As mulheres que planejam e renovam os espaços públicos de Florianópolis

Atualizado

Esq. para dir.: Janine Tavares, Vera Lúcia Silva, Jane Pilotto e Marina Tavares na emblemática rua Vidal Ramos, que trouxe uma mudança de paradigma e um novo cenário urbanístico na Capital – Anderson Coelho/ND

“Para vivenciar e propor intervenções de qualidade dirigidas à cidade contemporânea, é preciso perceber as suas mudanças e permanências. Urbanistas e arquitetos contribuem ao observar, pesquisar, registrar, documentar e elaborar diagnósticos que fundamentam, com responsabilidade e ética, propostas para os lugares em permanente mutação. A contribuição para a sociedade atual baseia-se, acima de tudo, nesse despertar de interesses e na necessidade de compreendermos as transformações dos espaços da cidade, processo em que há ganhos e perdas, buscando tomar decisões coerentes”, afirma Eliane Veras da Veiga, de 59 anos, arquiteta e urbanista, professora na área há 32 anos.

Eliane é também a autora do livro “Florianópolis: Memória Urbana”, que vai para a sua quarta edição e já se tornou referência para arquitetos, urbanistas, historiadores, arqueólogos, turismólogos, jornalistas, professores e para todos os que se interessam pelo tema. Segundo ela, o propósito do livro foi pesquisar sobre a cidade antiga, divulgar os valores da paisagem de referência cultural em meio à vida atual e com isso ajudar a contribuir para a elaboração de proposições ativas e modernas, buscando soluções de harmonia e continuidade. “Preservar o passado é, antes de tudo, cultivar um olhar responsável dirigido para o futuro”, destaca.

Atualmente, em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil, Eliane realiza visitas guiadas com grupos de profissionais interessados em conhecer mais sobre a história arquitetônica, urbana e estética da Capital. “As caminhadas pelo Centro Histórico contribuem para a valorização de aspectos significativos da memória e da história de Florianópolis, estimulando o debate e despertando para a participação de todos, o que faz com que mais pessoas se engajem, fomentando políticas e comportamentos responsáveis na área da cultura material e imaterial”, reflete a professora.

Para a acadêmica, o ideal é que todo professor difunda as informações e também produza conhecimento com seus alunos e colegas. Por isso, em suas aulas, Eliane sempre valorizou os percursos a pé que faz pela cidade com os seus alunos.  “A educação patrimonial, a sinalização interpretativa, o restauro e a conservação preventiva, bem como as ações voltadas para a acessibilidade, contribuem para o despertar da afetividade e do interesse das pessoas pelos cenários de qualidade histórica, simbólica e plástica em que a vida acontece”, explica.

Renovação de gerações e o zelo pelas cidades

Esq. para dir: Laís Cezar, Vera Lucia Silva e Janine Tavares, encontro de gerações de arquitetas e a renovação dos espaços urbanos – Anderson Coelho/ND

Mariana Nunes Elias, de 34 anos, é formada há dez anos em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina e tem capacitação em gestão de projetos de obras de restauração e patrimônio histórico pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde o estágio, trabalha na Concrejato e, depois de efetivada, teve o desafio de comandar equipes grandes e diversas em importantes projetos de restauração e revitalização de patrimônios históricos da Capital como a Catedral Metropolitana, a Casa de Câmara e Cadeia, ambas localizadas na Praça 15, a Igreja Matriz de São José, o Teatro Adolpho Mello, no Centro Histórico de São José, a igrejinha do Ribeirão da Ilha e recentemente a igreja do Largo de São Francisco, no Centro da Capital.

“Eu acredito que as novas gerações de arquitetas e urbanistas precisam trazer os temas da atualidade para o debate, mas também devem garantir a continuidade de projetos de restauração pelas novas equipes, contribuindo, desse modo, para que o patrimônio e a história da cidade permaneçam vivos”, ressalta Mariana.

Laís César, de 26 anos, é recém-formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina, mas, desde que foi estagiária na Prefeitura Municipal de São José, os seus chefes lhe deram bastante liberdade de criação e desenvolvimento nos projetos das praças públicas da região. Ao todo, a jovem executou três praças, desde a elaboração do projeto até o acompanhamento na obra, sendo elas: a praça Picadas do Sul, a praça da Paz, localizada no bairro Bela Vista, e a praça situada em frente ao ginásio de Campinas.

Laís conta que, na praça do ginásio de Campinas, teve um grande desafio ao implantar um parque infantil em uma praça pequena, mas ela conseguiu contornar as dificuldades. “Percebi que nesse bairro havia muitos prédios, mas as crianças não tinham área de lazer ao ar livre. Então pensei, projetei e encontrei uma maneira de implantar o parque infantil na praça”. Hoje, sempre que passa pela praça, a arquiteta sente-se realizada ao ver as crianças brincando no local que antes estava abandonado.

Outra importante iniciativa de Laís foi o desenvolvimento do seu trabalho de conclusão de curso, que abordou a criação do projeto do Parque Linear do Rio Três Henriques.

Jardins verticais

Mulheres do Núcleo de Paisagismo da Acif durante viagem ao México – Arquivo Pessoal/ND

O Núcleo de Paisagismo da Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), coordenado por Jane Pilotto, de 61 anos, arquiteta, paisagista e doutora em gestão ambiental, realizou uma viagem recentemente com um grupo de profissionais numa missão empresarial para conhecer a Via Verde da Cidade do México, por meio de um concurso realizado pelo Sebrae para empreendedores competitivos.

A coordenadora explica que os jardins verticais são feitos há muitas décadas em todo o mundo e que existem diversas formas e soluções diferentes, com resultados variados. Mas o que viram no México foi, acima de tudo, uma aula de competência em propaganda internacional. Por isso, viajaram para conhecer os jardins verticais da famosa Via Verde. Esse projeto completo prevê cobrir 60 mil metros quadrados de concreto de mais de mil colunas em rodovias da Cidade do México, em 27 quilômetros de vias verdes.

Para ela, o propósito do grupo é “criar soluções urbanas para a qualidade de vida nas grandes cidades, e os jardins verticais solucionam uma questão estética, trazendo vida para lugares de concreto que têm uma aparência fria, além de minimizar a poluição desses centros urbanos, ampliando a circulação de ar puro na cidade”.

Para o núcleo, a viagem à Cidade do México foi espetacular e também rica em soluções técnicas, estéticas e inovações aplicáveis em Florianópolis. Em um futuro próximo, as arquitetas e paisagistas do Núcleo da entidade pretendem aplicar o conhecimento adquirido em projetos na Capital. Um deles será realizado em parceria com o Studio de Ideias, no qual, juntos, criarão um mural que seja uma fusão entre a arte urbana e um jardim vertical.

Espaço planejado no México, um dos locais de inspiração das profissionais da Grande Florianópolis – Arquivo pessoal/ND

Figuras históricas no Centro da cidade

Mural da Antonieta de Barros é um dos painéis com figuras históricas que estão pelo Centro da cidade, assim como Franklin Cascaes e Cruz e Sousa – Anderson Coelho/ND

Marina Tavares da Cunha Melo, 40 anos, publicitária e produtora cultural, está há 15 anos à frente do Studio de Ideias junto com seu sócio, Arturo Valle Junior. Eles idealizaram, em parceria com o artista Rodrigo Rizo, o projeto Street Art Tour, com o propósito de movimentar a cena de arte urbana na Capital. “O desenvolvimento da arte urbana em Florianópolis cresceu nos últimos anos, e a relação com o público, que antes era tímida e pouco próxima, passou a se modificar com o surgimento de novas obras”, revela a produtora.

O trabalho dos murais é voltado para a valorização dos ícones culturais de Florianópolis e por meio deles homenageiam-se a vida e a obra de personalidades e figuras importantes para a nossa cidade, tais como Franklin Cascaes, Cruz e Sousa e Antonieta de Barros. Além disso, Marina explica que o Street Art Tour implementou uma plataforma digital gratuita que pode ser acessada via aplicativo que, por um mapa interativo, identifica as obras de arte urbana, os artistas e a descrição das obras que estão localizadas nas ruas da Capital.

O caso emblemático da Vidal Ramos

Vidal Ramos trouxe novo conceito de urbanismo para Florianópolis  – Anderson Coelho/ND

Em 2006, a arquiteta, Vera Lúcia Gonçalves Silva, de 60 anos, foi uma das funcionárias do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) que dirigiu o projeto da rua Vidal Ramos e que se transformou em um caso emblemático de revitalização de área urbana. A solicitação para um novo projeto de rua surgiu da necessidade dos lojistas da região, que sofreram um forte declínio nas vendas devido à diminuição brusca da circulação de pedestres no Centro da Capital.

“O caso da Vidal Ramos representa uma mudança de paradigma e traz um novo conceito urbanístico no qual a prioridade se tornou os pedestres e os ciclistas, deixando a rua mais humanizada, em um espaço de convivência social, um ponto de encontro”, pontua Vera.

Para isso, a prefeitura ficou responsável por alargar as calçadas, proibir o estacionamento de veículos e o aumento de luz na região para elevar a segurança do local. Com todas essas mudanças, mais a implantação do mobiliário urbano financiado pelos próprios comerciantes, a Vidal Ramos tornou-se um shopping a céu aberto.

Assim como Vera, a arquiteta Janine Tavares, de 59 anos, dedicou-se 40 anos a trabalhar no Ipuf, ambas agora estão aposentadas. Ela conta que desde o início da sua fundação o órgão de planejamento foi sempre composto por um número expressivo de mulheres. Segundo Vera, isto seria uma vantagem “pois, as mulheres são mais tolerantes e maleáveis nas gestões de políticas públicas”. Janine também concorda: “O olhar feminino é mais sensível e detalhista, os bancos espalhados na Vidal Ramos, por exemplo, proporcionaram com que os moradores pudessem descer à rua para tomar um banho de sol”.

Inspira!