A mais antiga QUITANDA

Trabalho. Apostando na qualidade, João Sell vem fazendo história o comércio de verduras e frutas em Joinville

 
Rogerio da Silva/ND

Bons frutos. O quitandeiro João manteve a qualidade, bons serviços e honestidade no seu trabalho e garantiu a longevidade do seu empreendimento

Já são quase 57 anos desde que abri as portas pela primeira vez.”

A maior parte da enorme freguesia da quitanda de João Sell, ponto de referência na rua São Paulo, quase na esquina com a Ministro Calógeras, talvez nem saiba, mas compra no mais antigo estabelecimento do gênero de Joinville, entre os que estão em atividade. “Já são quase 57 anos desde que abri as portas pela primeira vez”, conta o seu João, ainda acompanhando o dia a dia da quitanda, mesmo tendo filhos e neto trabalhando junto. Muita coisa mudou nestas quase seis décadas, mas um aspecto o quitandeiro faz questão de preservar: “Sempre valorizei a qualidade da mercadoria, motivo principal de ter conquistado uma clientela tão grande e fiel”.
Qualidade que João aprendeu a cultivar desde criança, na roça da família em sua Corupá, onde nasceu em 1933. Ele foi, aos 21 anos, o primeiro dos cinco irmãos a trocar a lavoura pela cidade. “Eu queria trabalhar na indústria, onde a possibilidade de prosperar era maior do que plantando bananas”, justifica. Assim, foi parar em Rio Negrinho, onde se empregou numa fábrica de móveis. Um mês depois já estava em Joinville, trabalhando na empresa de Alvino Strattmann. Foi depois para a Confeitaria Riachuelo, onde aprendeu o ofício de garçom, útil no emprego seguinte, no bar de Wigando Paul, na rua do Príncipe.
No outro lado da rua, João Sell via o seu grande sonho: a quitanda de dona Elisa, mãe do lojista Alfredo Salfer. “Um dia eu disse pra dona Elisa que gostaria de comprar a quitanda. Pois não é que algum tempo depois ela veio me oferecer o negócio?” E agora, onde arranjar os 50 contos de réis necessários para comprar a quitanda? “Consegui levantar 46 contos do meu pai e de um tio, e os 4 que faltavam foram emprestados pelo meu patrão. Fechei o negócio em 1955, e a própria dona Elisa me ensinou tudo sobre verduras e frutas. Ela foi como uma segunda mãe para mim”, agradece João.

Em casa aprendi o valor da honestidade. E frau Salfer dizia que não devemos olhar a porta dos outros, para não quebrar a nossa”.

Arquivo pessoal/ND

Viagem. Primeiro caminhão de João, comprado em 1963, com o qual viajava para Curitiba para abastecer seu comércio

Em 1955, ano da inauguração

O casal logo após inaugurar a casa própria, em 1983

Seis horas até Curitiba
Nos primeiros anos, João recebia a mercadoria trazida por intermediários, da central de abastecimento de Curitiba. Isso até 1963, quando comprou um caminhão. E começou a subir a serra sozinho, em busca das melhores frutas, verduras e legumes. “A viagem até Curitiba levava até seis horas, isso se a estrada estivesse boa!”, recorda.
No mesmo ano, casou-se com Alzira Rohreger, na casa de quem costumava cortar bambu. “No começo, ela não gostava muito de mim, por causa do bambu que eu tirava, mas depois acabou simpatizando”, conta João, sempre confirmado – ou corrigido, dependendo do caso – pelas palavras da esposa. Ela é que se encarregava de atender a freguesia quando o marido ia em busca de mercadoria fresca.
Dezoito anos depois de consolidada, a quitanda Sell atravessou a rua, ocupando justamente o imóvel onde era o bar de Wigando Paul. Por essa época, João também administrava a quitanda do supermercado Riachuelo. Finalmente, no dia 5 de dezembro de 1983, o estabelecimento passava a ocupar imóvel próprio, na rua São Paulo, ao lado da antiga Martric. “A malharia nos garantia uma freguesia boa”, lembra dona Alzira.
Hoje, cerca de 70% das vendas do Comércio de Frutas Sell se concentram nas entregas em domicílio, graças à ampla clientela formada durante todos estes anos. Além dos filhos Sandi e Leonardo, o neto Bruno trabalha na quitanda, juntando-se aos funcionários Pedro e Rosa. Uma das marcas registradas são as cestas de frutas montadas por dona Alzira. “No Natal quase não vencemos atender a procura.” Como característica, tanto nas cestas quanto nas prateleiras, produtos frescos e com apresentação impecável. Para se manter tanto tempo no ramo, duas explicações simples: “Em casa aprendi o valor da honestidade. E frau Salfer dizia que não devemos olhar a porta dos outros, para não quebrar a nossa”.

Cenoura metálica
Um dia, um freguês reclamou por ter encontrado um pedaço de metal dentro de uma cenoura. “O objeto era uma aliança de ouro, que foi absorvida pela cenoura. Como nunca encontramos o dono, mandamos fazer dois anéis”, conta dona Alzira, mostrando os anéis zelosamente guardados.

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