A literatura como leitura no mundo

Para os que duvidam da importância da literatura e a relegam ao hall do que é dispensável, por favor, não a menosprezemos. Apesar de difícil definição, de não ser algo que tenha apenas uma resposta, a literatura é uma mistura de fantasia, história, tradição, ficção, realidade, costumes, posicionamento, reflexão, conhecimento, ensinamento, comparação, mediação, suplemento…

Quando a mãe embala o bebê no colo e canta Nana Neném Que a Cuca Vem Pegar, ela está praticando literatura, está trazendo um canto de tradição oral e replicando, desde a primeira vez que foi cantada, para produzir conforto e carinho a seu filho. Quando estou escrevendo uma carta, e falo coisas de amor e tantos sentimentos, estou reproduzindo uma prática que se repete há milênios, ultrapassando o desejo de se comunicar, mas chegando ao ponto de fazer o receptor sentir, às vezes pela distância, motivado pelo saudade, a dor daquele que escreve… essa sensação quase verdadeira expressa numa frase do tipo Estou Morrendo de Saudades, é literatura, porque geralmente ninguém morre de saudade.

Quando insiro em meus textos frases do tipo Asta La Vista, Baby, Eu Sou o Rei do Mundo, Meu nome é Silva, Marinaldo de Silva e Silva, em alusão ao Bond, James Bond, Que a força esteja com você, Que comecem os jogos, estou fazendo literatura, porque estou aludindo a um filme que, antes de ser filmado foi roteiro, e roteiro de filme tanto quanto de teatro, é literatura. Até sacramentada a literatura pode ser: que poesia mais linda há em trechos bíblicos quando Jesus nos fala para sermos como os lírios do campo, ou, No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus!

Estou usando figuras de linguagem, imagens poéticas para exemplificar uma outra coisa:  estou produzindo literatura. A história recontada dos homens e do tempo por meio das crônicas, as receitas e as simpatias fantásticas, de tempos imemoriais até aqui, a primeira história que ouvimos, o mundo de chistes do palhaço, o resumo que fizemos na escola após o teatro, a transformação da lua em coisa de amantes, as canções tocadas à beira de um rio,  o olhar sobre o rio e depois dizer que ele alicia as pedras e as destrói com sua força mascarada de leveza, os ditados populares e os provérbios, as piadas contadas e que fizeram rir por terem ou não terem graça, os contos de fadas que nos fizeram perceber por meio de João e de Maria a coragem, da Branca de Neve a inveja da madrasta, por meio da Cinderela a transformação e senso de estética e ética, por meio do Patinho Feio que a natureza é surpreendente e o tempo, nem se fala!.

A literatura está ligada a nós na trivialidade de quando marcamos nosso nome dentro de um coração na casca de uma árvore, repetindo um gesto que começou não sabemos por quem nem em qual floresta, está ligada a nós nas primeiras rimas dos primeiros poemas quando escrevemos à mãe que seu coração é um violão porque toca música…

Dizer que a literatura não interessa, que é descartável, é jogar fora grande parte de tudo aquilo que nos faz homens: na tradição, na formação, na cultura e na fé.

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