Amor desperdiçado

Pode ir embora. Eu nem queria mesmo viver o resto de minha vida inteira ao seu lado. Não precisa mais voltar. Eu nem queria mesmo te reencontrar no saguão do aeroporto no final da tarde de uma quinta-feira. Saia e não diga nada. Eu nem queria mesmo ouvir tua voz como se fosse a última vez, como foram todas as últimas vezes anteriores. Faça o que precisa ser feito. Eu nem queria mesmo te ver sorrir como naquelas brincadeiras de falsas despedidas. Não há o que lamentar. Eu nem queria mesmo qualquer gratidão. 

Pode ir embora. Eu te olharei como uma luz que vai se apagando sobre o palco após a encenação, um fade out antes dos créditos num filme oitentista, um pôr-do-sol lento e flácido, apesar de televisivo. Seguirei os teus passos com os olhos calmos, analisando por tuas sombras cruas se há desespero ou felicidade no teu ritmo. Talvez eu possa piscar, mas não veja isso, caso perceba, como fraqueza. Pense que estarei apenas limpando minhas janelas para ver melhor o futuro desta varanda que já foi nossa. Caso não perceba, pense que não pisquei e que não perdi nenhum instante da tua derradeira distância de mim. 

Eu não queria mesmo ter que me despedir. Usar aquelas palavras difíceis guardadas no fundo da gaveta do meio. Embrulhar as verdades ignoradas em promessas desconhecidas. Relembrar as primeiras cartas. Tentar segurar o choro, já chorando. Tentar não levantar as mãos, já levantando. Querer o beijo como se fosse mais um, não sendo. Querer o abraço como se tivesse qualquer outro, não tendo. Querer parar o tempo, já se atrasando. Ter a última conversa, desconversando. 

Não precisa mais voltar. E nem olhar para trás. Esse vento, que vai na tua frente, leva tudo o que sabe sobre o passado. Do nosso e dos outros. Só é preciso parar quando se quiser ouvir as respostas das lembranças. As reais e as inventadas – necessário não confundir. Saia e não diga nada, muito menos fale que foi Deus quem quis assim. Se sequer conhece tuas vontades, não queira adivinhar as divinas. Faça do silêncio tua oração. Mesmo que tua reza seja profana, seja pura ao profanar, emudecendo as palavras que amaldiçoam. 

Não há o que lamentar. Eu nem poderia me dar a esse luxo de desperdiçar lágrimas. Elas bem mais me servirão na hora da dor – daquela dor que graniza a retina. Eu só planejava caminhar contigo nas bordas do vale, alcançando os descampados das montanhas, e passear pelos rochedos entre uma praia e outra até descobrir nosso porto íntimo. Não era um plano de fim de semana, era nossa vida toda. E agora resta fazer o que precisa ser feito. Veja, já é outono. Eu nem queria mesmo colher flores para você.

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