Aos 70 anos, Olegário Bernardo lembra dos tempos em que Florianópolis era recanto sem pressa

Alexandro Albornoz

Olegário Bernardo vive na Costeira do Pirajubaé, no Sul da Ilha

Ele trabalhou mais de 30 anos na polícia, salvou vidas como bombeiro e viu as mudanças que transformaram a Costeira do Pirajubaé, antes um bairro acanhado, numa das áreas mais movimentadas de Florianópolis. Hoje, aos 70 anos, Olegário Bernardo acorda e pode divisar, da janela do quarto, a vista da baía Sul e do Cambirela, no Continente, ainda bela e recortada pelo azul do céu e do mar. Nem as construções que surgiram, a Via Expressa agitada e o burburinho que a expansão provocou num lugar que já foi uma espécie de horta da cidade tiram o encanto do visual que o aposentado tem de sua casa na rua íngreme que leva o nome de sua mãe – Ana Bernardo.

Conversar com esse ilhéu típico é perceber o quanto se prezava, no passado, a vida sem pressa de uma cidade que se tornou cosmopolita e abriu o flanco para a impessoalidade de nossos dias. A comunidade de Carianos, onde nasceu, e a Costeira, onde estão alguns dos irmãos e sobrinhos, perderam a inocência e a segurança de outros tempos. Nas horas de folga da vida de militar, seu Olegário saía para o mar, atrás dos peixes que complementavam a ração doméstica. E havia o futebol, os bailes, os namoricos, os bares onde os amigos bebiam sem medo. Hoje, para onde se olhe, há o receio, há o tráfico, há o trânsito alucinado das avenidas que ligam o Centro ao Sul da Ilha.

“A pesca era mais um passatempo, saíamos de canoinha a remo para pegar camarão, tainhotes e paratis”, conta Olegário. Gozador e brincalhão, ele diz que muitos pescadores já se foram, outros mudaram de ramo com a precariedade de peixes, outros se aposentaram e jogam dominó num boteco ao lado do supermercado Bistek, vizinho recente dos moradores do bairro.

Sempre se referindo à infantaria e aos anos de bombeiro, Olegário tem orgulho de pertencer a uma família de militares. Tem um irmão que é coronel aposentado, um filho que é major na ativa e um cunhado que passou para a reserva como sargento. “Na época, não existia muito serviço, e a carreira militar era a forma de entrar numa profissão”, confessa.

A camisa que valeu uma vida

Olegário Bernardo saiu de Florianópolis para tentar a vida em Curitiba, na virada da década de 50 para 60, aos 19 anos. Voltou para entrar na polícia, e foi garçom, dentro e fora da corporação, durante um bom tempo. Os melhores dias foram na busca e salvamento, socorrendo pessoas em situações críticas. Lembra de ter resgatado uma moça do Paraná que escapou por pouco de se afogar em Balneário Camboriú. Quando estava segura, ela disse: “Sua camisa eu não vou entregar”. Não era apenas para se tapar, era para guardar uma recordação do soldado que salvara sua vida. O comandante, na época, não fez objeção, porque aquele gesto engrandecia a corporação.

Se perdeu a mãe cedo, é do pai, que morreu há três anos, que Olegário sente mais saudade, a ponto de ficar com a voz embargada quando começa a falar dele. Também lamenta que um AVC (acidente vascular cerebral) que o acometeu há um mês o venha impedindo de dirigir o primeiro carro zero quilômetro que comprou na vida, mesmo sem apresentar grandes sequelas. “Meu braço direito e meus olhos ficaram um pouco prejudicados, mas a família e os médicos me proíbem de sair dirigindo”, se queixa. Tomando os remédios prescritos, tem a esperança de retomar a vida normal em pouco tempo.

Fortes laços familiares

Os laços familiares estão em todas nas falas do militar aposentado. A irmã mora ao lado, o filho faz visitas regulares, a filha pedagoga está sempre presente. É a união que vem de longe e aproxima a todos desde que o pai, operário da prefeitura e pescador nas horas vagas, dava duro para criar os cinco filhos.

O que preocupa seu Olegário são as brigas no bairro, especialmente na parte do morro habitada por famílias que vêm de fora. E o lado bom? São as amizades, a boa vizinhança, afirma. Da janela onde vê o mar e as montanhas do Continente, ele fica matutando sobre o passado de brincadeiras, as folias da juventude, as pescarias – e sobre o futuro do Figueirense, o clube do coração.

Gozador, insinua que melhor que agora era quando não tinha compromissos e ia aos bailes do clube Tropical, que ficava ali perto, onde se reuniam os jovens da Costeira. Ele e a mulher Dalva também sentiram a mudança que veio com o Bistek, porque naquele espaço havia uma chácara com muitas bananas, caquis e laranjas.

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