Após morte de Cancellier, futuro do cargo de reitor da UFSC será discutido internamente

Ao longo de 56 anos de história, a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) teve 12 reitores. Primeiro a ocupar o cargo, João David Ferreira Lima ficou à frente da universidade de 1961 a 1972. Os dez reitores que assumiram posteriormente ficaram, cada um, quatro anos no cargo. Com a morte de Luiz Carlos Cancellier de Olivo, esta é a primeira vez que um reitor não completa o mandato na UFSC.

Cancellier tomou posse em maio de 2016 e ocuparia o cargo até 2020. Eleita como vice-reitora na chapa de Cancellier, a professora Alacoque Lorenzini Erdmann é reitora em exercício desde o dia 18 de setembro, quando voltou de viagem internacional, quatro dias após Cancellier ser afastado do cargo durante a Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal deflagrada no dia 14 de setembro.

Faixa em frente ao Centro de Cultura e Eventos da UFSC - Marco Santiago/ ND
Faixa em frente ao Centro de Cultura e Eventos da UFSC – Marco Santiago/ ND

Graduada em enfermagem pela Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 1971, e em desenho plástico, na mesma universidade, em 1975, Alacoque é especialista em enfermagem do trabalho e em administração hospitalar, além de mestre em ciências da enfermagem e doutora em filosofia da enfermagem pela UFSC. Ela atua há mais de 40 anos dentro da universidade catarinense.

De acordo com Aureo Mafra Moraes, chefe de gabinete da UFSC, ainda não há definição se Alacoque ficará no cargo ou não. “Isso ainda será discutido. Por enquanto, ela está respondendo plenamente pelas funções”, afirmou.

Alacoque pode ficar no cargo e terminar o mandato até 2020 ou, se decidir por não terminá-lo e renunciar, uma nova eleição deve ocorrer para a reitoria. De acordo com o artigo 42 do estatuto da UFSC, no caso de “vacância dos cargos de reitor e vice-reitor, serão organizadas novas eleições no prazo máximo de 60 dias após a abertura da vaga, e os mandatos dos dirigentes que vierem a ser nomeados serão de quatro anos”.

UFSC volta a funcionar nesta sexta

Após três dias de luto pela memória de Luiz Carlos Cancellier, a universidade volta a funcionar completamente nesta sexta-feira (6). Nesta quinta-feira (5), alguns centros acadêmicos e de estudos chegaram a funcionar normalmente, enquanto outros decidiram por paralisar as atividades. A biblioteca universitária e as salas de estudos estavam fechadas.

O Centro de Cultura e Eventos recebeu um Fórum de Núcleo de Estudos da Terceira Idade. Na entrada do centro, uma enorme faixa escrito “Luto” ocupava a fachada do prédio.

Por iniciativa da Pastoral Universitária, um grupo de estudantes deve realizar uma missa em homenagem a Cancellier neste domingo, às 11h, no templo ecumênico da UFSC. O Centro de Ciências da Saúde também prevê uma programação, com aula coletiva no hall das salas de aula, em data a ser definida, para esclarecer e debater as burocracias dos processos de investigação que aconteceram e sobre a situação atual para que os estudantes entendam o contexto dos atos. Também está prevista a colocação de faixas pretas em forma de luto nos prédios dos centros acadêmicos.

UFSC - Marco Santiago/ ND
Atividades serão retomadas na UFSC nesta sexta-feira (6) – Marco Santiago/ ND

“Vítima de perseguição judicial”, dizem senadores

As reações de instituições à morte de Luiz Carlos Cancellier têm repercutido pelo país. Por meio de requerimento assinado por 21 senadores de diferentes partidos, incluindo os catarinenses Dário Berger (PMDB) e Paulo Bauer (PSDB), o Senado solicitou que fosse inserido em ata um voto de pesar pela morte de Cancellier. De acordo com o documento, feito pelo gabinete da senadora Fátima Bezerra (PT), o reitor foi vítima de “perseguição judicial injustificada e atentatória contra os direitos humanos fundamentais”.

A justificativa sustenta que Cancellier suicidou-se porque não suportou a humilhação e a execração pública e que, ao invés de intimá-lo a depor, os responsáveis pela investigação “preferiram prendê-lo e humilhá-lo publicamente, numa demonstração aberrante de total desconsideração ao princípio da presunção da inocência”. Entre os que assinaram o requerimento estão Renan Calheiros (PMDB), Romero Jucá (PMDB), Fernando Collor (PTC) e Gleisi Hoffmann (PT).

Ontem, a Apufsc-Sindical (Diretoria do Sindicato dos Professores das Universidades Federais) afirmou que a morte de Cancellier demonstra que “excessos, truculências e exposição desnecessária aconteceram de maneira absolutamente questionável”. “O princípio do contraditório e a ampla defesa devem ser sempre respeitados, a restrição de liberdade tem que ser tratada com extrema cautela para evitar constrangimentos a possíveis inocentes e pré-julgamento. A presunção de inocência é uma das mais nobres garantias constitucionais”, diz a nota. O sindicato afirma ainda que a imagem da UFSC foi abalada e que esta marca ficará para sempre.

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