A construção do Mercado Público de Florianópolis, em 1845, começa com a discórdia das barraquinhas

História do Mercado Público começa com a venda de pescados e alimentos ao ar livre, na praça central da cidade

A primeira medida tomada pelas autoridades do Desterro quando o imperador D. Pedro 2º anunciou sua visita à cidade, em 1845, foi mandar para o outro lado do rio da Bulha (o canal da atual avenida Hercílio Luz) as barraquinhas que comercializavam pescados e alimentos na praça central, vizinha do palácio do governo. Até então, na área próxima à Catedral se aglomeravam mascates, oleiros, pescadores e colonos que vendiam, em condições precárias, sua produção aos moradores da ainda incipiente vila à beira-mar. Com o estilo ferino que o consagrou, o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral descreveu aquele sítio, em meados do século 19, como um roçado malcheiroso e cheio de mosquitos, embora já abrigasse algumas construções governamentais.

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Comércio pesqueiro na lateral da ala norte do Mercado Público de Florianópolis aonde é hoje o vão central do Mercado

Foi nesse ambiente que a cidade começou a discutir a necessidade de erguer um edifício que abrigasse os comerciantes que, desmentindo as promessas iniciais, tiveram que manter seus tabuleiros longe da praça. Jornais de situação e de oposição e as poucas pessoas influentes do Desterro se envolveram numa polêmica sobre a localização do Mercado, até que a decisão recaiu sobre uma área no largo do palácio, próxima ao ponto onde fica hoje a praça Fernando Machado. A criação de dois partidos, o Católico e o Judeu, foi um dos desdobramentos desse acontecimento marcante para a acanhada capital catarinense.

Àquela altura, o Centro da cidade já contava com o palácio do governo, a Catedral e a Casa de Câmara e Cadeia. Em 5 de janeiro de 1851, depois de interrupções, loterias e empréstimos para financiar o empreendimento, o Mercado Público foi inaugurado, organizando o caótico comércio de víveres na Ilha, que crescera como abastecedora dos navios que seguiam em direção ao rio da Prata e ao Pacífico, via Estreito de Magalhães. Na época, o Desterro tinha em torno de 20 mil habitantes.

Crescendo com a cidade

Com o crescimento da população e das atividades comerciais e portuárias, nem o Mercado, nem o Galpão do Peixe, construído como solução alternativa, davam mais conta do movimento. Em 1895, com a cidade rebatizada com o nome de Florianópolis, começou o debate sobre a construção de um novo mercado. As opções eram o final da avenida Mauro Ramos, na praia de Fora, ou o Largo da Alfândega.

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Antes da construção do aterro, na Praia do Vai Quem Quer

A segunda alternativa foi a eleita, e em 5 de fevereiro de 1899 a ala norte foi entregue, com iluminação a gás acetileno, uma novidade para a época. Os jornais reproduziam o pensamento dos grupos dominantes, e assim “A Republica” apoiava a administração municipal, louvando a iniciativa da edificação do chamado Novo Mercado, ao passo que “O Estado” pregava a recuperação do prédio antigo, mais identificado com a rotina da cidade.

Não demorou para que o prédio pedisse as primeiras reformas e adequações, e depois se mostrasse também incapaz de dar conta das demandas de uma cidade em expansão. Em 1912, foi construída uma rampa para facilitar o desembarque de carnes, pescados, frutas, verduras, louças de barro e embutidos produzidos no continente. Até que, em 1931, a ala sul foi erguida para abrigar boxes para a venda exclusiva de pescados e de carnes. Àquela altura, a cidade já se ligara definitivamente ao Estado por meio da ponte Hercílio Luz, tinha canalizado o rio da Bulha e ganho as primeiras redes de água encanada, energia elétrica e saneamento básico.

A nova ala comportava 16 açougues, 13 deles destinados exclusivamente à venda de carne verde, dois para carne de porco e um para miúdos, além das bancas de peixes. Frutas, verduras e legumes eram vendidos na concorrida Feira do Colono, na parte interna da ala antiga. Em 1938 foram instaladas as primeiras câmaras frigoríficas, sendo que a maior delas podia guardar até duas toneladas de pescados. A partir dali não foi mais preciso jogar creolina e inutilizar os produtos frescos não vendidos até o início da tarde por falta de refrigeração. O frigorífico funcionou até 1988.

O grande centro comercial da Ilha

Os anos 50 e 60 ficaram marcados na memória de muitos florianopolitanos pelas imagens de canoas, batelões e baleeiras singrando as águas das baías Norte e Sul abarrotados de mercadorias produzidas em Santo Amaro da Imperatriz, Águas Mornas, Palhoça, São José, Antônio Carlos, Biguaçu e Angelina, cujos moradores que já tinham, também, boas estradas à disposição para trazer víveres até os entrepostos do continente. Em direção ao Mercado Público se dirigiam igualmente os produtores rurais e pescadores do Ribeirão da Ilha, do Campeche, do Ratones, do Sambaqui e de Santo Antônio de Lisboa. Era a época das feiras de produtos coloniais que tornaram o espaço um grande mercado ao ar livre e um ponto de encontro de pessoas da área central da cidade.

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Trapiches na área da Alfândega

A feira abria nas quartas-feiras, mas nas segundas e terças os colonos dos municípios do continente próximo já começavam a chegar e se hospedavam na pensão Kowalski, no espaço entre as torres onde depois funcionou o restaurante Pirão. Além dos moradores do Centro, que chegavam cedo para levar as melhores mercadorias, donos de pequenos mercados e armazéns do Saco dos Limões, Pantanal, Carvoeira, Trindade, Córrego Grande e Agronômica também se abasteciam ali. Os que não tinham condução própria contratavam fretes com carroceiros que só faziam esse tipo de serviço na Ilha.

A década de 1960 trouxe para Florianópolis uma grande transformação baseada na implantação da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e da sede da Eletrosul, e também em obras de infraestrutura. Foram construídas as estradas para o Santinho, a Barra da Lagoa e o acesso ao Parque do Rio Vermelho, planejado como uma gigantesca área de lazer para a população. O bairro Trindade, até então dominado por sítios, chácaras e laranjais, começou a ser loteado, assim como o entorno onde ficavam o Córrego Grande e o Pantanal. E o turismo, a grande vocação da Ilha, passou enfim a ser tratado com a atenção que merecia.

Aterro mudou relação com o mar

Em tudo o que acontecia na cidade, o Mercado Público acabava sendo afetado, mas nada se comparou à construção do aterro da baía Sul, durante o governo de Colombo Machado Salles, nos anos 70. Até 1974, as embarcações que traziam o pescado e outros alimentos encostavam no trapiche principal e em atracadouros menores, junto à rua Francisco Tolentino. Com o aterro e a ponte Hercílio Luz já sobrecarregada, a nova travessia absorveu o papel que o transporte marítimo desempenhara até ali como meio de abastecimento do Mercado. A ponte que levou o nome do ex-governador foi inaugurada em 8 de março de 1975.

Com os anos 80 veio uma redefinição de conceitos para o Mercado, embora isso tenha ocorrido de forma não planejada e sistemática. Bares e outros tipos de comércio deram ao espaço um perfil mais cosmopolita e o inseriram definitivamente no roteiro turístico da Capital. Àquela altura, já haviam surgido vários supermercados que tiraram do Mercado Público o protagonismo do comércio de alimentos na cidade. A implantação dos primeiros shoppings centers e a multiplicação de minimercados, peixarias, açougues e padarias nos bairros próximos ao Centro e nos balneários estabeleceram uma concorrência acentuada com o quase centenário mercado público da cidade.

Os anos seguintes foram marcados por várias reformas emergenciais, a criação de uma associação dos varejistas do Mercado, o tombamento do prédio como patrimônio histórico municipal e a instalação do bar Box 32, do comerciante Beto Barreiros, que dividiu os lojistas, mas se tornou um espaço conhecido em todo o Brasil por receber líderes políticos, artistas e atletas de ponta.

A nota triste da fase mais recente do Mercado foi o incêndio que destruiu grande parte da ala norte, em agosto de 2005. Nos anos subsequentes à reconstrução, a casa passou por turbulências, com denúncias de não pagamento de aluguéis à prefeitura e transferências irregulares de posse dos boxes. Foi estopim para a transformação em curso, que culminará com o novo mix, a partir do início do mês de agosto.

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