Aquecimento letal

Não tenho filhos e, portanto, não terei netos a quem legar este planeta em decomposição. Planeta que deve chegar ao ano de 2100 com temperatura média acima dos 30ºC e picos capazes de matar gente pela incapacidade de dissipar calor através do suor em vista da alta umidade do ar. Este não é um cenário apocalíptico que surge a esmo: ele foi pintado por um estudo sobre mudanças climáticas publicado na semana passada e que mereceu a análise de jornalistas especializados em questões ambientais. O que está ali pode parecer excesso de alarmismo, coisa de ONGs doidivanas, matéria de pesquisadores patrocinados por dinheiro dos gringos – mas preocupa o mais cético dos leitores de artigos científicos.

Dá para imaginar o Brasil, tradicional exportador de grãos, ver as lavouras de soja de baixo risco encolherem 81%? Nosso feijão de cada dia, rico em fibras e calorias, perderia, no pior cenário, 57% das áreas propícias para cultivo. E até o arroz, ração do grosso da população (ainda que pobre do ponto de vista alimentar), teria 13% a menos de espaço para vicejar antes de ir para a mesa das famílias.

Houve um tempo em que respondia aos interlocutores, com ares de entendido, que os homens criam as mazelas e depois correm para desfazer suas consequências, geralmente com sucesso, por conta do engenho e arte que nos mantiveram no topo da cadeia dos seres vivos por milênios a fio. Hoje, já não exibo a mesma empáfia, por perceber que os estragos podem ser maiores que a capacidade de remediá-los, independente do ganho tecnológico que a humanidade vier a acumular daqui para frente.

Extinção de abelhas, o fim de muitas plantas comestíveis, impactos enormes na biodiversidade – tudo isso passará a um segundo plano se você quiser salvar a pele e correr para um ambiente com ar condicionado. Ali, livre de uma síncope, pode sobrevir o pior: o colapso da energia porque todos buscaram o mesmo lenitivo para o mormaço, sem que haja geração hidrelétrica que dê conta de tanta demanda. Sem falar nos rios… bem, muitos deles estarão apenas na memória de quem os conheceu ainda vivos!

Vão dizer que escrevi estas linhas movido pelo catastrofismo que os novos tempos estimulam, ou que o vinho que as inspirou era de má qualidade. Talvez tenham razão, mas nem o vinho de colônia, com baixo teor de álcool, nem o apocalipse que a política nos reserva permitem uma leitura muito diversa desta que aí está.

Com a crônica pronta, vou ligar o ar para dormir tranquilo enquanto o apagão ainda é uma perspectiva remota!

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