Aos 95 anos, Alice Hillbrecht é um capítulo vivo da história de Corupá e Balneário Piçarras

A determinação e os múltiplos talentos moldaram uma mulher forte, que ainda hoje diz que cuida dos filhos, dos netos, dos bisnetos, dos trinetos...

Rogério Souza Jr./ND

Alice no aconchego de seu lar, em Balneário Piçarras, onde se dedica ao crochê e mantém a pele boa, à base de pomada Minancora, como faz questão de frisar

Alice Hillbrecht nasceu em Joinville, mas grande parte de seus 95 anos de vida foram passados em outros municípios da região, em especial Corupá e Balneário Piçarras. É no balneário, onde mora há mais de três décadas, na mesma casa numa tranquila rua que desemboca na praia das Palmeiras, que dona Alice volta os olhos ao passado e garante: “Trabalhei muito na vida, não devo nada a ninguém e até hoje cuido dos meus filhos”. Ao seu lado, Otto e Ingrid concordam (ele mudou-se de Joinville para Piçarras há cinco anos; ela mora com a mãe).

O nome Otto, por sinal, é uma característica dos Hillbrecht, desde o pioneiro Otto August Herbert, fundador de Hansa Humboldt. O imigrante alemão chegou, com o filho Otto Carl Wilhelm, em 7 de julho de 1897 à região, batizada em homenagem ao naturalista alemão Alexandre von Humboldt.

Os Hillbrecht haviam desembarcado em São Francisco, e subiram pelo rio Itapocu, único acesso até 1900. Desembarcaram na confluência dos rios Humboldt e Novo, seguiram por um picadão, hoje a avenida Getúlio Vargas, até o galpão dos imigrantes, onde foram recebidos pelo agrimensor Eduard Krisch. O galpão não passava de um rancho feito de troncos, tendo cobertura de folhas de palmito. O nome do município mudou para Corupá em 1944, na época da Segunda Guerra Mundial (mais detalhes da história podem ser conferidos no site www.corupa.sc.gov.br).

Seguiu-se Otto Richard e o último dos Ottos, antecedido pelo nome Ingbert. Ele conta uma peculiaridade: “Na juventude, quando precisava preencher alguma ficha, começava pelo meu nome, Ingbert Otto Hillbrecht; local de trabalho: Hansen; endereço: rua Gothard Kaesemodel. Era um tal de soletrar que não acabava mais”.

Reprodução/Rogério Souza Jr./ND

Alice ficou viúva muito jovem, mas não quis casar novamente, decidiu arregaçar as mangas, inovar, trabalhar e cuidar da família

Lojista, administradora, atriz, corretora…

Alice, da família Wunderlich, nasceu a 13 de outubro de 1918. Primogênita de quatro filhos, estudou no Colégio dos Santos Anjos. Trabalhou na Malharia Arp, onde o pai era gerente financeiro, e depois foi caixa na empresa de Carl Hoepke. Artista nata, foi atriz de teatro e violinista (“Puxei esse dom da minha avó”, diz uma das três netas, Henriette, perfil no dia 9 passado).

Quando se casou com Otto Richard Hillbrecht, foi morar em Corupá, onde trabalhou na loja do sogro, Otto Carl Wilhelm, aprendendo as manhas da escrituração. Demonstrando a memória ainda afiada, define sem tropeçar: “Escrituração mercantil é a arte de escriturar metodicamente as contas do comércio”. Foi correspondente bancária e abriu a primeira agência da Caixa Econômica Federal em Corupá. Mais tarde, sua experiência foi valiosa quando se tornou administradora do Hospital Jaraguá.

Da união com Otto Richard, falecido em 1957, teve os filhos Otto e Ingrid, três netos, três bisnetos e outra trinca de trinetos. “Depois que meu marido morreu, não quis saber mais de me casar, e me dediquei a cuidar dos filhos. E ainda cuido!”, garante.

Há 35 anos, Alice resolveu se fixar em Piçarras, na rua Tainha, onde a sua foi a primeira casa. Foi corretora imobiliária. “Trabalhei muitos anos vendendo casas. Ia a todos os lugares com meu Fusca 73, e testemunhei o crescimento da cidade.”

Com boa saúde, apenas a audição deficiente é o que mais atrapalha dona Alice, que mantém a expansividade e o bom-humor – ainda que às vezes se empolgue e desande a falar em alemão. Sua principal distração é o crochê, que resulta em coloridas filigranas em panos de prato. Em parte, a boa saúde tem explicação no saco plástico cheio de remédios, que ela pega de baixo da mesa e vai enumerando, até chegar à inconfundível latinha laranja e fazer uma propaganda: “Mantenho a pele boa assim, passando pomada Minancora todos os dias”.

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