Morte de Kurt Cobain completa 20 anos

O líder do Nirvana chacoalhou a cena musical tanto quanto o punk, fez a banda chegar ao topo, não aguentou o peso, mas seu legado ainda está aí

Fabrício Umpierres Rodrigues – Especial

– Here we are now, entertain us!- Aqui estamos, venha nos entreter!Kurt Cobain cantou sua própria maldição no refrão de “Smells Like Teen Spirit”, música que tirou o Nirvana da chinelagem undergound da costa oeste americana na virada de 1991 pra 1992. De uma hora pra outra, ele virou o vocalista, guitarrista e compositor da banda mais sensacional do pedaço. Só que o peso de ser isso tudo não dava pra ele. 

“O pior crime que posso imaginar seria enganar as pessoas, fingindo como se eu estivesse me divertindo 100%”, escreveu ele em 5 de abril de 1994 num bilhete para o amigo (imaginário) de infância Boddah. Kurt estava refugiado em sua casa, enquanto a mulher Courtney Love, os amigos e a família achavam que ele estava num rehab em Los Angeles. Poucos dias depois de fugir do centro de reabilitação Exodus e pegar um voo de volta a Seattle, ele se fechou em casa, picou-se com uma heroína preta mexicana e encostou o cano de uma espingarda no céu da boca. Só três dias depois, por causa de um eletricista que instalava um sistema de segurança na vizinhança e viu um corpo pela janela, a família e o mundo inteiro descobririam o paradeiro do líder do Nirvana.

Naquele mês, as revistas de música no Brasil circulavam com uma nota sobre a tentativa de suicídio de Kurt em Roma, no começo de março. Quando rodavam na gráfica, ele já tinha ido de vez. O futuro da banda estava pela bola sete desde 1993, por conta de alguns shows completamente erráticos, como no Hollywood Rock carioca em janeiro daquele ano. Mas poucos meses depois desse vexame vinha In Utero, uma paulada. Kurt cantava letras cada vez mais baixo astral, pedindo pra voltar pra barriga da mãe (“Heart Shaped Box”), sem saber distinguir felicidade de tolice (“Dumb”), praticamente pedindo desculpas pro mundo (“All Apologies”) por ser tão ranzinza e desconfiar de toda a raça humana. 

A depressão se manifestava pouco menos de dois anos depois que esse cara tinha varrido todos os medalhões do topo das paradas com uma música contagiante, nervosa, melódica, meio tosca, mas muito profunda. A banda que fez um verão todo, ao catapultar uma geração inteira da isolada Seattle (Mudhoney, Soundgarden, Alice In Chains, Pearl Jam, Screaming Trees, Tad) a uma das mais impressionantes renovações da história do rock. Uma chacoalhada tão importante quanto aquela que o punk causou entre 1976 e 1977. Só que essa tinha um triunvirato (Ramones como inspiradores, Sex Pistols e The Clash como rompedores), enquanto, no grunge, o Nirvana foi o centro do universo. 

Divulgação/MTV

Kurt durante a gravação do Unplugged para a MTV

Mas para Kurt, sua música já tinha sido cooptada pelo esquemão: “eu não tenho mais a paixão, então lembrem, é melhor queimar do que se apagar aos poucos”, justificou na carta de despedida, citando uma letra de Neil Young, o “grunge” original. Seis meses depois daquele tiro, chegava às lojas o especial “Unplugged” gravado pra MTV em novembro de 1993. Um falso acústico, com Kurt eletrificando de vez em quando seu violão indolente e a banda tocando baixinho um repertório tão pungente quanto melancólico num cenário decorado por velas pretas. A carga emocional que ele desperta antes de cantar a última palavra do show, em “Where Did You Sleep Last Night”, é tão intensa que parece que ali ele se livra de todo o peso do mundo. 

Desde então, nenhum outro fenômeno musical conseguiu somar tanta relevância quanto Kurt e o Nirvana. Ali havia espírito do tempo (para derrubar o velho e estabelecer o novo), autenticidade, sucesso de público e crítica, e um legado que só cresceu. É só ver como alguns de seus embriões (Foo Fighters, Soundgarden, Alice in Chains), insuperavelmente menos relevantes, ainda reinam em alguns festivais de música pelo planeta. Kurt Cobain não pediu pra chegar lá. Mas ele chegou, mudou tudo, não se adaptou e foi embora. Quem diria, isso foi há 20 anos

Veja a banda tocando “Where Did You Sleep Last Night”:

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Música

Loading...