À beira-mar

A praia é mesmo um lugar estranho. Até lugares em que há fiscalização e certo controle dos abusos vêm testemunhando novidades desanimadoras. Uma delas são os gringos fazendo churrasquinho a 20 metros de onde as ondas quebram – portanto, a um passo do povaréu que, amontoado, disputa cada centímetro de areia. Também se viu famílias chegando com quase mudanças para, num canto menos frequentado, estabelecer a farofa que iria até o pôr do sol. Não que isso já não ocorresse, mas agora houve quem só faltasse trazer fogão e micro-ondas num contêiner de plástico.

Férias de verão são também sinônimos de baratas voadoras, pernilongos sedentos de sangue, gatos que se insinuam entre as cercas, cães reclamando dos donos que saem de manhã e só voltam à noite, vermelhos como camarões fritos. Menos mal é quando um casal de pardais resolve fazer o ninho no telhado de casa, tolerante à presença de inquilinos barulhentos que durante o ano, geralmente, não dão as caras por ali. Os humanos se vão, eles ficam até cumprir o ciclo – e assim o ritual se repete, imutável, a cada temporada.

Outros acontecimentos recorrentes são as filas, a alta dos preços, o som exagerado – e de má qualidade – aqui e acolá, sobretudo no período das festas de fim de ano. Gente que só ouve o que lhe é oferecido de graça nas rádios vagabundas não se peja de erguer o volume com o sertanejo universitário (ou “universotário”) e outros gêneros de letras ruins e intérpretes que deveriam passar num fonoaudiólogo antes de ambicionar a gravação de um CD. Mas o pior está por vir: tudo isso, em maior escala, será reprisado no Carnaval, que já vem por aí.

A tudo isso se associa, indelével, a programação de TV nesses dias sabáticos. Há reprises de telenovelas, de filmes, de seriados, de programas de culinária. Quem não se lembra de levar alguns livros tende a emburrecer justamente no período em que, livre das obrigações profissionais, poderia destravar os neurônios. Leituras que esperavam por uma oportunidade têm enfim a chance de se concretizar. Sim, porque é preciso resistir à morte da palavra impressa, que querem nos impingir em nome dos paradigmas que ganham corpo nesses tempos de transição tecnológica!

Pra não dizer que não falei de flores, há coisas boas mesmo sob o sol inclemente do estio. O céu impecável dos dias claros, a lua crescendo em noites sem nuvens, os pássaros embalando quem dorme demais, a chuva pingando na terra seca – tudo isso torna a temporada um tempo de saudável reencontro com os nossos próprios fantasmas.

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