Um quinhão do paraíso

Nova invasão de terras na Ilha de Santa Catarina levanta a questão: qual o objetivo do grupo que coordena o movimento Amarildo? Praticar o mesmo que seus coordenadores condenam - a cobiça por um quinhão do paraíso?

Até as milenares pedras de Itaguaçu sabiam que a chamada Ocupação Amarildo não “sossegaria o facho” na Baixada do Maciambu, à espera do milagre da reforma agrária – ou da reforma urbana. É óbvio que o movimento social tem características políticas, que seguem uma determinada dinâmica de atuação. Agiu na madrugada do domingo de Páscoa, em condições difíceis, com muita chuva na capital catarinense. A invasão só foi revelada pela manhã, pelos próprios coordenadores, os mesmos que haviam aceitado a rendição pacífica em relação à ocupação anterior, num terreno às margens da SC-401. Com a atitude, desafiam a Justiça, a segurança pública, a prefeitura e o governo. Abrem um precedente perigoso, de estimular a prática desse tipo de solução para as demandas habitacionais da região metropolitana. Lembrando que isso foi muito comum nas últimas décadas, com o surgimento de centenas de comunidades miseráveis em Florianópolis, São José, Palhoça, Biguaçu e até cidades menores, como Tijucas. A diferença é que antes essas ocupações pareciam espontâneas. Agora têm uma clara coordenação política, orientada por partidos e grupos extremistas. O Estado não pode tergiversar. Em Florianópolis há mais de 20 mil famílias à espera de moradia digna. A fila tem quase duas décadas. Se cada uma delas resolver se juntar a essa causa, dos chamados Amarildos, teremos a multiplicação do fenômeno, criando-se uma insegurança jurídica inadmissível, um estado de completa e complexa anarquia social. Para finalizar: o movimento que marca presença agora no Rio Vermelho tem o claro objetivo de fincar sua bandeira na Ilha de Santa Catarina, como fez entre dezembro de 2013 a abril de 2014. Não estaria praticando o mesmo que seus teóricos criticam – a cobiça por um quinhão do paraíso?

Bom Abrigo

Não é preciso ter mais de 40 anos de idade para lembrar o que foi feito pela prefeita Angela Amin, no final da década de 1990, com a favela da Via Expressa da BR-282, uma das maiores vergonhas que Florianópolis já teve. Angela buscou financiamento internacional para garantir moradia digna àqueles que ocupavam as margens da estrada.

A fila

Como o problema vem sendo tratado nos últimos 10 anos pelo poder público, tanto prefeitura quanto governo do Estado? Com “meia dúzia” de casinhas populares por ano, por causa de todas as dificuldades que o advogado Eduardo Bastos observou aqui na coluna de sexta-feira (18), em especial a escassez de recursos. E a fila por moradia digna só aumenta. 

Ladeira abaixo

Oitenta e uma das 295 cidades catarinenses “encolheram” entre 2000 e 2010, conforme levantamento do Censo Demográfico do IBGE. E tem gente ainda querendo criar novos municípios, só para piorar os indicadores sociais. No Brasil, 21% das cidades tiveram decréscimo populacional no período, motivado em geral pelas migrações internas. A “litoralização” é um fenômeno crescente e preocupante.

Vida louca

Um relato impressionante do comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar, tenente-coronel Araújo Gomes: há dias, um gringo foi preso no Centro duas vezes em menos de 24 horas, pelo mesmo tipo de crime – arrombamento de lojas. Ganhou a liberdade e não deu outra: voltou a atacar estabelecimentos comerciais e foi para a cadeia de novo.

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“A presença policial perde o efeito preventivo quando o ladrão descobre, pela própria experiência, que a possível ação repressiva que ela (polícia) representa é inócua. Ele faz o balanço e percebe que vale arriscar”, assinala o comandante.

Babilônia

O centro de Florianópolis, em especial o calçadão das ruas Felipe Schmidt e Conselheiro Mafra, está transformado num verdadeiro mafuá. No sábado (19), perdi a conta de quantos ambulantes vendiam toda sorte de muamba, eram dezenas, talvez centenas. E as lojas populares, desesperadas para vender, colocaram, ao mesmo tempo, sistemas de som no meio das ruas para divulgar ofertas. Resultado: impraticável conversar ou caminhar na região. É o horror dos horrores, a nossa Babilônia urbana.

Sem lei

Interessante, sobre poluição sonora, é que existem dispositivos na legislação municipal que proíbem a publicidade informal com a utilização de caixas de som, música ou locutores. O que houve no sábado, no calçadão, foi a demonstração, mais uma vez, da total falta de autoridade do poder público no controle de coisas básicas, como ambulantes ilegais e propagandistas inconvenientes.

Maçã amarga

E quem diria que a maçã catarinense tem um valor agregado tão amargo? A impressionante reportagem de Edson Rosa e Marco Santiago, no ND do fim de semana, revela a precariedade social a que estão submetidos idosos e índios, com a suspeita de escravidão (ou, metaforicamente, “regime de trabalho análogo à escravidão”). Quanta tristeza envolvendo um produto tão belo e saboroso.

Profissão: síndico

Historinha divulgada nas redes sociais por um amigo roqueiro que é síndico de seu prédio: “Moradora reclama do apartamento de cima que faz muito barulho, onde mora uma estudante, que faz festinhas com as amigas, bebedeira e barulho. Aí peço para chamar a estudante, para dar aquele recado, quando ela chega, uma moça cheia dos piercings e vê o síndico usando uma camiseta da turnê de 78 dos Rolling Stones, a primeira coisa que ela pensa: ‘Meu, que maneira essa sua camiseta!’”.

Desabafo

“Momento péssimo do feriadão. Fazendo declaração do Imposto de Renda. Um roubo! E ainda tem que pagar tudo privado: educação, saúde, segurança, pedágio etc”. Desabafo do engenheiro agrônomo Jorge Dotti Cesa, nas redes sociais.

Carlos Damião/ND

Performance

Grupo de teatro Ouse aproveitou o movimento do sábado de Aleluia para mostrar sua arte contestadora no calçadão da Rua Felipe Schmidt. No meio da zoeira comercial, ficou difícil para a maioria entender o propósito da performance. Mas que não se negue ou questione o valor da intervenção artística: o teatro de rua vem se destacando cada vez mais em Florianópolis.

Leandro Martins/Divulgação/ND

Aprendizado

A 13ª Mostra de Dança de Salão de Florianópolis – Baila Floripa termina nesta segunda (21). A agenda do último dia inclui 14 workshops de diversos ritmos, concurso de duplas e baile de encerramento. Tudo no hotel Majestic. No total, desde sexta (18), são 59 workshops, cada vez mais prestigiados. 

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