270 anos: Arquivo guarda parte da história de São José

A memória mais antiga do município da Grande Florianópolis não está nos registros do Arquivo Histórico

Uma casa que remete à arquitetura açoriana abriga o Arquivo Histórico de São José. O prédio não é centenário, mas muitos papéis guardados em suas prateleiras têm século de história do município que completa 270 anos de fundação nessa quinta-feira, 19. É no pequeno espaço que duas pessoas trabalham como guardiãs da memória josefense.

Arquivo Histórico reúne diversos documentos sobre São José – Foto: Marcela Ximenes/ND

Criado no início da década de 1990, o Arquivo Histórico ainda é pouco visitado pelo público. Geralmente são pesquisadores e interessados na história do município que procuram o local em busca das mais diversas informações sobre São José. O local também recebe com alguma frequência a visita de herdeiros de terras onde um dia foi território do município.

O Estreito, por exemplo, bairro da região continental de Florianópolis, pertenceu a São José até os primeiros anos de 1940 e os atuais municípios de Angelina e Rancho Queimado que foram distritos josefenses até o começo da década de 1960. São Pedro de Alcântara pertenceu a São José até 1995. “Vem muita gente aqui para procurar documentos de posse de terras outros querem comprovante do valor que foi pago à época”, conta o historiador Nelson Félix dos Santos.

Ele e uma assistente trabalham para organizar uma diversidade de documentos que se acumulam. São registros diversos, entre movimento financeiro da administração municipal, contratos, obras, pagamento de impostos entre outros papéis que relatam os expedientes do serviço público a partir da década de 1930.

Sem registro açoriano

Para quem busca os tempos recuados de São José quase nada vai encontrar no Arquivo Histórico. “Não temos nada sobre os açorianos, nenhum documento. E o material sobre o escravismo foi doado para o Instituto Histórico e Geográfico (de Santa Catarina), infelizmente”, lamenta o professor Nelson.

O pouco que ficou no arquivo são algumas certidões de nascimento, de óbito, de compra e venda e de liberdade concedida aos escravos que viveram em São José da Terra Firme e, de acordo com o historiador, muitos homens e mulheres foram vendidos para fazendas cafeeiras localizadas na região Sudeste. “Quase 11% da população de São José no século XVX era de negros. Hoje há poucos remanescentes”, afirma.

Livro registra os habilitados a conduzir carruagens em São José – Foto: Marcela Ximenes/ND

Habilitação para carruagem

Por muito tempo a carruagem foi o meio de transporte mais comuns nas ruas de São José. Para guiar o veículo com tração animal, o condutor precisava passar por um teste chamado na época de “exame de suficiência de motorista e boleeiro”. Entre os registros de aptos e inaptos, está o de uma mulher de 33 anos, ela foi a única boleeira (antes a profissão era chamada de bolieira) encontrada nos arquivo pelo professor Nelson Félix.

Esse exame foi realizado por cerca de 30 anos, entre as décadas de 1940 e 1970. Os testes práticos, segundo conta o historiador, era feito no Centro Histórico mais ou menos parecido com os que são realizados atualmente para a habilitação de motoristas, com um orientador e um avaliador.

Contato com o mundo

No Arquivo Histórico estão guardados cerca de 25 mil cartões QSL do radioamador Gercy Ramos, já falecido. Os QSL são utilizados pelos radioamadores para a confirmação de contatos e o seu Gercy teve vários em diversos países, como comprovam os milhares de cartões do acervo doado pela família. Entre eles, um vindo da antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).

Cartão QSL enviado da extinta União Soviética para o radioamador josefense Gercy Ramos – Foto: Marcela Ximenes/ND

Nelson Félix conta que por muitas vezes o radioamador pedia ajuda a seus contatos quando alguém da cidade precisava de um medicamento que não havia na região ou mesmo no Brasil.

O hobby de seu Gercy colocou São José no mapa das antenas amadoras. “Muito josefense desconhece a história do seu Gercy, o que é uma pena”, lamenta o historiador.

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