Acho que te amo

O sinal abre e nem percebo que as cores já mudaram. Buzinas me empurram para frente, me forçando a seguir pela rua que não sei mais aonde vai dar. Não sei ao certo se devo entrar na Nove de Março ou seguir reto pela Henrique Meyer, mas, enquanto decido, passo dois quarteirões que me dão a certeza que terei de fazer o retorno de qualquer jeito para chegar ao meu destino. Foram quase três quilômetros a mais de um percurso planejado com certa competência, avalio posteriormente, enquanto estaciono numa vaga irregular. 

No balcão do cartório a atendente exibe um crachá com nome igual ao teu. Quase igual, porque tem um acento agudo na primeira sílaba, como que para me alertar de que se trata de outra pessoa. De fato, não tem nada a ver contigo. Nem cabelos, nem olhos, nem pele, nem nada além do nome. Ri disfarçadamente, tentando não parecer um idiota num lugar onde todos parecem idiotas, aguardando pagar por papeis carimbados que definirão o futuro de cada um. A atendente com teu nome não se esforça para ser solícita, mas também é naturalmente distante e insípida. Por pouco não sugeri que mudasse de nome. 

Não lembro o que escrevi no espaço para a assinatura. Acho que não houve problema, já que ninguém reclamou. (Às vezes eu escrevo poemas nos boletos bancários, mas os caixas nunca observam o campo das observações). Tentei ligar o carro com a chave de casa. Segundos depois, percebi a incompatibilidade, não sem olhar para fora e verificar se alguém notou o deslize. Ninguém notou o deslize, suspirei ao ver, incontinenti, uma notificação rabiscada pela polícia sob a palheta do para-brisa. Teria até a data do teu aniversário para contestar a infração. E essa coincidência me fez parecer um daqueles idiotas do cartório. 

Com a chave certa, liguei o carro. Entrei na Princesa Isabel praguejando contra eu mesmo, até avistar um carro tão amarelo quanto aquela sua camisa de malha, estampada. Me recordo das manhãs de domingo (que são sempre amarelas), mas logo uma buzina me traz de volta às 16:20 de uma quarta-feira. Numa angústia sem cor, deixo o carro morrer e dou minha pequena contribuição para o caos diário do trânsito. Algum daqueles idiotas que esperavam no cartório deve estar rindo de mim neste momento, penso. O carro amarelo já vai longe, enquanto a fila em que estou mal andou. 

Travado sobre a faixa de pedestres, eu volto a pensar em você atravessando a rua apressada. Eu não sei, mas acho que te amo. Por você, perderia uma tarde na fila do banco e escreveria haicais nos espaços em branco da escritura. Eu até pediria uma música na rádio e pintaria todos os carros de amarelo, meu amor.

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