Após descoberta de Covid-19 em esgotos, pesquisa mira contaminação na Lagoa da Conceição

Atualizado

Além do crime ambiental, a contaminação das águas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis, pode representar riscos de uma série de doenças para seres humanos, além de uma possível extinção da vida marinha no local.

Testes com corantes apontaram o extravasamento da rede coletora de esgoto direto para a lagoa – Foto: Divulgação/ND

Conforme relatório divulgado pelo Departamento de botânica da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), após as evidências de contaminação por esgoto doméstico no local, reveladas pelas concentrações de coliformes fecais acima do permitido, deve-se evitar até mesmo o contato secundário com a água (como práticas náuticas).

Segundo o relatório, a água pode ser veículo de doenças de transmissão fecal-oral. A presença de rotavírus, adenovírus e hepatite A já foram relatadas nas águas superficiais da grande Florianópolis, incluindo a da Lagoa da Conceição.

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A detecção do vírus SARS-CoV-2 em fezes, rios e esgoto foi relatada recentemente, levantando a hipótese de transmissão fecal-oral.

Porém, de acordo com o professor do laboratório de Ficologia da UFSC, Paulo Horta, até o momento não há estudos que comprovem a contaminação por esse meio. “O mundo inteiro está investigando. Existem trabalhos científicos, porém, ainda não são conclusivos”, explica.

“Como toda hipótese, essa [vírus em esgoto] precisa ser testada, considerando a pouca probabilidade do coronavírus sobreviver por muito tempo em águas naturais. Contudo, a precaução é necessária, devido as dezenas de casos de contaminados confirmados na bacia da Lagoa da Conceição e a carência de um sistema de saneamento eficiente”, pontua Horta.

Ainda na base da hipótese, segundo o professor, é recomendável redobrar os cuidados com a higiene pessoal. Fechar a tampa do vaso sanitário ao dar descarga, cuidados redobrados ao utilizar banheiro públicos, além de higienizar sempre as mãos. “Para aqueles que não têm água tratada, esses sim ferver a água de uso direto”, afirma.

Conforme o biólogo Marco Perotto, em águas doces onde a maior parte dos efluentes escoam, a presença de vírus e coliformes fecais costuma durar por até dois dias.

Portanto a recomendação é que se evite principalmente atividades de esporte náutico. “Como o vírus não tem uma vida própria, ele precisa de uma célula para se infectar e viver. O vírus é mais frágil, mas bactérias e outros protozoários vivem muito tempo em águas doces, há o risco de outras doenças”, alerta.

Além disso, o profissional alerta para doenças periféricas para quem tomar banho nestes locais, como infecções na pele.

Vida marinha

Segundo relatório da UFSC, a presença de peixes e crustáceos mortos reforçam uma das consequências das baixas concentrações de oxigênio observadas nas águas do local.

Peixes e camarões foram encontrados mortos após poluição na Lagoa – Foto: UFSC/Divulgação/ND

“A presença de espécies potencialmente produtoras de toxinas enriquecendo essa escuma deve ser considerada com muita atenção, pois pode amplificar as perdas dos organismos já relatadas pela falta de oxigênio”, diz o relatório.

Perotto explica que o que deve acontecer é a seleção de algumas comunidades aquáticas com maior adaptação ao meio. “Ainda é cedo para falar sobre uma possível extinção local. A possibilidade técnica e teórica existe”, afirma.

“Toda cadeia é afetada, especialmente os filtradores como moluscos, conchas, mexilhões, e os camarões que são os grandes ‘lixeiros’. Esses animais muito filtradores não são adequados ser consumidos”, completa Perotto.

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