A história da vila Amazilda, uma casa portuguesa na Joinville alemã

Residência foi construída no início do século 20 por José Navarro Lins, que foi coletor federal de impostos

Fabrício Porto/ND

Na casa das famílias Lins e Garcia hoje funciona uma clínica radiológica
Divulgação/ND

Na primeira metade do século 20, uma rua Abdon Baptista sossegada

A chegada de imigrantes trazidos pela Sociedade Colonizadora de Hamburgo marcou a colonização do Domínio Dona Francisca e até hoje, passados quase 160 anos do desembarque dos primeiros colonos alemães e suíços (entre outros), ainda pode ser percebida em muitos aspectos da cultura da cidade. Mas eles não foram os únicos. Além da região contar com várias famílias de origem portuguesa antes do início oficial da colonização, a presença luso-brasileira também foi forte em Joinville a partir das últimas décadas do século 19 e esteve ligada ao ciclo da erva-mate. Nomes como Abdon Baptista e Procópio Gomes, só para citar alguns, influenciaram de maneira decisiva no desenvolvimento econômico, político e social do município.

Na época, dois idiomas podiam ser ouvidos no Centro de Joinville. Até a altura da rua Conselheiro Mafra, atual rua Abdon Baptista, o alemão predominava. Mas, a partir dali e seguindo em direção à zona Sul, o idioma mais falado era o português. Na rua Abdon Baptista, um casarão com mais de 90 anos e ainda preservado nos remete a esta época: é a Vila Amazilda, a casa que o major Navarro Lins e Amazilda Baptista Navarro Lins ergueram para construir sua família e que hoje sedia a clínica São Marcos Radiologia.

José Wanderley Navarro Lins nasceu em Olinda, Pernambuco, em outubro de 1881. Mas logo veio  para Santa Catarina, com a família. O pai, Antônio Wanderley Navarro Lins, era advogado e atuou como juiz de direito em Itajaí, Lages, Brusque e Florianópolis. Desembargador, foi presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina e chegou a ser governador interino em junho de 1915.

O jovem Navarro Lins a princípio trabalhou como despachante aduaneiro em São Francisco do Sul. Depois, por muitos anos, foi coletor federal em Joinville. Ainda no começo do século, casou-se com Amazilda Baptista, uma das oito filhas do médico, industrial e  político Abdon Baptista, que foi prefeito de Joinville e um dos nomes mais importantes da colônia Dona Francisca no final do século 19 e no começo do século 20.

Pouco antes de 1920, Navarro Lins construiu o casarão na então rua Conselheiro Mafra, ao lado da casa do sogro, que ficava onde hoje é o Edifício Hannover. “Nasci ali”, conta Roberto Navarro Lins, filho caçula do casal. Além de residência, nos primeiros anos também funcionava no térreo a sede da Coletoria Federal em Joinville e o escritório  de Navarro Lins. “Eu sempre ia hastear a bandeira no terraço”, comenta Roberto, relembrando o tempo em que o órgão federal funcionava no local.

Navarro Lins e dona Amazilda tiveram oito filhos. Para abrigar a família, a casa tinha cerca de 200 metros quadrados divididos em três pavimentos. No térreo, voltado para o lado direito, ficava o escritório do coletor, a sala de jantar, a sala de visitas e a copa. Do outro lado,  havia uma varanda grande, que levava a um vestíbulo. No primeiro andar ficavam os quartos do casal e dos filhos e o banheiro, e no segundo pavimento, a torre com mais um quarto e o terraço. “Era muito grande”, comenta o filho Roberto.

Major da guarda nacional

Roberto Navarro Lins conta que, apesar de ser conhecido como major, o pai nunca foi militar. Comum na época nas famílias mais abastadas, o título era da Guarda Nacional. “Ele tinha uniforme, tinha espada, mas não era militar”, conta.

Ele lembra que o pai tinha uma ampla rede de amizades e frequentava o Clube Joinville, na rua do Príncipe. “Dava-se bem com todo mundo”, complementa. Como era muito comum na época, tinha uma turma de amigos que costumava reunir-se para jogar cartas – sempre revezando nas casas.

Depois que se aposentou, na década de 40, Navarro Lins mudou-se para Curitiba e foi morar perto do filho Roberto e da neta Neuza. Ele morreu aos 72 anos, em 1954. A mulher, Amazilda, faleceu um ano depois.

Adhemar Garcia

Nos anos 50, a família Navarro Lins vendeu a casa para outro político também de origem lusa: Adhemar Garcia. Líder político em Joinville, Adhemar Garcia era filiado ao PSD e vinculado ao grupo político da família Ramos, cujo líder era o deputado federal Nereu Ramos, que chegou a assumir a presidência da República por um breve período, em 1955. Tinha forte atuação comunitária e foi vereador na cidade.

As famílias Garcia e Navarro Lins eram próximas: a irmã de Adhemar Garcia, Adi Garcia, era casada com Gilberto Navarro Lins, um dos filhos do major. Professora, Adi era muito conhecida – e querida – na cidade pelos anos de magistério na Escola Conselheiro Mafra.

Filha de Adhemar e Naná Garcia, Maria Teresinha Garcia Correia conta que o pai era muito popular, com muitos amigos que chegavam e ficavam para o almoço. “A casa era muito alegre, estava sempre cheia”, comenta.

Erva-mate

No início do século 20, Joinville crescia a olhos vistos, impulsionada pelo beneficiamento e exportação da erva-mate vinda do Planalto Norte, nas últimas décadas do século 19. A riqueza gerada pela atividade econômica foi responsável pelas primeiras  fortunas da colônia e em grande parte reaplicada em iniciativas que dariam impulso ao desenvolvimento da cidade nas primeiras décadas do século 20.

Sogro de Navarro Lins, Abdon Baptista era médico, político, mas também comerciante e industrial. Sócio da firma A. Baptista e Oscar,  com Oscar Antônio Schneider, ele atuava no beneficiamento da erva-mate. Como político, filiado ao Partido Liberal, foi deputado estadual, federal e senador, além de prefeito de Joinville.

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