A duração do dia

Quanto tempo tem 24 horas? Quantas mortes, quantas memórias? Quantas estrofes, quantas histórias? Quantos minutos se escondem entre tantas demoras?

Quanto tempo cabe dentro de um dia? Quantos Josés, quantas Marias? Quantas serenatas, quantas romarias? Quantos segundos estão mergulhados no pingo que descai da pia?

Quanto tempo passa antes da noite? Quantos afagos, quantos açoites? Quantas mentiras, quantos aceites? Quantos dionísios devotando afrodites?

Quantos rios correm secretamente no curso desconhecido da madrugada, à sombra muda das luas, ruas e estradas? Quantas cachoeiras se quedaram despercebidas antes da manhã trovejar luz e sol? Água e sal? Si, bemol?

Quantos amores morreram antes de nascer, abandonados em camas vazias e tapetes desenrolados? Vertigens na anti-hora do dia, na antessala da fuga, no sumidouro do êxtase, quase-dor, entre instantes tão curtos e carentes de prorrogações?

Quantas palavras ressuscitaram do silêncio para sobrevoar a casa ainda coberta de noite e assoprar na garganta de um galo rude o cacarejar das antigas auroras, num tempo em que o parto do dia tinha um começo certeiro como uma flecha bem atirada? O sepultamento também tinha hora bem dita, atrás de uma montanha azul ou verde, dependendo da raiva do sol e do alinhamento das nuvens.

Quantas tardes amanheceram precipitadas antes do meio-dia, entardecidas de si mesmo e suplicando por um precoce anoitecer? Como se a noite findasse o dia e a madrugada fosse uma árvore plantada para o descanso do almoço. Como se as horas fossem uma neblina empurrada ao sabor do vento. Como se o dia não se arrastasse lentamente sobre a escuridão até se precipitar, de novo, no ventre da alvorada.

Quantos amanhãs beliscam na janela da tarde, querendo chegar primeiro no futuro? E, se o futuro fosse hoje, o hoje seria outro dia dentro de um mesmo dia já passado ou ele tomaria todo o tempo que precisasse para se tornar um dia inteiro, pleno, um dia-a-dia? Mas, quanto tempo dura um dia inteiro? Às vezes dura semanas. Às vezes, o mês cheio, bem poderia.

Quantas estações reinam entre o hábito dos afazeres? Porque, às vezes, é inverno e ninguém sabe. Dá chuva, tempestade e ventania. Ninguém vê, ninguém viu, ninguém ria. Soam alarmes e sirenes e tudo parece, assim, uma alegoria.

O dia está aí para ser adivinhado. Quem é que pode fazer tantas contas tendo tão pouco tempo e ganhando tão pouco dinheiro? Não basta o dia todo de hoje para contar tudo de ontem. Não basta o que já se repetiu. Não basta o que já se mediu. O mundo não está em dia e devemos ser enfáticos: esqueçam os poetas, precisamos de matemáticos.

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