Como a ascensão das plataformas de streaming mudou a vida de artistas de SC

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Estúdios caseiros e facilidades na divulgação de materiais fazem parte da nova rotina de artistas de SC - mas isso não significa que viver de música independente anda mais fácil por aqui

Estúdios caseiros e acesso democrático às plataformas de streaming. A junção desses agregadores mudou a forma de fazer música em Santa Catarina. Se há pouco mais de uma década artistas eram reféns das grandes gravadoras, hoje o ritmo de produção de músicos liberais do Estado anda a toque de tamborim de samba carnavalesco – acelerado.

Artistas catarinenses têm se adaptado a novas formas de produzirArtistas catarinenses têm se adaptado a novas formas de produzir – Foto: Divulgação/ND

O cantor e DJ Jean Mafra, que está há mais de 20 anos no ramo, confirma que mais músicas catarinenses têm sido lançadas na última década.

Ele começou a compor no final dos anos 1990, quando tinha 18 anos, época em que o sucesso dos artistas era condicionado às poderosas gravadoras. Com a banda Samambaia Sound Club, formada em 2006, Jean emplacou na TV nacional. Um grupo independente em meio a gigantes da música no país.

“Na época, a gente já tinha custeado o primeiro disco a partir de shows. Não tinha dependência de gravadora”, comentou.

A banda catarinense era, no entanto, um caso à parte num universo crescente de “músicos de garagem”.

Quem queria mostrar serviço tinha que sair à caça. A produtora cultural Luanda Wilk conta que, naqueles tempos, a distribuição das músicas era um processo rudimentar.

“O pessoal mandava ‘fitinhas’, ia atrás dos produtores e estúdios locais”, relata. “Às vezes, botavam mais de uma banda nela”, continua. Gravavam seus materiais e faziam o trabalho de divulgação à sua maneira.

Altos e baixos

A música em Santa Catarina é marcada por fases. Às vezes, revigorada. Em outros momentos, falta suporte. São essas particularidades, das diferentes épocas, que compõem a “cena” cultural catarinense.

Em 1990, conforme Mafra, foi nos palcos do teatro que a música destas terras se fortaleceu.

Jean Mafra trabalha com música há mais de 20 anosJean Mafra trabalha com música há mais de 20 anos – Foto: Ana Carina Baron/Divulgação/ND

O CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis, foi um “aglutinador” de bandas e fãs, movimentando a arte regional de forma bastante expressiva. O local passou a ser ponto de encontro de jovens que queriam assistir a grupos hoje conhecidos da música catarinense.

Dazaranha, de Florianópolis, e Primavera nos Dentes, de Biguaçu, faziam seus nomes por lá. Esse último ficou marcado como uma das manifestações mais expressivas da produção musical independente no Estado.

Nos anos 2000 foi a vez das casas de shows darem espaço às bandas, que iam se multiplicando em solo catarinense. Ao mesmo tempo, crescia também o público engajado, que lotava os espaços, cantava as músicas e garantia o faturamento do bar com alto consumo de cervejas enlatadas.

Foi lá que Clube da Luta, Aerocirco e Samambaia Sound Club, por exemplo, conseguiam preencher as 800 vagas da Célula, tradicional casa de shows de rock no João Paulo, em Florianópolis – que até hoje reúne roqueiros da região. O bar, no entanto, reduziu sua capacidade para 300 pessoas nos últimos anos.

“Não estavam mais dando conta de encher a casa. Fizeram, atrás do palco, um estúdio de dança. Há 14 anos, a gente lotava os locais com bandas autorais”, comentou Mafra. “Hoje eu vejo bandas melhores não conseguindo preencher um lugar de 150 pessoas”, completa.

Trabalhos mais refinados

Apesar da espécie de “pulverização” do público, o cantor destaca que as produções catarinenses estão mais bem arranjadas que décadas atrás. Os serviços de streaming têm parcela de ‘culpa’ nisso – sem esquecer do estudo e inventividade por parte dos músicos. Hoje eles conseguem experimentar e ousar em seus próprios estúdios caseiros.

“O que eu vejo hoje, ou um pouco antes da pandemia, é que a capacidade de criação do artista está muito maior. Existem mais bandas gravando bem, mais bandas gravando clipe”, avalia Mafra.

Em parceria com artistas de diferentes sotaques, Mafra lançou, em 6 de agosto, o single brasil, “para cantar seus desencantos para com o Brasil de agora”. O lançamento está disponível no Spotify.

A música também ganhou um clipe, feito em parceria com a produtora Antídoto, onde se embaralham imagens do país em diferentes épocas:

Os home studios permitiram encontros improváveis também à produtora Luanda Wilk. “Esses dias, eu estava gravando com artistas daqui, de Pernambuco e Minas Gerais”, conta Luanda. “Toda essa logística aconteceu sem que tivéssemos que nos movimentar”.

Minha música para o mundo

Nem sempre as plataformas de streaming foram acessíveis aos pequenos artistas. “Elas se consolidaram no mercado através de acordos com gravadoras”, comenta a produtora Emanueli Dalsasso, natural de Joinville, no Norte de Santa Catarina, mas que hoje assessora bandas na Capital.

Ela explica que esses serviços eram usados, inicialmente, como estratégia para divulgar os lançamentos de grandes artistas no meio digital.

Emanueli Dalsasso produz artistas em SCEmanueli Dalsasso produz artistas em SC – Foto: Internet/Reprodução/ND

Com a universalização de ferramentas como Spotify, produções independentes em Santa Catarina começaram, a passos curtos, a contar com esses importantes agregadores. Mas foi só em 2018 que a plataforma, lançada em 2006, anunciou o recurso que permitia aos músicos liberais hospedarem suas próprias músicas.

“Abriu espaço para fazer com que outras pessoas possam escutar suas produções”, comenta. “Eu as vejo como boas aliadas na questão de promoção da música”, completa.

De fato, a mudança alavancou a carreira de muitos profissionais catarinenses. Pelo menos no que diz respeito à distribuição dos materiais.

De acordo com levantamento do portal Rifferama, em 2020 foram mais de 1 mil lançamentos no Estado – número que seria um recorde. Este ano se encaminha para chegar à marca passada. Até 20 de agosto, 816 novidades musicais – entre álbuns, EP’s e singles – entraram na lista das novas produções catarinenses.

E a remuneração, vai bem?

Trabalhar com arte às vezes é um paradoxo. “Está mais fácil fazer música, mas está mais difícil viver de música”. Assim Jean Mafra sintetiza o atual momento artístico de Santa Catarina.

Apesar de toda a ‘descomplicação’, os valores que os artistas recebem das plataformas estão longe de serem dignos de uma vida rockstar.

O Spotify, por exemplo, usa um modelo de pagamento chamado de pro-rata, que poucas vezes beneficia financeiramente os profissionais liberais.

Isso porque, segundo a especialista de Comportamento de Público Dani Ribas, o modelo prevê que a mensalidade paga pelo usuário não seja destinada, necessariamente, ao artista mais ouvido por ele.

“Primeiro, o Spotify conta tudo que foi pago e separa, colocando em uma ‘piscina’. Depois, ele vê tudo que foi reproduzido, todos os plays, e coloca em outra ‘piscina’. Aí ele divide uma coisa pela outra e paga quem mais foi reproduzido na plataforma”, explica.

Na prática, como fica?

A banda Orquidália, de Florianópolis, nasceu no universo digital e não consegue imaginar a carreira sem o auxílio dessas plataformas. As integrantes, inclusive, lançaram um EP inteiro dentro de casa, durante a quarentena, algo que seria inviável décadas atrás. Mais recentemente, em agosto, divulgaram o single “Zabelinha”, que junta sensibilidade, brasilidade e conhecimentos musicais refinados.

“Em questão de alcance, agrega demais, porque se não fosse a plataforma de streaming aqui na quarentena, a gente não teria como sair espalhando nosso som e distribuindo nosso CD no mundo inteiro”, diz a tecladista Nalu Medeiros.

Ainda sem shows, no entanto, a má remuneração dos serviços de streaming não as ajudam a trabalhar integralmente com aquilo que estudam. As integrantes cursam música na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina).

“Isso faz com que bandas autônomas não consigam viver de streaming, ou pelo menos ter uma graninha por mês. É totalmente supérfluo o que você ganha”, conta o baterista Simón Aftalión. Elas se referem à banda sempre no feminino por uma questão política.

Banda OrquidáliaOrquidália vem lançando uma série de singles produzidos em casa – Foto: Olivia Lago/Divulgação/ND

As ferramentas, por outro lado, rompem barreiras geográficas e são uma das responsáveis por projetar artistas independentes em âmbito nacional.

“A gente cita as primeiras que vêm na cabeça: Dandara Manoela e Marissol Moaba, que estão tocando fora de Santa Catarina e estão se projetando de um jeito legal. Eu sinto que há uns anos a gente não via essa movimentação”, afirma a vocalista Maitê Fontalva.

“Vocês devem estar faturando muito!”

Rock ‘n’ roll que transita entre o soul, psicodelismo e funk. A banda catarinense Nouvella mostra nas redes que sabe o que está fazendo e aonde quer chegar. Os números no Spotify confirmam: o single The Sun Will Rise Again, o mais ouvido do grupo, tem mais de 32 mil plays.

Alcançar essa marca foi possível com as boas parcerias e acesso às facilidades digitais. A música foi lançada há cinco meses:

“A gente estava em uma caminhada de muitos shows e não tínhamos nenhum material gravado quando começou essa onda de lives“, comenta a vocalista Yasmin Zoran, se referindo ao início da pandemia. “A gente organizou uma vaquinha e arrecadamos dinheiro para fazer uma gravação. A tecnologia foi peça-chave nesse processo”, completa.

Nessa época, o produtor Pedro Felix, que descobriu os jovens roqueiros pelas redes sociais, entrou em contato com o estúdio The Magic Place, um dos mais tradicionais de Florianópolis. Logo os projetos saíram das cabeças inventivas e ganharam vida própria. O EP The Sun Will Rise Again nasceu em março de 2021.

Mas o bom momento da banda não significa que o sucesso financeiro já chegou.

Banda Nouvella lançou um EP em março deste anoBanda Nouvella lançou um EP em março deste ano – Foto: Dan Pelicciari/Divulgação/ND

“Quando a gente olha direto nos números, parece até meio injusto”, comenta o guitarrista Gabriel Viegas, se referindo à remuneração recebida das plataformas. “Quando a gente vai falar com pessoas que não conhecemos, elas falam: ‘nossa, vocês devem estar faturando muito!”

Considerando essa disparidade entre número de plays e de dinheiro, os músicos chegaram a pensar em promover uma campanha para que as plataformas comecem a dispor de uma relação mais direta entre público e artista. A ideia é que os ouvintes possam fazer doações aos músicos preferidos.

Streamings = novas gravadoras? 

A remuneração é um problema e este é um ponto consensual entre os músicos catarinenses. Luanda sugere que as bandas e o público trabalhem para popularizarem alternativas de streaming que possam ser mais benéficas aos artistas independentes.

“Se não tem uma grana para dar, deixa rodando o disco do amigo no Deezer”, sugere a produtora cultural.

Luanda questiona, inclusive, se os músicos não trocaram as gravadoras pelos selos – que são espécies de pequenas gravadoras – e pelas plataformas de streaming. Isso porque, segundo a produtora, elas também podem ser exclusivas. É preciso saber usá-las para tirar proveito.

“Ainda é um conhecimento novo”, pondera. “É muito difícil um artista independente dominar toda essa parte do processo. O dispositivo que era para ser mais igualitário, nem sempre é de fato”, diz.

Luanda Wilk produz artistas em Santa Catarina – Foto: Mandy Justo/Divulgação/NDLuanda Wilk produz artistas em Santa Catarina – Foto: Mandy Justo/Divulgação/ND

Nem todos os músicos têm produtores ou profissionais que os assessoram na internet, e a demanda para aprender a gerir essas tecnologias traz sobrecarga.

“O fluxo é muito rápido. Agora, o Instagram já está morrendo, por exemplo. Como você consegue dar conta? Como você consegue equilibrar isso com a rotina do artistas, da banda, do trabalho? Como isso pode ser saudável?”, questiona.

Quem é o público

Para Maitê, da banda Orquidália, quem ouve música independente em Santa Catarina faz parte de um nicho específico. “Tem pessoas que consomem, mas não acredito que elas representam uma maioria, objetivamente falando. É um nicho segmentado, assim como em outros estados”, defende.

A produtora Emanueli Dalsasso acredita que o streaming tem aberto portas para que esse tipo de música seja difundido. Mas é um processo, com um caminho a se percorrer. Por isso, o conselho dela é que os músicos não se agarrem apenas a essas ferramentas.

Buscar editais de incentivo à cultura, por exemplo, seria uma forma de fortalecer a cultura local. “Sinto falta dos músicos darem espaço a essas modalidades”, comenta Dalsasso.

Essa é uma alternativa para driblar a crise causada pela falta de apresentações presenciais. “Aqui no Brasil, os shows sempre foram a base do mercado da música”, explica. “Você lança e faz uma turnê. É um ciclo sem fim”, completa.

No caso do streaming, ela sugere algumas estratégias para que as produções circulem de forma mais orgânica e otimizada. “É interessante que artistas deixem um mês de venda, quando lançam materiais, e depois coloquem no streaming”, propõe.