Além das placas: Conheça a história de três mulheres que dão nome a ruas de Florianópolis

Atualizado

As ruas da cidade contam histórias. As placas azuis com letras brancas, que os moradores de Florianópolis costumam esbarrar na correria do dia a dia, revelam fatos e personagens que marcaram a história da cidade, do Estado ou até mesmo do país.

O ND selecionou as ruas Delminda Silveira, Madre Benvenuta e Vera Linhares de Andrade e descortinou a história por trás das placas.

Rua Delminda Silveira, no bairro Agronômica – Foto: Anderson Coelho/ND

A tecnologia trouxe para a rotina o GPS. Difícil quem nunca tenha escutado a voz robótica guiando o caminho a ser seguido. “Vire à esquerda na rua Delminda Silveira; siga por 400 metros; você chegou ao seu destino.”

Delminda, quem?

Dona Marly Kruger, 80 anos, é moradora da rua Delminda Silveira, uma das mais importantes vias do bairro Agronômica. A aposentada, natural de Pomerode, recebeu a equipe do ND no portão da casa onde mora há 44 anos.

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A residência é uma das poucas de um pavimento que restam na rua, hoje, tomada por prédios e comércios. Ela confessa desconhecer a história da mulher que dá nome ao logradouro. No entanto, na memória, dona Marly guarda as lembranças do que antes foi uma região pouco habitada.

“Eram todas casas de família. A rua era de chão batido. Conheci o seu Horácio, que dá nome ao morro. Comprava as minhas coisas na venda dele. A gente costumava conversar, ‘se dava’ com os vizinhos. Agora, nem sei quem são meus vizinhos”, brinca a dona de casa.

Dona Marly Kruger, moradora da rua Delminda Silveira há 44 anos – Foto: Anderson Coelho/ND

O comerciante Luciano Baron Zimmer, de 49 anos, não sabe quem foi Delminda Silveira, mas fala com orgulho de Paulo Zimmer.  O avô de Luciano dá nome a uma via transversal à rua Rui Barbosa, continuação da Delminda Silveira, no sentido bairro-Centro.

A família Zimmer, segundo Luciano, mora no bairro há mais de 70 anos. A rua foi batizada como uma homenagem à família e ao avô, figura conhecida na região.

Destaque na Literatura

Professora, teatróloga, escritora e primeira mulher a ocupar a cadeira 10 da Academia Catarinense de Letras, aos 66 anos. Delminda Silveira nasceu em uma família tradicional de Florianópolis, quando ainda era Desterro, em 27 de janeiro de 1856 e morreu em 1932, aos 76 anos.

Delminda estudou francês, latim, português e, aperfeiçoando-se nessas línguas, atuou como professora no Colégio Feminino Coração de Jesus, escola tradicional católica, frequentada pelas filhas das famílias burguesas de Florianópolis. Publicou poesias em jornais e revistas, sob o pseudônimo “Brasília Silva”. Foi profundamente religiosa e essa religiosidade transparece em todos os seus poemas.

Ela também fez parte do pequeno grupo de mulheres que integravam o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. É autora de livros como A Poesia (1895), Luzes e Martírios (1908) e Cancioneiro (1914), adotado oficialmente em todas as escolas do Estado, por decreto do então governador Vidal Ramos. É patrona da cadeira nº 3 da Academia Catarinense de Letras.

Avenida Madre Benvenuta, antiga rua da Gruta

Como diz a tradicional expressão manezinha, saindo da rua Delminda Silveira “segue reto toda a vida” pela rua Lauro Linhares, vire à esquerda na rótula e chegue ao próximo destino: Avenida Madre Benvenuta.

A rua adotou oficialmente o nome da religiosa no dia 21 de maio de 1957, por meio do projeto de lei nº 124, de autoria do vereador Haroldo Vilela.

Avenida Madre Benvenuta. À esquerda, está localizado o Convento das Irmãs da Divina Providência – Foto: Anderson Coelho/ND

Na época, a rua consistia no trecho que vai do trevo da Lauro Linhares até o Convento das Irmãs da Divina Providência. Em 1986, a denominação foi ampliada até a rodovia SC-404, no bairro Itacorubi, passando pelo bairro Santa Mônica, ganhando ares de avenida.

O imponente Convento, localizado em um amplo terreno na esquina da Madre Benvenuta com a avenida Professor Henrique da Silva Fontes, é uma “pista” dos motivos que levaram à adoção do nome.

Conforme Reinaldo Lindolfo Lohn, professor de História da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), a urbanização da avenida Madre Benvenuta acontece por volta da década de 1960 e está ligada à Sociedade da Divina Providência.

No fim da década de 1940, a congregação que administrava a Gruta e o Convento adquiriu terrenos na região que, mais tarde, seriam loteados. Madre Benvenuta teria sido quem coordenou a compra dessas terras que dariam origem ao bairro Santa Mônica.

Nascido e criado

“Sou o único sobrevivente da rua”, brinca Luiz Carlos Ferreira, de 73 anos. O idoso que nasceu, cresceu e mora até hoje na avenida Madre Benvenuta, conta que uma parte dos terrenos da região foram adquiridos pelos avós quando ainda se chamava rua da Gruta.

O nome faz referência à gruta Nossa Senhora de Lourdes, construída em 1913, do outro lado da rua, em frente ao Convento.

O comerciante relembra que, durante a infância, a rua passou por diversos nomes, como rua da Gruta, das Freiras, do Paula Ramos, das Camarinhas.

“Depois de muito tempo que apareceu uma placa com o nome de Madre Benvenuta, mas nessa época não sabíamos quem era ela”, conta seu Luiz.

Seu Luiz Carlos Ferreira e a esposa, Odete Ferreira posam na varanda de casa, na avenida Madre Benvenuta – Foto: Anderson Coelho/ND

“A gente brincava de bolinha de gude, taco, fazia corrida de cavalo, corria atrás do boi, ia à missa. Havia um portão entre a Gruta e o Convento, que dividia a região e quando queríamos pegar lenha, tínhamos que pedir permissão às freiras para passar para o outro lado”, relembra o comerciante.

Um dos momentos mais marcantes, conforme seu Luiz, foi quando o Papa João Paulo 2º passou pela avenida Madre Benvenuta em sua visita a Florianópolis em 1991.

Noviça vem ao Brasil

Para conhecer a história de Madre Benvenuta, o ND visitou o Convento das Irmãs da Divina Providência. A Irmã Enedir Marchi, 65 anos, e a Irmã Enedina Sacheti, 80 anos, contam que a religiosa, nascida na Alemanha em 1876, veio ao Brasil aos 21 anos, ainda noviça.

Foi uma das fundadoras do Colégio Coração de Jesus, em 1898, onde trabalhou como professora. De 1911 a 1916, foi Superiora no município de Laguna.

Atuou também em Tubarão, no Sul de Santa Catarina, dedicando boa parte da vida à instrução e educação de jovens, além de obras de caridade.

Por conta da diabetes, do trabalho constante e das viagens, Madre Benvenuta teria ficado com a saúde fragilizada, vindo a falecer em 8 de outubro de 1949, aos 73 anos.

Retrato de Madre Benvenuta no Convento das Irmãs da Divina Providência – Foto: Anderson Coelho/ND

“A sua morte mostrou quanto Madre Benvenuta era estimada, não só por suas Irmãs, mas também pelas famílias florianopolitanas e inúmeras outras do seu vasto campo de atividades. Justo, será, pois, que se reverencie a sua memória, pelos relevantes serviços prestados à humanidade, dando-se o seu nome a uma das ruas da nossa cidade”, diz o projeto de lei do vereador Haroldo Vilela.

Destino final: Vera Linhares de Andrade

Seguindo toda a extensão da avenida Madre Benvenuta até o bairro Itacorubi, acesse a SC-404, rodovia Admar Gonzaga. Antes da subida do morro da Lagoa da Conceição, vire à direita. O destino final é a rua Vera Linhares de Andrade.

É nessa rua, em casas próximas, que moram mãe e filha. Maria Nadir Cordeiro, 73 anos, e Neuza Maria Cordeiro Mariano, 54 anos, foram testemunhas da urbanização do que antes era região de mata.

Dona Maria Nadir conta que os pais saíram de Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, e adquiriram uma casa na esquina entre a rua Vera Linhares de Andrade e a subida do morro da Lagoa da Conceição.

Rua Vera Linhares de Andrade, no bairro Córrego Grande – Foto: Anderson Coelho/ND

“Herdei a pequena venda que meu pai montou na rua. Na época era estrada de chão. Quando começaram a construir uma das primeiras casas do que hoje é o Parque São Jorge, na rua dos Bambus, lembro que o proprietário vinha, saltava de ônibus aqui na rua e calçava botas, por causa da lama”, conta dona Maria Nadir.

A filha, Neuza Mariano, passou a vida no mesmo endereço, apenas o número da casa mudou. Hoje, habita uma casa datada de 1924, uma das primeiras da rua, herança deixada pela sogra.

“Era tudo verde. Havia poucas casas e eram afastadas. O bairro cresceu e ficou mais movimentado, principalmente, com as universidades”, relata Neuza.

Verinha, a estudante

Foi em uma universidade da Capital, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), que Vera Linhares de Andrade se destacou pela defesa da causa estudantil.

Segundo o projeto de lei nº 2.695, de 1984, de autoria do vereador Sérgio Grando, Vera Linhares de Andrade nasceu em Florianópolis, no dia 9 de dezembro de 1949 e morreu no dia 14 de junho de 1973, aos 23 anos. O documento não revelou a causa da morte.

Neuza Maria Cordeiro Mariano, moradora da rua Vera Linhares de Andrade, em frente à casa que data de 1924 – Foto: Anderson Coelho/ND

A jovem estudante de Ciências Sociais foi presidente do Diretório Acadêmico Oito de Setembro e também uma das fundadoras do Cine Clube Catarinense Estudantil.

No período de sua morte, exercia a vice-presidência de cultura do DACEB (Diretório Acadêmico do Centro de Estudos Básicos), onde organizou uma campanha de leitura e ampliou a Biblioteca Cultural. Obteve o 1º lugar no vestibular de 1973 da UFSC, na área de Ciências Humanas e Sociais.

De acordo com os documentos do projeto de lei, Vera também teria sido redatora do jornal acadêmico O Cebiano, censurado durante a Ditadura Civil-Militar, pelo tom esquerdista.

Verinha, como era chamada, gostava de Chico Buarque, tocava violão e compunha canções. Fez parte do Coral da UFSC e participou de dois festivais de música em Florianópolis e do 1º Concurso de Músicas Carnavalescas.

Em um dos documentos anexados no projeto de lei, há um trecho que diz: “Vera Linhares de Andrade nos deixa, mas a sua ânsia de justiça, o seu amor à Liberdade, sempre serão buscados por aqueles que lutam”.

O trecho da estrada geral do Córrego Grande que ficou denominado como rua Vera Linhares de Andrade, parte da rua Maestro Aldo Krieger até a SC-404, que leva à Lagoa da Conceição.

Requisitos para nomear ruas

Datilografado, o projeto de lei nº 112, de maio de 1957, que está nos arquivos da Câmara de Vereadores de Florianópolis, já regulava a denominação dos logradouros da cidade.

Mais recente, a lei municipal número 5.273, de 1998, dispõe sobre a denominação de logradouros públicos de Florianópolis. Para nominar ou trocar o nome de uma via, é preciso um abaixo assinado dos respectivos moradores e/ou ata de assembléia de associação de moradores ou conselho comunitário local. É preciso, também, apresentar croquis de localização.

Pessoas vivas não podem ser homenageadas com nomes de ruas. A certidão de óbito e uma biografia, exceto se for muito conhecida, devem ser anexadas ao projeto de lei.

Em caso de nome fantasia, os moradores devem apresentar argumentos que justifiquem a nominação. É proibido que duas ruas tenham o mesmo nome.

Relação com a Penitenciária

De acordo com o professor Reinaldo Lohn, a urbanização da região da rua Delminda Silveira tem relação com a inauguração da Penitenciária de Florianópolis em 1930.

A partir desse período, a localidade chamada Pedra Grande começa a ser habitada por camadas populares, formadas pelos familiares dos detentos, vindos, principalmente, do interior do Estado.

Segundo o professor, o que era uma região isolada, com a presença da penitenciária, um hospital para tuberculosos – Hospital Nereu Ramos – e uma estação para estudos de agricultura, se torna, aos poucos, um local de moradia. Mais tarde, será criada uma malha urbana que irá se conectar ao Centro da cidade.

Regiões ligadas à Igreja

O professor Reinaldo Lohn explica que a urbanização da avenida Madre Benvenuta e da rua Vera Linhares de Andrade estão ligadas à Igreja.

O Córrego Grande, nas décadas de 1960 e 1970 era uma extensão sociocultural da Lagoa da Conceição, com características de área rural e considerada o “interior” da Ilha. A pavimentação da Rua Vera Linhares foi inaugurada somente em 1992.

Avenida Madre Benvenuta na década de 1960 – Foto: Anderson Coelho/ND

“Assim como a Madre Benvenuta, as terras da região do Córrego Grande também pertenciam a uma instituição religiosa, só que dos jesuítas, ligados ao Colégio Catarinense. A partir dos anos 1970, com o surgimento da UFSC, a área começa a ser urbanizada, dando origem ao Jardim Anchieta”, diz o professor.

Além das placas: Conheça a história de três mulheres que dão nome a ruas de Florianópolis

Avenida Madre Benvenuta. A rua adotou oficialmente o nome da religiosa no dia 21 de maio de 1957, por meio do projeto de lei nº 124, de autoria do vereador Haroldo Vilela - Anderson Coelho/ND

Avenida Madre Benvenuta. A rua adotou oficialmente o nome da religiosa no dia 21 de maio de 1957, por meio do projeto de lei nº 124, de autoria do vereador Haroldo Vilela - Anderson Coelho/ND

Convento das Irmãs da Divina Providência - Anderson Coelho/ND

Convento das Irmãs da Divina Providência - Anderson Coelho/ND

Gruta Nossa Senhora de Lourdes, inaugurada em 1913. Avenida Madre Benvenuta era conhecida como rua da Gruta, até a década de 1950 - Anderson Coelho/ND

Gruta Nossa Senhora de Lourdes, inaugurada em 1913. Avenida Madre Benvenuta era conhecida como rua da Gruta, até a década de 1950 - Anderson Coelho/ND

Irmã Enedir Marchi e Irmã Enedina Sacheti, membras da Congregação da Divina Providência - Anderson Coelho/ND

Irmã Enedir Marchi e Irmã Enedina Sacheti, membras da Congregação da Divina Providência - Anderson Coelho/ND

Fotografia da avenida Madre Benvenuta. Embaixo, à esquerda, o Convento - Anderson Coelho/ND

Fotografia da avenida Madre Benvenuta. Embaixo, à esquerda, o Convento - Anderson Coelho/ND

De acordo com o professor Reinaldo Lohn, a urbanização da região da rua Delminda Silveira tem relação com a inauguração da Penitenciária de Florianópolis em 1930. - Anderson Coelho/ND

De acordo com o professor Reinaldo Lohn, a urbanização da região da rua Delminda Silveira tem relação com a inauguração da Penitenciária de Florianópolis em 1930. - Anderson Coelho/ND

Placa que marca a inauguração da pavimentação asfáltica da rua Vera Linhares de Andrade - Anderson Coelho/ND

Placa que marca a inauguração da pavimentação asfáltica da rua Vera Linhares de Andrade - Anderson Coelho/ND

Rua Vera Linhares de Andrade. O Córrego Grande, nas décadas de 1960 e 1970 era uma extensão sociocultural da Lagoa da Conceição, com características de área rural e considerada o

Rua Vera Linhares de Andrade. O Córrego Grande, nas décadas de 1960 e 1970 era uma extensão sociocultural da Lagoa da Conceição, com características de área rural e considerada o "interior" da Ilha - Anderson Coelho/ND

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