Em show de quase três horas, Paul McCartney parece um velho conhecido do público em Florianópolis

A presença do beatle evoca toda a história que ele representa, e que está no imaginário de diferentes gerações

Rosane Lima/ND

Paul faz caras e bocas, faz dancinhas e fala com os fãs em português

Ele estava lá quando John Lennon tocou com os The Quarrymen em uma festa na igreja de St. Peter, em Liverpool. Ele estava presente na viagem para Hamburgo, nos shows no Cavern Club, no Shea Stadium, descalço na Abbey Road, meditando na Índia. E na noite de quarta-feira, ele estava aqui, no estádio da Ressacada. Paul McCartney, em carne e osso, é o elo direto entre todos que assistiram ao seu show na noite de quarta-feira e um universo de lembranças presentes no imaginário de diversas gerações. E é essa percepção que torna as lágrimas impossíveis de conter quando ele sobe ao palco.

Pouco antes das 21h30, os telões exibiam uma colagem de fotos, vídeos e fragmentos da carreira e vida do músico, que corriam em plano contínuo por vários minutos, até se diluírem em centenas de lanternas flutuando em um céu estrelado. Enquanto elas subiam, dava para sentir a expectativa aumentando no estádio. E no horário marcado, nem um minuto antes ou depois, ele apareceu. Foi um êxtase que durou as quase três horas de show, e não passou despercebido pelo músico — que parou por um momento para absorver a atmosfera e o carinho do público.

Paul — como nós brasileiros chamamos, tão naturalmente — parece um velho conhecido. Ele faz caras e bocas, brinca, faz dancinhas no palco e se esforça para falar português — mais ainda, “manezês”. Antes de cantar “Obla-di, Obla-da”, ele faz o público repetir diversas interjeições musicadas, que no fim são apenas ruídos e notas indistintas. Ele ri da brincadeira. Em “Hey Jude”, que fechou a primeira parte do show, Paul rege o estádio no coro “Na, na, na, na…”. Em português, ele pediu que os homens cantassem, depois as mulheres, soltando expressões como “istepô” e “gatinhas”. Até “massa” e “tá ligado” fizeram parte do vocabulário do beatle. Os membros da banda, Paul Wix Wickens, Brain Ray, Rusty Anderson e Abe Laboriel Jr, compartilhavam da simpatia e receberam uma salva de palmas sincera da multidão.

Se a emoção de ver o McCartney de perto e a energia do público são indescritíveis, a produção pode ser definida em uma palavra: impecável. O audiovisual acompanha e complementa as canções, como em “Back in the U.S.S.R.”, em que a arte em vermelho e amarelo se mistura a imagens da praça vermelha e de meninas dançando balé. Em “A Day in the Life”, imagens de campos verdes e flores desabrochando se unem às luzes coloridas. A iluminação do palco, na verdade, foi um show a parte; especialmente quando se voltava para o público e fazia brilhar as gotas de chuva que encharcavam a massa de fãs. O auge, porém, foi durante “Live and Let Die”. McCartney subiu ao piano e tocou o início melódico, aumentando a surpresa quando chamas invadiram o palco no ápice da música, e fogos de artifício tomaram o céu. Os cabelos do beatle esvoaçavam — ele estava entre as chamas — e o calor alcançava o público.

Perto do fim do show, a multidão molhada, coberta em plástico transparente, continuava radiante. Na volta para o segundo bis, Paul começou com “Yesterday” e terminou com “Golden Slumbers”. Parece ser de propósito, o beatle deixou o público com uma carga emocional que ainda vai durar pelos próximos dias. As luzes se despediram iluminando as gotas de chuva mais uma vez, e Paul foi embora. À água se juntou a chuva de papel verde, amarelo e azul, que se grudava nas capas de chuva molhadas. Foi isso que ficou, com a memória de uma noite inesquecível.

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