também um dos protetores da obra de Belchior. Entre as raridades estão cartas e objetos deixados pelo compositor nordestino. O acervo impressiona até a família do músico, diz o amigo. O professor perdeu as contas de quantas vezes Belchior se isolou em sua casa no Ribeirão da Ilha.

Casa do professor José Gomes Neto, endereço fixo de Belchior no Ribeirão da Ilha (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/NDCasa do professor José Gomes Neto, endereço fixo de Belchior no Ribeirão da Ilha (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/ND

A relação dos dois era tão profunda que o professor costumava ser convidado para viajar com a banda durante as turnês no Sul do País. “O empresário dele me colocava na bagagem”, brinca. Foram mais de 30 anos de amizade.

Na SC do cearense, fartura de vinho e reflexões

Na imprensa nacional, Belchior tinha fama de poeta indecifrável. No convívio social, era apenas alguém que queria confabular sobre literatura, história, música e filosofia. Para isso, a saída era se isolar.

O ar enigmático cerca toda sua carreira, mas se intensificou na última década de vida, quando a presença nos palcos e nos estúdios foi gradualmente cessada. O artista “exilado” também passou a morar em endereços desconhecidos, até sua morte em abril de 2017, em Santa Cruz do Sul (RS). Sua ausência o tornou presença marcante no imaginário dos brasileiros.

José Gomes viveu muitos desses momentos íntimos com o amigo em Florianópolis, isolado dos holofotes. Foi assim que o professor desvendou suas peculiaridades, gostos e hábitos. “Quando encontrava livro de assunto alheio ao seu viver diário, quase que se apaixonava na hora pelo novo tema”.

Rua do professor Gomes era rota de Belchior no Ribeirão da Ilha (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/NDRua do professor Gomes era rota de Belchior no Ribeirão da Ilha (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/ND

“Aqui em casa, aprendeu a gostar de gastronomia, de psicanálise e de linguística”, detalha. “Levava o livro para a cama e no outro dia fazia-me perguntas inesperadas, por virem de leigo”, relembra.

Belchior adorava os clássicos. Mas para listá-los, Gomes revela que seria necessário enumeração por países e gêneros. “Dizer de livros preferidos é uma temeridade”, assegura. O amigo se atreve a listar alguns nomes:

  • Dante
  • Cruz e Sousa
  • Augusto dos Anjos
  • João Cabral de Mello Neto

As discussões poéticas normalmente se limitavam à casa do professor, apesar da insistência de Gomes para que desbravassem juntos a Ilha.

“Ele não queria ser reconhecido, não queria que as pessoas interrompessem essa conversa”, justifica. Às vezes, Belchior era a própria trilha sonora desses momentos. Fora dos palcos, ele tocava só para as pessoas próximas.

Registro atual da piscina onde José Gomes Neto e Belchior costumam conversar, no Ribeirão da IlhaRegistro atual da piscina onde José Gomes Neto e Belchior costumavam conversar, no Ribeirão da Ilha – Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/ND

Gomes lembra que Belchior o induzia a permanecer em isolamento durante a estadia no Ribeirão:

“Professor, vamos almoçar em casa, né?”, perguntava ao amigo, que era quem prepararia a comida, já que o músico era avesso à cozinha. Belchior preferia passar o tempo envolvido na rede que, até hoje, decora a casa no vilarejo florianopolitano. Os bons tempos da boemia ficaram ali eternizados.

Para variar o ambiente, a dupla trocava a sala pela área externa. “Aqui em casa, com muita manobra, ele entrava na piscina. Estávamos tomando vinho e eu dizia: ‘Bel, vamos conversar lá embaixo, que eu quero ir para a água’”. O calção reservado pelo cearense aos tais banhos continua até hoje no armário de Gomes.

“Ele ficava na borda com a mão no copo”, lembra. “Não estava ali achando muito agradável”, sorri. Belchior também não gostava de praia e devia ter pisado na areia umas três vezes durante a vida.

Na rede, Belchior costumava ler e fumar charutos – Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/NDNa rede, Belchior costumava ler e fumar charutos – Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/ND

Carta de SP ao Ribeirão

Livro de caligrafia medieval usado por Belchior está guardado na casa de Gomes, no Ribeirão da IlhaLivro de caligrafia medieval usado por Belchior está guardado na casa de Gomes, no Ribeirão da Ilha- Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/ND

O conhecimento trouxe doses precisas de deboche a Belchior. Antigo seminarista, ele utilizava jargões bíblicos em cartas que enviava ao amigo de Florianópolis.

Uma delas, intitulada “Carta de São Paulo ao Ribeirão da Ilha”, fazia referências às cartas de Paulo no Novo Testamento. “Usou uma linguagem medieval”, conta o professor.

Exibindo uma caligrafia rebuscada e exercendo o direito de ser artista em tempo integral, Belchior chegou a enviar correspondências de mais de 16 páginas, em versos.

No convencimento

“Nós vamos para um restaurante bem simples”, disse Belchior certa vez. E foi assim, convencido pelo amigo Gomes, que o cearense descobriu gosto pelo tradicional restaurante Porto do Contrato, no Ribeirão da Ilha. Retornaram algumas vezes ao local.

Restaurante Porto do Contrato virou um dos favoritos de Belchior (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/NDRestaurante Porto do Contrato virou um dos favoritos de Belchior (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/ND

De acordo com o professor, a estrutura do restaurante permitia encontros bastante reservados. A estética histórica também ajudava. Isso porque, com seus pilares e trapiches, ainda hoje o estabelecimento rememora a antiga atividade portuária dos açorianos na Ilha de Santa Catarina.

“O dono conseguia uma mesa bem isolada. Às vezes eu deixava o Belchior lá e ia para o Centro, ia na UFSC. Quando voltava, ele estava na terceira garrafa de vinho, com charuto e um livro”, lembra Gomes.

Belchior gostava das mesas mais isoladas (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/NDBelchior gostava das mesas mais isoladas (foto atual) – Foto: Leo Munhoz/ND

Paisagem que emocionava

Para o maestro João Mourão, era a beleza natural de Santa Catarina que inspirava Belchior. O parceiro de banda por mais de 10 anos, que agora vai se dedicar a produzir o novo álbum do cearense, revela um dos lugares favoritos do músico nestas terras: a Serra do Rio do Rastro, no Planalto Sul.

“A paisagem mexia muito com ele, o deixava muito emotivo. Ele falava muito sobre isso”, revela.

elchior, a banda e o professor Gomes na Serra do Rio do Rastro, na Serra catarinense Belchior, a banda e o professor Gomes na Serra do Rio do Rastro, na Serra catarinense – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Mas segundo ele, o negócio de Belchior era mesmo Florianópolis. Ribeirão da Ilha, a terra do amigo, tinha seu coração. “Gostava muito”, revela.

Um cúmplice na Capital

O professor Gomes conta que os jantares nos restaurantes de Florianópolis eram quase lei depois das apresentações. Era um protocolo dos empresários contratantes para reunir os profissionais dos shows.

“Duas vezes jantamos no Barracuda [na Lagoa da Conceição], mas eu forçava a barra para ir ao Ribeirão”, conta o professor. A preferência tinha seu bom motivo: “jantar pede vinho”. Ele conseguiu que alguns encontros acontecessem no tradicional Rancho Açoriano.

Belchior e professor Gomes jantaram duas vezes no restaurante Barracuda, na Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/NDBelchior e professor Gomes jantaram duas vezes no restaurante Barracuda, na Lagoa da Conceição – Foto: Leo Munhoz/ND

A amizade de mais de 30 anos se tornou fraternal – e os eventos a trabalho mostravam isso. “Quando nós saíamos para restaurantes, a banda ia no carro disponibilizado pelo contratante. Mas Belchior costumava ir comigo. Raramente, o empresário dele ia no meu carro”.

Gomes diz que é “ruim de data”, mas que tudo isso aconteceu há uns 20 anos. “Para mim foi tudo ontem”, brinca.

Alguns encontros após os shows aconteceram no tradicional Rancho Açoriano, no Ribeirão – Foto: Leo Munhoz/NDAlguns encontros após os shows aconteceram no tradicional Rancho Açoriano, no Ribeirão – Foto: Leo Munhoz/ND

Exímio imitador dos manezinhos

Em qualquer lugar, Belchior roubava a cena com seu jeito “gozador” e debochado, embora atencioso. A afirmação é do parceiro de banda João Mourão.

Belchior chamava a atenção também pela personalidade acolhedora. “As pessoas vinham falar com ele o tempo todo”, relata. “Às vezes, a pessoa já estava meio que indo embora e ele lembrava de alguma coisa, perguntava e trazia a pessoa de novo para ele”.

O contato e as histórias com os fãs catarinenses viravam até assunto de bastidor. “Ele brincava, imitava os manezinhos”, lembra Mourão. Tinha um humor bastante único. A banda, claro, se divertia com o parceiro musical.

Ribeirão da Ilha virou vilarejo de Belchior – Foto: Leo Munhoz/NDRibeirão da Ilha virou vilarejo de Belchior – Foto: Leo Munhoz/ND

Ele lembra, por exemplo, que, na década de 1980, os músicos pararam em um restaurante de beira de estrada no caminho para Lages, na Serra catarinense. “Tinha uma pessoa fazendo aquele jogo que esconde uma sementinha num chapéu e as pessoas apostam”, descreve.

“Ele entrou no jogo, de lado, fazendo um comentário, desafiando o cara. Quem estava promovendo o jogo não o reconheceu, mas as pessoas que estavam em volta sabiam que era Belchior e se divertiram, como se fosse um jogo teatral”, diverte-se.

Professor Gomes, que confirma a audácia do amigo, destaca um diálogo do artista com admiradores em um dos restaurantes florianopolitanos:

-Você é quem estou pensando? – questionou um fã.

-Se você estiver pensando em Jesus, não sou quem você está pensando – brincou Belchior.

No Sul catarinense, “não era pra todo bico”

Para o jornalista Zeca Virtuoso, que o encontrou a trabalho em um evento de promoção da paz na Unesc (Universidade do Extremo Sul Catarinense), em Criciúma, Belchior era agradável, simpático e simples. “Tinha perfil de artista, era um cara famoso. Ao mesmo tempo, era um intelectual que não era pra todo o bico”, avalia.

Na ocasião, Belchior recitou poesias para os estudantes, um de seus públicos preferidos. Depois, foi jantar com colaboradores do evento na antiga pizzaria Florença, no Centro da cidade.

Ex-reitor da Unesc Edson Carlos Rodrigues, Belchior e o jornalista Zeca VirtuosoEx-reitor da Unesc Edson Carlos Rodrigues, Belchior e o jornalista Zeca Virtuoso – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Foi lá no Sul catarinense que Belchior revelou suas visitas frequentes ao Estado e a busca por parcerias para projetos. “Estava em busca de novos talentos e achava que havia oportunidades interessantes na universidade”, conta Virtuoso, que teve aulas com o professor Gomes na UFSC – onde foi introduzido ao universo de Belchior.

“Nas aulas dele, a gente discutia alguns textos musicais de Belchior”, relembra. “Eu peguei muito gosto pela música dele, tocava quase todas nos anos que morei em Florianópolis”, completa. Virtuoso era conhecido pelos amigos como “Velquior”.

Gente como a gente

Apesar de ser um apreciador de vinhos e charutos caros, o compositor buscava manter uma vida bucólica – sempre que as grandes turnês permitiam. “No palco, tudo bem, ele era o Belchior”, pondera o maestro João Mourão. “Mas essa superficialidade da questão de estrelato não mexia com ele”, enfatiza.

Fora das apresentações, ele ficava em chácaras e sítios pouco refinados. “As pessoas estranhavam uma estrela desse tamanho querer ficar naquele mundinho, enfiado no meio do nada. Mas quando elas encontravam com ele, sentiam que ele estava perfeitamente adequado àquele espaço”.

Mourão chegou a fazer o arranjo de uma música de Belchior inspirada nas cidadezinhas por onde passou:

“De Nashville pro sertão (se engane, não)

Tem meu irmão, fora da lei, muito baião

E, em New Orleans, bandos de negros afins

Tocam em bandas, banjos, bandolins

Onde ‘jazz’ meu coração”

(trecho da música Onde jaz meu coração, de Belchior)

A música, marcada por acordes de um banjo country, é considerada pelos críticos uma das mais tristes do disco. Com a paródia do estadunidense Bob Dylan, o compositor faz referência a redutos do Nordeste brasileiro.

Belchior Canta Cruz e Souza

Belchior deixou musicados oito poemas do catarinense Cruz e Sousa, precursor do simbolismo no Brasil. As canções chegaram a ser interpretadas em sua última turnê, em 2005, nos palcos de 10 cidades de Santa Catarina. No entanto, a obra nunca foi efetivamente lançada.

Daquela época ficou um CD com as gravações caseiras, guardado até hoje na casa do amigo José Gomes Neto.

Primeiro CD dos poemas de Cruz e Souza musicados por Belchior, em 2005 – Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/NDPrimeiro CD dos poemas de Cruz e Souza musicados por Belchior, em 2005 – Foto: José Gomes Neto/Arquivo Pessoal/ND

A produção do álbum Belchior Canta Cruz e Souza depende do sucesso do financiamento coletivo. Contudo, a expectativa é de que a execução comece ainda em outubro.

Embora Belchior tenha musicalizado os poemas já em 2005, questões operacionais impediam que o álbum fosse lançado antes. “Para realizar esse projeto, nós teríamos que isolar Belchior dos instrumentos que ele usou na gravação original. Não havia tecnologia para isso”, revela José Gomes Neto. Ele explica que toda a composição foi gravada em apenas uma guia musical, diferente das grandes produções.

Mas a situação mudou de figura no último ano. Isso porque o maestro João Mourão entrou em contato com o professor, que já havia sinalizado interesse na produção do disco. Ele contou que, finalmente, tinha condições de fazer essa “limpeza”. Para Gomes, “surgiu a esperança”.

Considerando a legião de fãs que Belchior ainda preserva e inspira, alcançar a meta é um sonho possível. O músico de Florianópolis Maurício Peixoto, por exemplo, revela que a poesia do cearense influencia sua trajetória musical – mesmo que inconscientemente.

Vocalista e guitarrista da banda Outros Bárbaros, Peixoto fez uma live em 2020 tocando, na íntegra, o álbum Alucinação –  disco que foi porta de entrada dele para a arte de Belchior. “Comecei a consumir. As letras começavam a fazer cada vez mais sentido. Há várias camadas de sentidos nelas”, ressalta o músico.

A atemporalidade das músicas do cantor também promove identificação aos jovens. Gerações de fãs devem se surpreender com as canções. “Ainda hoje existe esse interesse pela obra dele. Fala sobre coisas do universo cotidiano das pessoas”.