Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


O jovem octogenário

Como pode a maior banda do mundo decidir parar de se apresentar em público no auge?

Paul McCartney está na estrada de novo – e já avista na próxima curva, pouco mais de um mês e meio adiante, a placa dos 80. Quem vai parar esse homem? Ninguém.

Em 1966 os Beatles fizeram seu último show – em São Francisco (EUA). Como pode a maior banda do mundo decidir parar de se apresentar em público no auge? O que teria passado pelas cabeças de quatro jovens entre 23 e 26 anos, que saíram de subúrbios modestos numa cidade portuária em busca de fama e grana, para renunciar à mina de ouro dos shows épicos em estádios para dezenas de milhares de pessoas?

Paul McCartney volta à estrada para mais shows – Foto: Reprodução/NDPaul McCartney volta à estrada para mais shows – Foto: Reprodução/ND

Essa decisão histórica transformou metade da carreira dos Beatles num acontecimento mitológico sem paralelo – um mundo à espera de uma reaparição que nunca veio. Detalhe: Paul McCartney era contra suspender os shows da banda.

Um dos primeiros acontecimentos midiáticos com alcance mundial, a beatlemania transformou a banda num furacão. Onde ela chegava acontecia de tudo – tumultos, rituais coletivos de adoração, ameaças, exploração política. Os quatro jovens músicos estavam cercados e de certa forma engolidos pelo próprio sucesso. George Harrison disse que àquela altura eles só encontravam paz no banheiro dos hotéis (nem o quarto escapava).

John Lennon se juntou a ele na crítica, também se sentindo um boneco do esquemão. Ringo Starr tentava ler os lábios e o movimento corporal dos colegas de banda para procurar saber, no meio da gritaria ensurdecedora, em que ponto da música estavam – e minimamente tentar segurar o andamento. O baterista achava que a loucura dos shows estava comprometendo a qualidade da música.

Paul sentia também tudo isso, mas queria continuar. A energia do público o alimentava, mesmo com todos aqueles fios desencapados e curtos-circuitos ao redor do mundo. Ele tinha nascido para aquela aclamação. E o dom artístico veio acompanhado de uma exuberante resistência física. Além dos shows, entrevistas, atendimento abnegado aos fãs (os colegas chegavam a ter de puxá-lo para encerrar os autógrafos), perfeccionismo no estúdio (John chegou a dizer que Paul “torturava” os colegas com suas repetições intermináveis), experimentações diversas nas gravações (orquestração, arranjos meticulosos), além das incursões cinematográficas e outras frentes.

O mundo nunca mais pôde ver os Beatles ao vivo. Os Rolling Stones estão há mais de meio século na estrada. A morte de Lennon em 1980 eternizou a mística Beatles. Nunca mais – mesmo. Na sua nova turnê – “Got Back” –Paul toca com John a música “I’ve got a feeling”, na qual a dupla de compositores mais famosa do mundo fazia um jogo de versos sobrepostos. Lennon agora está no telão. McCartney está no lugar que faz dele um garoto de 80 anos.

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