Há 60 anos camisetas de banda de rock estão na moda com diferentes tribos

Camisetas de banda já foram artigo raro, encontradas unicamente nos shows dos grupos e em lojas especializadas. Em Florianópolis, nos anos 90, só encontrava camisetas de banda na Praça 15 de Novembro

Eduardo Valente/ND

Lilian Martins na Roots Records

A moda vai e vem e há pelo menos 60 anos uma peça faz parte do guarda-roupa dos jovens e descolados: a camiseta de banda. Inicialmente uma peça de souvenir de turnês musicais e festivais, hoje camisetas com estampas de bandas de rock, artistas pop ou hip-hop podem ser compradas em grandes lojas de departamento e até pela internet, seja em sites de grandes medalhões com logística internacional de entrega, como é o caso do de Paul McCartney, seja em lojas especializadas que exploram o filão apenas pela internet e não tem relação com os artistas e bandas a não ser pelo fato de serem fãs. 

Camisetas de banda já foram artigo raro, encontradas unicamente nos shows dos grupos e em lojas especializadas. Em Florianópolis, nos anos 90, só encontrava camisetas de banda na Praça 15 de Novembro. 

“Tinha artesãos ali que faziam as camisetas em serigrafia”, conta Lilian Martins, 39. Junto com o marido Luiz Antonio Menegotto, ela criou há 20 anos a Roots Records.  

Um dos adolescentes que mal podiam esperar para ter camisetas das bandas que escutava era Alessandro Bonossoli, hoje com 41.  

“A garotada de hoje não sabe o que a gente passava. A gente colocava um LP por dentro do tecido e desenhava com caneta. Depois abriu uma loja de fotocópia na rua dos Ilhéus, nem lembro o nome, e ela fazia um tipo de cópia emborrachada que a gente colava na camiseta”, lembra Bonossoli. Fora o faça-você-mesmo, a opção era enviar uma carta para lojas de São Paulo ou do Rio, pedir o catálogo de camisetas.  

“Continuo comprando até hoje camisetas de banda. É bacana porque vira uma recordação do momento. Ano passado fui no show do Black Sabath em São Paulo e comprei uma lá. A gente acaba assistindo o show com duas camisetas: a que leva e a que comprou”, conta.  

A Roots Records, que começou no ramos dos LP´s de rock, passou a vender camisetas atendendo a pedidos. 

“O pessoal pedia camiseta das mesmas bandas que a gente tinha os LP´s e a gente resolveu comprar algumas para ver se vendia. E vendia sempre. Então passamos a expandir o número de camisetas em exposição na loja e hoje temos mais de mil. Trabalhamos com fornecedores de todo o Brasil”, relata Lilian, fã de Black Sabath. 

O público da loja continua crescendo. Para Lilian, isso mostra que sempre há novos roqueiros na cidade. 

“As camisetas unem as tribos. É uma forma das pessoas se identificarem. O cara olha para alguém e pensa “eu também gosto dessa banda, esse cara deve saber onde tem show legal”, acredita. 

Frequentador da Roots Records desde sua abertura, em 1993, Roberto Carlos Valentim dos Santos chegou nos 40 fiel à camisetas de banda, principalmente daquelas que ninguém conhece. 

“Sempre que eu posso escolher o que eu vou vestir, prefiro camisetas. Essa que eu estou usando é de uma banda muito bacana, chama “Blue Cheer”. Eu gosto de usar essas de grupos que ninguém conhece, assim fica diferente. Quem quer ser igual a todo mundo?”, questiona o rapaz que foi nomeado em homenagem ao Rei da Jovem Guarda. Fã de Joy Division, Beastie Boys e Velvet Underground, para ele as camisetas são uma forma de incluir naquilo que se está vestindo informações sobre seu gosto pessoal, sobre quem você é.

A moda das camisetas de banda fez até quem não é ligado em música querer usar os produtos. 

“Às vezes chega alguém aqui e diz que quer camiseta dos Rolling Stones, mas na verdade quer aquela dos Ramones, que ficou super procurada depois que a Anita usou. Ou então procuram aquela banda Jack Daniels, que na verdade é o uísque. Mas a gente leva na esportiva. Dos nossos clientes 90% é um público fiel, 10% é flutuante”, afirma Lilian.

 “Já diz o Neil Young: rock n´Roll will never die”, cita Roberto, lembrando a música “Hey Hey, My my”, do músico canadense.

A Arte da Camiseta de Banda

A história das camisetas é o tema do livro “The Art of The Band T-Shirt, de Amber Easby e Henry Oliver. O livro conta que a invenção da camiseta aconteceu como parte do uniforme da Marinha americana em 1913. A peça, que completou 100 anos em 2013, passou a ser parte do uniforme também do Exército americano na Segunda Guerra Mundial. Os soldados estampavam as camisetas com os dados de seus pelotões ou o local de partida de uma missão. Também tingiam as camisetas com grãos de café, já que o branco os tornava alvos fáceis. para Easby e Oliver, as fotos da Segunda Guerra que foram impressas em jornais e revistas foram a maneira como boa parte do mundo viu uma camiseta pela primeira vez.  

Inicialmente criada como uma peça para ser usada por baixo da camisa, nos anos 60 a camiseta ganhou definitivamente o status de uma peça de roupa, e não de underwear, e passou a ser fabricada em tecido mais resistente e grosso. A popularização da peça com os jovens passou pelo cinema, com Marlon Brando em “Um Bonde Chamado Desejo” (1951) e “O Selvagem” (1953) e também com James Dean em “Juventude Transviada” (1955).  

Não demorou até que a camiseta passasse a ser vista como instrumento de publicidade. Elvis Presley começou sua carreira em 1954 e em 1956 já havia camisetas com sua imagem e o nome de suas músicas. Não há registros que informem quem fez a camiseta, um fã clube ou o próprio Elvis, mas é o primeiro registro de camiseta ligado ao rock.  

Segundo Easby e Oliver, os Beatles, que venderam a preço de banana a licença para que o nome da banda fosse usado em camisetas, perderam milhões de dólares. Em 1964 já havia camisetas da banda de Liverpool. 

Bill Graham, que em 1965 promovia shows de Janis Joplin e The Greateful Dead, fez uma camiseta da turnê para os Allman Brothers e eles gostaram tanto que pediram que a peça fosse vendida no show. A moda pegou. 

Um dos logos mais icônicos de bandas foi criado em 1970 pelo recém-formado John Pasche. Atendendo ao pedido de Mick Jagger, ele fez um logo inspirado na deusa Kali. Na época, Pasche gostava de pop-art, então usou a estética como influência. O conceito do logo “lips”, que pode ser traduzido como lábios, era a atitude anti-autoritária, a boca de Mick Jagger e a intenção de deixar no ar possíveis conotações sexuais. O desenho começou a ser tão usado por fãs que a banda registrou o produto, que vende camisetas até hoje.  

O potencial de venda do setor foi demonstrado em 1976 por Arturo Vega. Considerado o quinto Ramone, ele acompanhava a banda como diretor de arte e iluminação. Quando a gravadora da banda se recusou a pagar a passagem dele para a turnê na Califórnia, Vega vendeu camisetas a U$ 3 cada e conseguiu arrecadar o dinheiro. O logo dos Ramones, que é baseado no selo presidencial americano, foi criado por Vega e é um dos incorporados pela moda.  

Até a criação dos Sex Pistols foi influenciada por uma camiseta. Um dia John Lydon entrou em uma loja usando uma camiseta do Pink Floyd onde ele escreveu “I Hate” (eu odeio) com uma caneta. Malcolm McLaren ficou impressionado e o convidou para fazer um teste para a banda que ele estava montando. Mais tarde Lydon ficaria conhecido como Johnny Rotten, dos Sex Pistols.   

Já nos anos 90, Kurt Cobain usou uma camiseta de Daniel Johnston, até então desconhecido, no MTV Awards de 92. A curiosidade e a repercussão que ele causou foram tão grandes que até o fim do ano Johnston assinou contrato com a Atlantic Records.  

Até Madonna, nos anos 90, quando se consolidou como a Rainha do Pop fez camisetas com sua imagem. 

Na onda do hip-rock

Duas marcas que também fizeram das camisetas seu carro-chefe são a Korova e a Liverpool, as duas sediadas na Grande Florianópolis. 

 A Liverpool foi criada por Tiago Durante, 34, e Rafael Lange, 31. Com R$800 eles mandaram fazer 60 camisetas em 2008. O valor da venda foi reinvestido e o foco passou para o atacado. No ano passado eles venderam 90 mil camisetas em 130 lojas de todo o país, inclusive na Varal e na Divertees. Com o objetivo de se tornar uma grife, eles lançaram jeans, tênis e bermudas e participam de eventos de moda como a SP Fashion Week. 

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Tiago Durante, da Liverpool

“Nossa origem é o rock e o cinema dos anos 50 a 80, mas principalmente dos anos 80”, explica Tiago. Uma das camisetas mais vendidas por eles é uma releitura do logo dos Ramones com o nome dos Beatles. 

“Diz a lenda que os Beatles se hospedavam em hotéis usando o sobrenome “Ramone”, o nome da banda dos Ramones teria vindo daí”, afirma. Para ele, o foco da marca sempre vai ser o rock. 

“É isso que a gente gosta. Nosso público envelhece e com isso as novas gerações já consideram artistas como Britney Spears e Backstreet Boys coisas velhas, então a tendência é que a gente incorpore isso também. Antes o Atari era a referência de um videogame vintage, agora até o Nintendo já é”, argumenta.  

Já a Korova, que tem loja no Continente Park Shopping e na rua Vidal Ramos, e que também começou com foco na cultura pop, especialmente música e cinema, hoje vê uma evolução do interesse dos jovens para o hip-hop, rap e televisão.  

“Fizemos uma estampa escrito “rap is the new rock”, os roqueiros ficaram loucos”, conta Levi Pedroso, 24, diretor de criação da Korova.  

Eduardo Valente/ND

Levi Pedroso e Rafael Korova

A marca também oferece a possibilidade das pessoas levarem suas próprias imagens para criar estampas e com isso percebeu a mudança. 

“Quem é que faz música boa hoje no Brasil? É o Criolo, o Emicida. Não tem rock novo. Hoje até escuto mais hip-hop do que rock. O rock está morrendo. Para a nova geração o hip-hop e a televisão tem o mesmo status que o cinema e o rock tinham na década de 80”, acredita Rafael “Korova” d´Avila, fundador da marca. 

My Band T-Shirt 

O carinho pelas camisetas é tanto que é comum encontrar quem conserve o artigo por décadas e passe a colecionar não só as camisetas como as histórias relacionadas a elas, como fazem os colaboradores do Tumbler “My Band T-Shirt”, que reúne histórias de aficionados por camisetas de todo o mundo. Pessoas que não se conhecem se identificam através da: sabem o que é estar num show chuvoso e com os pés cheios de lama e de repente se maravilhar com a apresentação de Björk, Radiohead ou The Chemical Brothers, ou seja lá quem for. O fato é que esses momentos ficam marcados na memória e na internet: mybandtshirt.tumblr.com

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