Aldeia de Araquari não comemora o Dia do Índio, se mantém com artesanato e aposta na educação

Comunidade conta com 112 famílias, sendo 50 crianças, quase a metade, um crescimento populacional que também está ocorrendo em todo o país

Luciano Moraes

Cacique Ronaldo mostra os artesanatos produzidos na Aldeia Tiaraju

Dia do Índio para quem? Segundo o cacique da aldeia Tiaraju, Ronaldo Costa, esta data não foi inventada pelo povo indígena, portanto, não costuma ser comemorada. Data celebrada pela comunidade é a colheita de erva-mate, que não se planta mais nesta região. “Vem índios de outras aldeias e a gente faz o batismo da erva. São dois dias de festa”, conta.
A Aldeia Tiaraju é uma comunidade de índios guaranis e fica às margens da BR-280,em Araquari. Segundo o cacique, 23 famílias, 112 pessoas, habitam o local. Ronaldo acha que a aldeia é pequena. “Conheci uma em São Paulo que tem 120 famílias. Mas a população de índios tá aumentando”, diz.
Cacique Ronaldo tem razão. Segundo o Censo Indígena do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010, 817.963 cidadãos se autodeclararam indígenas. Em 2000, eram 734.127, um aumento de 11,4%. Em 1991, havia apenas 294.131 indígenas. Segundo o IBGE, o crescimento populacional entre índios se deu não só em função das altas taxas de fecundidade, mas principalmente por um processo conhecido como “etnogênese” ou “reetinização”. Neste caso, indígenas voltaram a assumir suas origens, já que, por muito tempo, foram forçados a negarem suas identidades, seja por motivos políticos, econômicos ou religiosos.
Prova deste crescimento é a quantidade de crianças que circulam pela Aldeia Tiaraju. O cacique conta que há cerca de 50 pequenos. Ou seja, representam quase metade da comunidade. A Escola Estadual Indígena Cacique Wera Pukú fica dentro da aldeia. As crianças têm aulas com professores indígenas e não indígenas. Mônica Carvalho leciona para 11 alunos de 4a e 5a séries, no período vespertino. Ela explica que as turmas são multisseriadas e que no horário matutino existe uma classe de 1a, 2a e 3a séries.
O artesanato é de onde os índios tiram a maior parte do sustento da aldeia. “As pessoas de fora pensam que a gente não trabalha, mas a gente trabalha”, ressalta o cacique. Esculturas talhadas em madeira, colares e cestos são produzidos pelos integrantes da aldeia. Durante a semana, as mulheres vão até Jaraguá do Sul para vender as peças. A comunidade também planta milho, mandioca e batata-doce. Para o cacique, muitas pessoas desconhecem a existência da aldeia. “Tem gente que mora aqui perto de Joinville e acha que só tem índio no Amazonas”, afirma.
O desejo dele é que mais pessoas conheçam a cultura indígena, a aldeia e os trabalhos realizados por eles. “Se vier com preconceito, é melhor nem vir”, declara. O telefone de Ronaldo é 9245-7920.

Amparo aquém da Lei de 1988

Clóvis Bringheti é historiador e membro do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), órgão ligado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Bringheti conhece a população indígena do Norte do Estado desde 1988. Segundo ele, a situação destas comunidades guaranis é semelhante à de outras por todo o país. Ele conta que o espaço em que essas comunidades vivem é muito menor do que há 50 anos. “Com a agricultura mecanizada e com a destruição de recursos naturais, o território Guarani foi reduzido”, afirma. Segundo ele, este é o motivo de índios não conseguirem produzir alimentos para o seu sustento.
De acordo com o historiador, mesmo que a Constituição Federal de 1988 tenha garantido o direito desses povos, há ainda muito por fazer. A Funai (Fundação Nacional dos Índios), órgão criado em 1967 para a execução das políticas indigenistas, segundo Bringheti, está refém de uma política desenvolvimentista do governo federal e não consegue defender, efetivamente, esses povos. “Eles têm poucos recursos, o que vem diminuindo a presença da Funai. O órgão precisa de reestruturação”, conclui. A reportagem de ND entrou em contato com representantes da Funai no Estado, mas não obteve respostas.

Luciano Moraes

Professora Mônica Carvalho e alunos da Escola Indígena Wera Pukú

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