As cartas estão na mesa

Me embaralho. Não aprendi a arquitetura dos naipes que, em seqüências, pares, ordens e conjuntos, metaforizam as coisas do coração. Não entendo de reis, rainhas, duques e damas. Plebeu que sou, procuro uma princesa, mesmo sem castelo, mesmo sem reino. Apenas com a capacidade de me ensinar os jogos palacianos. Eu estou disposto: sou paciente.

Não sei das regras. Por que não ensinam isso nas escolas? Minha professora de Física jogava truco durante as aulas. Eu, querendo entender apenas o mundo das partículas, perdi a chance. Antes fosse uma disciplina regular: Truco. Ficava apenas como observador de algo que não tinha a menor lógica (para mim). Foi divertido, pelo menos. Mas não aprendi direito nem o mundo das partículas nem o das cartas.

O baralho é um mosaico de enigmas. Eu sei o que cada carta representa. O problema são as combinações, os critérios, as misturas, as exceções às regras. Eu me perco e desentendo: são muitos jogos possíveis com as mesmas cartas. Como não gosto de fazer escolhas, eu tranco o jogo. Daí sou punido. O Amor não me convida para jogar. Fico no backstage. Quando retorno, me exponho ao ridículo. Alguns até me respeitam, mas só porque dou a entender que tenho cartas na manga.

Pode ser. A qualquer momento eu posso decifrar a matemática aleatória das cartas. Minha malandragem, porém, é muito primitiva. Sou um amador, reconheço. Um aprendiz, um neófito, um discípulo, um aspirante à Corte.

Não dá para imaginar isso de alguém que cresceu na vizinhança de um bar. Ali, nas bandas leste da cidade, aprendi a andar de bicicleta. Briguei, brinquei e trabalhei. Ali, no bar, aprendi a jogar dominó, bocha, sinuca, pebolim, fliperama. Aprendi até a cantar, ao som de um violão, numa roda de bêbados emergentes.

Por aquelas redondezas encontrei as primeiras loiras da minha vida. Mas mesmo neste ambiente propício ao vício, eu jogava entre o puro e o profano. E, mostrando minhas cartas, perdia facilmente. Nunca fiz um Royal Straight Flush, nem no amor, nem na vida e, claro, nem muito menos no pôquer. O que não tenho é muito valioso para correr o risco de perder…

Não aprendi o espírito malandro dos bons e velhos jogadores, forjado nos recônditos esfumaçados dos bares, macerado pelo gosto vulgar das bebidas baratas e marcado por palavrões já fora de moda. Eu pago caro, mas não aceito a banalidade. O amor não é banal. O amor é uma trinca no coração. Amar é um jogo de reparar estragos. O que procuro é um amor que me ensine a jogar cartas. Não estou blefando. As cartas estão na mesa. O espírito, desarmado. A boca, seca. Espero ter azar. – Azar no jogo.

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