Com fones no ouvido, cada um no seu mundinho

Rotina. No ônibus, no carro ou na rua, cada vez mais as pessoas usam o fone para ficarem isoladas na multidão

Giovana Kindlein

Especial para o ND 

Débora Klempous/ND

Alex Martins e Bárbara Rodrigues. Lado a lado no ônibus, mas o mundo deles parece estar separado por um oceano

Em uma manhã nublada de abril, a caminho da universidade, oito dos 42 passageiros no ônibus, da linha 185 da Transol (Ticen – UFSC – semidireto), usam fones de ouvido conectados a celulares, iPods e MP3.

Alheios aos sons externos, eles não se importam com o invariável trajeto de 11 quilômetros de todos os dias e se concentram nos ritmos preferidos que energizem seus
ouvidos. Não estão sós, apenas em silêncio.

A individualização em um ambiente com grande concentração de pessoas é cada vez mais comum nos dias de hoje. De óculos escuros e com fones de ouvido, a acadêmica de letras/português Bárbara Rodrigues, 27 anos, não acredita que o isolamento seja negativo. “Traz tranquilidade”, diz ela ouvindo músicas do bom moço Chris Martin, vocalista/pianista da banda britânica de rock alternativo e melódico Coldplay.

Dentro do ônibus, ao lado dela, está o universitário Alex Martins, 20, da 4ª fase de designer, que normalmente passa de 45 minutos a 1 hora, a cada percurso. Com os olhos fechados e também com fones de ouvido, ele se entretem com a batida pesada da banda canadense Hap Hap.

“É uma forma de se desligar da rotina e botar um pouco de alegria na vida”, afirma. Para ambos, o fato de duas pessoas estarem sentadas, lado a lado, não significa necessariamente que haveria interação social se não estivessem com fones de ouvido. O simples contato físico não garante a interação social.

Estar individualizado no seu próprio universo musical soa, aparentemente, como algo excludente, nocivo ou de isolamento.

Ideia totalmente defenestrada pelo jornalista e professor de sociologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Jacques Mick. “Não é condicionante o fato de um passageiro interagir com outro só por não estar usando fones de ouvido. É contraditório também dizer que aquele que está usando fones não esteja interagindo com o mundo externo”, afirmou.

Mick acrescentou que “hoje, o fone de ouvido pode permitir que o indivíduo ouça rádio para se informar, serve para fazer um curso de línguas, ou ainda, entre em rede com determinado grupo, além de ouvir música”.

 

Débora Klempous/ND

Diogo da Silva. “É preciso que o coletivo respeite o mundo de cada um”

Comunicação ao avesso

Na semana passada, a profissional de relações públicas Lara Perdigão, 43 anos, foi para Palhoça, de ônibus, e lembra-se da dificuldade que teve para obter uma informação.

“Eu precisava saber o melhor ponto onde parar para ir a determinado lugar. A menina que viajava sentada do meu lado estava com fone de ouvido. Resolvi olhar para trás para ver se conseguia a informação. Havia duas estudantes, cada uma com um fone, ouvindo o mesmo MP5. Por fim, levantei e atravessei todo o ônibus para perguntar ao cobrador”, relata.

Como especialista em comunicação na área de turismo e hospitalidade, Lara está sempre disponível para prestar informações e sentiu na carne a falta de atenção para com o próximo. “Em que época estamos?”, questiona.

“As pessoas moram em coletividade, mas não vivem em coletividade. Ao nos fecharmos em nossos fones de ouvido, estacionados nas músicas que escolhemos, perdemos oportunidades de conhecer novas pessoas, conversarmos, ou dividirmos com quem está do nosso lado algo que nos incomoda ou engrandece”, lamenta.

Mundo cada vez mais virtual

O indivíduo se comunica cada vez mais de forma virtual. Com a massificação do celular, é inegável a mudança que houve no modo como as pessoas se relacionam com a tecnologia. O celular tem sido usado de diferentes formas e para diferentes finalidades. Ao longo dos últimos 15 anos, de acordo com o professor Jacques Mick, vários dispositivos tecnológicos de comunicação simultânea foram se incorporando ao telefone celular, como SMS, rádio, MP3 e podcast. “Novos hábitos se estruturam a partir da universalização do acesso a estes novos dispositivos”, analisa.

Outro exemplo claro desta universalização são as câmeras digitais. “Hoje, tudo mundo tem e usa para filmar atos de violência, para contar histórias, para registrar fatos, além de fotografar”, explica e, ao mesmo tempo, instiga: “O que pode ser mais interessante e melhor para você: um contato fortuito e esporádico ou algo que você escolhe fazer?” As relações sociais estão sendo recriadas em novas plataformas.

Já para o filósofo Diogo Araújo da Silva, 27, o uso de fones permite que cada um se dedique ao seu mundo íntimo e isto precisa ser respeitado pelo coletivo.  O isolamento social não é necessariamente provocado pelo uso dos fones de ouvido. “Isto depende da personalidade do indivíduo”, diz o médico psiquiatra Marcos Zaleski.

Lei que proíbe música alta em ônibus aguarda sanção na Capital

Está para ser sancionada pelo prefeito da Capital, Dario Elias Berger, a lei que proíbe o uso de equipamentos de som ou celulares com música alta no transporte público de Florianópolis. O projeto de lei 14.591/2011, do vereador Cesar Luiz Belloni Faria, que tramita desde o dia 22 de agosto do ano passado, deverá provocar o aumento do uso dos fones de ouvido no ônibus porque isenta de penalidades o usuário que estiver com o equipamento.

O projeto de lei é simples e tem apenas quatro artigos. “Esta lei tem caráter educacional”, diz o vereador. O descumprimento da lei, de acordo com o artigo 2º, implicará em duas penalidades: solicitação para que o passageiro desligue o aparelho sonoro e, em caso de recusa, o condutor do ônibus deverá solicitar a saída do passageiro infrator.

O artigo 3º diz que os veículos de transporte público deverão ter sinalização para indicar a proibição. Semelhante lei já funciona em Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e recentemente em Salvador (BA).

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