A Origem das expressões – 6

Aniversário de criança sempre é uma festa, expectativa, tentativa dos pais em não traumatizar os pequenos, crescerem e colocar a culpa neles. Um dos meus aniversários teve todas essas ocupações. Ao custo de muito trabalho, lembro de minha mãe preparando o bolo. Tentava preparar para mim uma festinha que dignificasse aquele dia. Não era nada parecida com as festas de hoje: temáticas, piscina de bolas, dezenas de tipos de doces. Tinha no máximo um bolo que eu lembro de minha mãe fazendo, coberto com clara quase em neve derretida e uma anilina azul que dava um ar espetacular à delícia.

 Não escrevo isso com remorsos, ou piedade saudosista, apenas relato um fato para dizer que as crianças podiam ser felizes com coisas menos esquisitas. Embora naquela tarde eu não entendesse isso ainda …

Recebi uma missão:  – Mas eu sou o aniversariante! – retruquei. A resposta foi um cascudo. Minha mãe educava com mãos de ferro. Não! Lembro agora! Ela costurava e vivia com um dedal, acho que era aquilo que fazia doer tanto aquele castigo!

Pois bem, tinha que ficar cuidando da geladeira, que vivia ligando e desligando, e avisá-la, caso isso acontecesse, para que a clara de neve derretida sobre o bolo não virasse uma avalanche e comprometesse ainda mais a festa. Só que o tempo dói numa criança, mais que num adulto. Pelo menos eu sempre quis ser maior antes da hora, e nessa impaciência, tudo correndo mais lento do que o devido, a vida parecendo mais fantástica que aquela geladeira indecisa, fui esquecendo o cumprimento, e saí; brincar era mais importante, e eu, egocêntrico, aniversariante, mais importante ainda!

Quando voltei, a geladeira já havia desligado e o azul da anilina escorregava, estraga prazeres muito atrevido. “A tua sorte é que os meninos ricos da rua de trás não vieram, só os quatro gatos pingados aqui da vizinhança, e eles não vão se importar se o bolo tá azul, se ele tiver vitaminado! (sic)”. Mamãe era direta na pedagogia. Tinha lições muito claras e objetivas. Não era de ficar se lamentando e me ensinou coisas importantes, como dar valor a qualidade antes da quantidade. Se proposital ou não, isso é um mistério que ela guarda no céu. Agora, quanto aos gatos pingados dessa expressão eu nunca esqueci. Os quatro, todos, continuam até hoje comigo.

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