261 anos de São José da Terra Firme – histórias e imagens que falam da cidade

Marcelo Bittencourt/Arquivo/2001
Avenida Beira Mar sendo construída em 2001, mudou a paisagem da área litorânea da cidade e do acesso a Florianópolis

Local de importantes acontecimentos do Estado, São José completa neste sábado 261 anos. São José da Terra firme, como é conhecido, apresenta mudanças e crescimentos populacional, imobiliário e econômico que alteraram rapidamente a pacata cidade de antigamente.

Os bairros Kobrasol e Campinas foram os que mais mudaram nos últimos 20 anos, deixando de ser somente residenciais para se tornarem grandes pólos comerciais e imobiliários. O Centro Histórico foi um dos poucos que manteve as características coloniais nos imóveis, mas deixou de ser um ponto de encontro dos moradores. A avenida Beira-mar, inaugurada nos anos 2000, trouxe vida e valor ao local inabitado de antes.

No Censo 2010, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o município alcançou 210.513 habitantes, sendo 2.496 localizadas nas áreas rurais. É a quarta cidade mais antiga do Estado, colonizado por 182 casais açorianos, em 1750.

A seguir, registros fotográficos e a memória de antigos moradores contam um pouco da história recente do município. Gente que viveu dias pacatos, de praça lotada em jogos do Ipiranga onde hoje está a Câmara de Vereadores, de pescaria onde foi construída a avenida Beira Mar, ou de quando Campinas tinha apenas 40 residências.

Centro cheio de história 

As praças Arnoldo de Souza e Hercílio Luz, que compõem o Centro Histórico, foram espaços de grandes acontecimentos. Conforme as lembranças do historiador e morador do local, Osni Machado, aos redores das praças ficavam a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, o cinema, igreja, campo de futebol e o teatro.

Marcelo Bittencourt/Repordução

Casario antigo na praça do Centro Histórico em foto de 1907

“Ali moravam as famílias tradicionais, como os Gerlach, Olavo da Silva e Souza. Entre os anos 30 a 50, Diba Elias Gerber era uma figura muito conhecida por ser parteira. Desde 1944, Machado vive no Centro, espaço que era destinado às brincadeiras do Grupo Escolar Francisco Tolentino.

O atual jardim da Câmara de Vereadores era o antigo campo de futebol, que durou até 1970. “O time Ipiranga tinha bons jogadores que foram aos times profissionais. Em dias de jogo, a praça ficava cheia. Era o ponto de encontro”, ressalta. Atrás da atual Câmara, ele lembra que existia uma empresa de exportação de madeira, mas após a Segunda Guerra Mundial o estabelecimento fechou.

“Hoje, o local está mais arborizado e urbanizado. mas deixou de ser o ponto de encontro, não tem cinema, nem campo de futebol. As lembranças estão vivas somente na memória de quem passou por ali”, destaca Machado. A Festa do Divino Espírito Santo é uma das poucas atividades que foi mantida, segundo o historiador. “A comemoração deixou de ser simples para dar lugar as roupas luxuosas, sofisticadas e brilhantes”, observa.

Loteamento se torna bairro 

O nome Kobrasol surgiu da junção das maiores empresas que se localizavam na região, como a Brasilpinho e Cassol. Em 1970, foi lançado o loteamento Parque Residencial Kobrasol, que fazia parte do bairro Campinas. Paulo Vitorino da Silva, morador há 14 anos, lembra como o local era calmo.

Marcelo Bittencourt/Reprodução

Avenida Presidente Kennedy e o Kobrasol em foto de 1992 ainda sem o Centro Comercial Campinas

Todas as vias eram de lajotas, o que segundo Silva, ajudava no escoamento da água da chuva. “Com o asfalto, a água não consegue vazar porque as tubulações não são adequadas. O bairro cresceu muito e a infraestrutura não estava preparada”, afirma. O morador lembra que o transporte coletivo era mais precário, não existiam os circulares e, dependendo do destino, era preciso ir ao Centro de Florianópolis para pegar a condução.

“Logo que cheguei ao bairro, a movimentação comercial começou, mas o ponto de partida foi a inauguração do calçadão avenida Lédio João Martins, em março de 2000, que melhorou a situação dos pedestres”, diz Silva. A população do Kobrasol é de 40 mil habitantes, 19% de toda a cidade, é o bairro com o maior número de pessoas por metro quadrado do Estado. “Não perdemos nada a Capital, tem de tudo aqui”, avisa.

A segurança pública de antes é elogiada pelo morador, já a de hoje, é criticada. “Encontrávamos facilmente policiais transitando nas ruas, agora é muito difícil achá-los”, reclama.

População de Campinas mais que dobrou em dez anos

Na década de 60, havia somente 40 residências em Campinas e a avenida Josué di Bernardi era até a ponte sobre o Rio Araújo, o restante era mato. A Procasa e próximo de onde é o Shopping Itaguaçu também não existiam, conta Nilzo José Heck. “Campinas era um pasto. Tinha um abatedouro e o gado ficava solto até onde é o atual Kobrasol”, recorda. Hoje, são 28 mil habitantes.

Marcelo Bittencourt/Reprodução

Ginásio de Campinas durante sua construção em 1989

Segundo Heck, as primeiras casas começaram a aparecer na década de 70 e onde é o atual colégio havia duas salas de aula. “O comércio surgiu depois de 1985, com a chegada das Casas da Água. Quando o Germano Vieira foi prefeito, calçou todas as ruas e isso incentivou a construção civil”, lembra.

Um dos moradores mais antigos de Campinas, Heck relata que o bairro não tinha vida própria e a comunidade dependia de localidades vizinhas como o Estreito e o Centro da Capital. “Hoje é muito diferente. As principais lojas de materiais de construção estão aqui hoje. Os preços dos imóveis estão comparados aos da Beira-mar de Florianópolis. Há um condomínio que será lançado e venderá apartamentos por mais de R$ 1 milhão”, acrescenta.

Heck é proprietário do bar dentro do Ginásio de Campinas. Ele acompanhou a construção da área de lazer e recorda que as características do local não mudaram. “O ginásio atende a comunidade até hoje. Aqui há escolinhas esportivas e grandes atletas jogaram fora do País começaram aqui”, informa.

Beleza e valorização à Beira-mar 

Há 40 anos, Reinaldo Conrado vive da pesca. Ele costumava pescar camarão, berbigão, siri e todas as espécies de peixe no Rio Araújo e na baía josefense. Ele se lembra das águas claras e da possibilidade da pescar na beira do mar. “Eu tinha um rancho no rio. Podíamos viver somente da atividade pesqueira. Agora, conseguimos pescar somente tainhota”, lembra.

A vida de pescador de hoje é mais complicada. É preciso pegar o barco e ir mar adentro devido à sujeira. “Onde é a Beira-mar de São José era mar. O espaço foi aterrado e trouxe pontos positivos e negativos à comunidade”, observa. A tranquilidade das décadas anteriores foi transformada na beleza e insegurança da avenida de hoje, inaugurada há cerca de dez anos.

Com a construção dos primeiros prédios e oficinas, os dejetos começaram a ser jogados no mar. “Até a década de 80, era possível pescar de anzol, depois a cidade foi crescendo muito e a fiscalização não acompanhou o desenvolvimento”, reclama. O pescador diz que a Beira-mar de hoje é bonita, trouxe desenvolvimento ao local, mas também preocupação e medo.

“De dia é ótimo passar por aqui. Há um movimento intenso de veículos, mas à noite não há nada. É deserto. É um local de usuários de drogas e mendigos. Não podemos estacionar o carro e ir pescar à noite. O vandalismo tomou conta do lugar. Ainda está muito longe de ser um espaço para diversão e lazer”, descreve Conrado. 

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