Aposentados ocupam tempo livre com atividades para a mente e o corpo

Cada vez mais trabalhadores se preparam para viver uma aposentadoria tranquila, com atividades de lazer e esportivas

Os aposentados de hoje não ficam mais sentados vendo a vida passar. Longe da pressão do trabalho eles têm se voltado para as atividades que lhes dão saúde física e mental. Usam o tempo livre para realizar sonhos, empreender e cuidar de si mesmos e até de outros voluntariamente. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), a expectativa de vida no Brasil chegou aos 75,2 anos em 2015, e está acima da média mundial, de 71,4 anos. A longevidade é fruto dos avanços da medicina e do estilo de vida que as pessoas adotam na fase pós-laboral. Mas para que a aposentadoria não seja um período negativo é preciso se preparar financeira e emocionalmente, alertam estudiosos da área.

Flávio Tin/ND

Luiz Pires comprou um caiaque depois que se aposentou

“As pessoas passam 30 anos ou mais fazendo as mesmas coisas e reclamando da falta de tempo livre. Ao se depararem com a nova fase da vida podem sofrer um baque”, alerta o psicólogo Ramiro Zinder, um dos palestrantes do 4º Congresso Nacional de Preparação para Aposentadoria, que será realizado em novembro, em Florianópolis. Zinder lembra que profissionais da sua área, do setor de recursos humanos e do direito buscam cada vez mais a especialização no sentido de preparar o trabalhador para o período pós-laboral. “É preciso ressignificar a vida e entender que sua identidade, seu sobrenome não são mais o da empresa à qual você trabalhava”, diz.

Conforme o psicólogo, devido ao aumento da expectativa de vida é necessário orientar o trabalhador jurídica, emocional e financeiramente para que a transição seja tranquila. O processo deve começar pelo menos cinco anos antes da aposentadoria. “Se as pessoas se aposentam aos 50, 51, elas precisam de novas ocupações para os próximos 25 anos ou mais”, aponta.

Para Zinder, é preciso abrir os olhos dos aposentados, mostrar que ter 60 anos não é ser velho e direcioná-los para práticas saudáveis como atividades físicas, empreendedorismo e a realização de metas para as quais não tinham tempo antes. O aprendizado de outro idioma e exercícios para a mente e o corpo, aliados à programação de novos hábitos ajudam a evitar isolamento social, depressão, obesidade e doenças como Alzheimer.  

Jovem demais para parar

Aos 16 anos, Célia Meinerz, 51, tinha a carteira de trabalho assinada como auxiliar de dentista. A vida laboral se estendeu até os 50 anos. Durante esse período, ela passou por sete empresas. Paralelamente, cursou biblioteconomia, fez pós-graduação em marketing e em recursos humanos. Em 2014, se aposentou, mas continuou trabalhando com gestão comercial, até dezembro de 2015, quando decidiu que era hora de empreender. “Tenho uma vida tranquila porque me preparei para isso. Eu sabia que queria uma vida diferente da que levava”, conta. O carro e o apartamento estão quitados e o pé-de-meia serve agora para viver bem e realizar o sonho de trabalhar com alimentos.  

Daniel Queiroz/ND

Célia Meinerz está aposentada, mas realizou um sonho ao trabalhar com alimentação

O costume de acordar cedo Célia mantém. Mas, ao invés de pegar o trânsito para ir trabalhar, ela segue para a academia. Após cuidar do corpo ela se dedica a misturar farinha de arroz com fécula de batata e outros ingredientes e transformá-los em bolos de laranja, de cacau, pães de mel, brownies e pãezinhos de batata doce. “Há dois anos, em razão de uma dieta, comecei a pesquisar alimentos funcionais. Ter um sobrinho intolerante à lactose também me motivou a criar novas receitas”, diz sobre os produtos que são testados durante os encontros de família, antes de serem oferecidos aos clientes.

Realizada com o novo caminho que percorre, Célia pensa em expandir os negócios e construir uma cozinha industrial. “Quero gerar emprego para aposentados”, assegura.

A próxima empreitada será o plantio de uma horta orgânica com o irmão e dentro em breve ela viajará para Portugal, para fazer um curso de culinária lusitana. “Quero chegar aos 100 anos dirigindo e viajando. Eu não sei ficar parada, aprendi isso com meus pais”, afirma.

Oportunidade para continuar aprendendo

Cleide Ronsani Sandin é técnica de atividades de Sesc (Serviço Social do Comércio), no Estreito. A instituição oferece, desde 2007, o curso idoso empreendedor, que se tornou referência nacional. Cleide lembra que a maioria dos alunos procura a atividade por conta própria ou por indicação de médicos que conhecem os programas voltados aos idosos. Segundo ela, os familiares procuram ajuda no Sesc quando já há um problema instalado. “Os aposentados não precisam se sentir excluídos. Eles devem saber que ainda podem aprender. Que são capazes de lidar com a tecnologia para se comunicarem com os netos, por exemplo”, afirma.

Além de atividades em grupo e com uso da informática, durante as aulas os estudantes percebem que é possível usar a experiência de vida em prol do empreendedorismo social. “Se uma pessoa que sai de férias por 30 dias volta esquecida e precisa de tempo até retomar o ritmo, imagine como fica a cabeça de quem se aposenta”, compara.

Exercícios para a mente e o corpo

Por meio de um exame grafotécnico ficou comprovado que Ademir Pereira começou a trabalhar aos 14 anos, registrando o livro de hóspedes, no hotel de um tio. O laudo permitiu que ele se aposentasse aos 51 anos. Mas Pereira trabalhou por mais 17 anos. Em 2015, aos 68, ele deu um basta à rotina. “Agora presto assessoria contábil quando quero”, brinca.

Daniel Queiroz/ND

Ademir Pereira frequenta dois cursos no Sesc, em busca de saúde para corpo e mente

Para ter o restante da vida com saúde ele passou a se dedicar a atividades prazerosas. Matriculou-se nos cursos idoso empreendedor e dança circular, no Sesc.

No círculo o grupo trabalha memória, concentração, lateralidade, equilíbrio e cooperação ao seguir os movimentos dos pés da professora e o girar da roda. Os olhos do aposentado marejam quando ele tenta explicar quão grande é sua satisfação com a simples atividade. “Tem um amigo que traz a mulher e fica no carro esperando a aula acabar. Não sabe o que está perdendo, por timidez”, conta Sonia Martins, 68, companheira das aulas e da vida de Pereira.

Além das atividades no Sesc, Pereira frequenta com Sonia um clube nas sextas-feiras. Entre uma e outra taça de vinho o casal dança e se diverte com amigos, das 21h às 2h, como ele faz questão de frisar. “Nas terças-feiras fico das 16h à 1h trabalhando como pedreiro. Derrubo pedras, só que de dominó”, brinca.

Contente com a vida, o aposentado salienta que se cuida porque deseja viver enquanto tiver saúde. “Nenhum ser humano merece ficar acamado. Não é digno. Por isso cada um deve ocupar a mente e o corpo”, aconselha.

Saúde recuperada passo por passo

O serviço voluntário foi o meio que Ana Luiza Oliveira, 64, encontrou para partilhar seus 28 anos de experiência como técnica de enfermagem. Ela se aposentou há cinco anos. Foi voluntária em um asilo e atualmente se dedica à Rede Feminina de Combate ao Câncer de Florianópolis. Embora nunca tenha parado de cuidar dos outros, Ana precisou cuidar de si mesma quando os medicamentos para depressão começaram a agredir seu estômago, após dez anos de uso contínuo. “Consegui me livrar dos remédios no primeiro ano de aposentadoria. Seguindo orientação da médica comecei a caminhar 30 minutos diariamente até chegar as atuais duas horas e meia”, diz, orgulhosa, porque a atividade física regulou o colesterol e a livrou do uso de qualquer medicamento.

Mas a caminhada pela avenida Beira-Mar Norte e o trabalho voluntário ainda não ocupavam todo o tempo livre da aposentada. Foi então que Ana se matriculou no curso de empreendedorismo do Sesc. Além de utilizar o computador, durante as aulas ela aprende sobre a importância de exercitar o lado esquerdo do cérebro com atividades simples, como pentear os cabelos e escovar os dentes com o outro braço ao de costume. “Quero viver e bem até os 99,9 anos e continuar viajando com meus amigos”, diz a mulher que ressignificou sua vida quando não mais precisou da carteira de trabalho assinada.

Qualificação para quem tem mais de 50 anos

A coordenadora do Neti (Núcleo de Estudos da Terceira Idade) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Jordelina Schier, diz que é preciso fomentar a educação para o envelhecimento e reconhecer que apesar das perdas é possível trabalhar as potencialidades dos idosos. “Às vezes os mais velhos não podem se tornar maratonistas, mas têm expertise para orientar alguém que possa”, diz.

Jordelina salienta que o idoso de hoje não é mais o de 30 anos atrás, que não fica mais em casa. Ela diz que muitas pessoas com mais de 60 anos retornaram ao mercado de trabalho após se aposentarem ou ainda se voltaram para a realização de projetos pessoais. O Neti tem mais de 700 alunos, com idade entre 50 e 87 anos e oferece cursos nas áreas de matemática, psicologia e memória, além de formação para contação de histórias.

Tempo livre para remar

A vida laboral de Luiz Pires, 55, começou aos 15 anos. Ele desempenhou as funções de bancário, vendedor e tesoureiro até decidir que era hora de parar, em março deste ano. “Na realidade eu não pretendia me aposentar já, mas fiquei com medo de que mudanças na previdência social me obrigassem a trabalhar por mais uns dez anos”, diz.

Pires se organizou para ocupar o tempo ocioso. Comprou um caiaque e semanalmente sai do bairro Serraria, em São José, para remar pelas calmas águas do Bom Abrigo e Itaguaçu, em Florianópolis. Para não ficar sozinho na prática esportiva ele adquiriu um caiaque para a mulher, que o acompanha nos dias de folga, nos passeios mais longos, na Lagoa da Conceição. “A mente fica limpa em meio ao som do mar e longe do barulho da cidade”, recomenda enquanto se afasta da orla a remadas.

Em terra firme, Pires ocupa o tempo cuidando da limpeza da casa e do neto Davi, 3. Os passeios com o cachorro não têm mais tempo determinado para acabar. Ao ressaltar que já fez sua parte, que tem carro e casa própria e filhos criados, Pires diz que descansará por uns tempos e talvez depois volte a trabalhar. “Rico sei que não fico mais. O que não quero é ficar sedentário”, garante o jovem aposentado.

Participe do grupo e receba as principais notícias
da Grande Florianópolis na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Notícias

Loading...