A oculação

O desejo sufocado não é um desejo morto, é um desejo multiplicado. Esta frase estava guardada em meu pen drive, fruto desses rompantes que surgem na mente de um escritor, e guardada ali, nem bem ao certo sei quando foi gravada, finalmente dá-se ao tapa, agora que, em viagem, tenho me comunicado muito com o olhar. Quanta coisa o meu olho concluiu do que antes era só pseudo imagem, “propositação”! Se antes de conhecer um lugar existia o desejo de vê-lo, ao sê-lo apresentado, e gostado, surge a vontade de fazê-lo parte. O olho cresce, tudo lupa, aumenta, o que era microscópico se avoluma, e as paisagens, para alguns cotidianas, são, aos olhos novos, fantásticas!

E os olhos transformados em câmeras, vão registrando a pedra, o povo, a pólvora, a agulha, a esquina, o estrangeiro, a língua presa, a língua insana, a poesia cotidiana e a imperceptível, aquelas que poetas costumam tirar de lugares que, quem sabe, realmente existam! Ao voltar, olhando pela segunda vez, a pedra já será outra, o povo já terá crescido, a pólvora estourado, a agulha terá alinhavado e terão surgido outras, de outras bitolas, na esquina já terá um buquê de postes, o estrangeiro já terá se familiarizado, a língua presa terá criado outra palavra, a insana terá se estabelecido, e a poesia terá se multiplicado, ou o poeta que antes a via, talvez morrido.

Uma paisagem nunca é a mesma da fotografia! Pela segunda vez vista, tendo ela sido absorvida pelos olhos, já será outra! E, portanto, novo desejo de revê-la, porque a vontade não terá sido sufocada, pois olhos que observam mais do que veem, esses multiplicam! E então a gente volta! Olha de forma diferente a curvatura das rosas, percebe o cheiro agridoce de outras terras vindo com o vento e pousando sobre a própria terra em que pisamos.

Nos lugares diferentes onde andamos, os olhos vão argumentando os desejos. Em países estrangeiros, ouvidos analfabetos não fazem distinção de palavras, então, o que é primitivo impera e os olhos falam! Sem trocar uma palavra quanta coisa é feita! Na incapacidade da leitura dos avisos, pode-se descrever o impacto, a cor avermelhada de umas árvores, o olhar assustado da mulher sentada no banco ao lado, a curiosidade da criança que ouve um idioma tão diferente ao dela, a felicidade da noiva saindo da igreja e lançando ao vento coisas que com certeza são felizes.

Quanto amor faz os olhos com outros olhos! Quanto elogio é feito apenas com um levantar de sobrancelhas! Quanta castidade é jogada ao lixo quando no outro olhar dá-se o mergulho! E decifrando paisagens e pessoas, e se comunicando pelo tato, e, recebendo das estátuas a multidão de olhos que já avistaram, o desejo, sufocado pela incapacidade de se verbalizar, transa com a mente elucubrações, aumenta a vontade de pensar, de imaginar, de criar novas perspectivas, e expectativas; Estas serão revigoradas assim que transformadas em átomo e carbono, assim que materializadas, ou não, em nossa máquina registradora.

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“O desejo sufocado não é um desejo morto, é um desejo multiplicado”

Cronista Marinaldo de Silva e Silva fala sobre as diversas opções para observação de ocorrências do cotidiano

O desejo sufocado não é um desejo morto, é um desejo multiplicado. Esta frase estava guardada em meu Pen Drive, fruto desses rompantes que surgem na mente de um escritor, e guardada ali, nem bem ao certo sei quando gravada, finalmente dá-se ao tapa, agora que, em viagem, tenho me comunicado muito com o olhar. Quanta coisa o meu olho concluiu do que antes era só propositação! Se antes de conhecer um lugar existia o desejo de vê-lo, ao sê-lo apresentado, surge a vontade de fazê-lo parte. O olho cresce, tudo aumenta, o que era microscópico se avoluma, e as paisagens cotidianas, são, aos olhos novos, fantásticas! E os olhos-câmeras, vão registrando a pedra, o povo, a pólvora, a agulha, a esquina, o estrangeiro, a língua presa, a língua insana, a poesia cotidiana e imperceptível, aquelas que poetas costumam tirar de lugares, quem sabe, realmente existam! Ao voltar, olhando pela segunda vez, a pedra já será outra, o povo já terá crescido, a pólvora estourado, a agulha alinhavado e terão surgido outras, de outras bitolas, na esquina já terá um buquê de postes, o estrangeiro já terá se familiarizado, a língua presa terá criado outra palavra, a insana terá se estabelecido, e a poesia terá se multiplicado, ou o poeta, talvez morrido. Uma paisagem nunca é a mesma da fotografia! Pela segunda vez, vista, já será outra! Novo desejo de revê-la, porque a vontade não terá sido sufocada, pois olhos que observam mais do que veem, multiplicam! E então a gente volta! Olha de forma diferente a curvatura das rosas, percebe o cheiro agridoce de outras terras vindo com o vento e pousando sobre a própria terra em que pisamos. Nos lugares diferentes onde andamos, os olhos vão argumentando os desejos. Em países estrangeiros, ouvidos analfabetos não fazem distinção de palavras, então, o que é primitivo impera, e os olhos falam! Sem trocar uma palavra quanta coisa é feita! Na incapacidade da leitura dos avisos, pode-se descrever o impacto, o vermelho das árvores, o olhar assustado da mulher sentada ao lado, a curiosidade da criança que ouve um idioma diferente ao dela, a felicidade da noiva saindo da igreja e lançando ao vento coisas felizes. Quanto amor faz os olhos com outros olhos! Quanto elogio é feito apenas com um levantar de sobrancelhas! Quanta castidade é jogada ao lixo quando no outro olhar dá-se o mergulho! E decifrando paisagens e pessoas, e se comunicando pelo tato,   o desejo, sufocado pela incapacidade de se verbalizar, transa com a mente elucubrações, aumenta a vontade de pensar, de imaginar, de criar novas perspectivas; Estas serão revigoradas assim que transformadas em átomo e carbono, assim que materializadas, ou não, em nossa máquina registradora.

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