Atropelamento na Beira-Mar: Empresário é indiciado por seis tentativas de homicídio

Atualizado

A Polícia Civil concluiu no dia 5 de novembro a investigação sobre o atropelamento de seis pessoas na Beira-mar Norte em junho deste ano, em Florianópolis.

A 1ª Delegacia de Polícia da Capital indiciou o empresário Alan Oaks Sueiro por seis tentativas de homicídio doloso, e solicitou a prisão temporária do motorista.

Conforme o inquérito, ao qual a reportagem do ND+ teve acesso com exclusividade, na madrugada do dia 20 de junho, feriado de Corpus Christi, Sueiro lançou o veículo contra quatro pessoas que estavam em uma calçada na Beira-mar Norte – próximo ao estacionamento Multipark – após uma discussão.

Na ocasião, outras duas mulheres, que não se envolveram na briga, também foram atingidas pelo veículo.

Os seis indiciamentos tiveram as qualificantes de emprego de recurso que dificultou a defesa das vítimas. Quatro indiciamentos são acrescidos, ainda, da qualificadora de motivo fútil – já que, segundo a polícia, os atropelamentos foram cometidos após uma discussão.

Sueiro foi indiciado também por crime de embriaguez ao volante. A Polícia solicitou a suspensão da sua carteira de habilitação, “visando garantir a ordem pública”.

Conflito de versões

Durante a instauração do inquérito, o suspeito defendeu que ele e um amigo foram vítimas de uma tentativa de assalto que culminou em violência. Após fugir do local, teria retornado com seu veículo e, ao ouvir “pega ele”, teria acelerado o carro numa reação de susto.

As vítimas, por sua vez, afirmaram que a briga começou após um dos dois homens assediar uma das mulheres, que é casada. O companheiro dela teria começado uma briga física, e Sueiro teria retornado posteriormente como vingança.

Durante cinco meses, a investigação comandada pela delegada Aline Hermes Zandonai colheu imagens de câmeras de estabelecimentos da região e da Polícia Militar, como também boletins de ocorrência sobre o mesmo caso.

Foram realizadas perícias no veículo utilizado no atropelamento, e também exames de corpo de delito. Ao todo, foram ouvidas cerca de 30 pessoas, entre testemunhas, policiais e pessoas envolvidas no caso.

Percurso entre a noite e a madrugada dos fatos

Os fatos se desenrolaram em um trecho da Avenida Jornalista Rubens de Arruda Ramos, no Centro (a Beira-mar Norte), no entorno do shopping Beiramar. Era madrugada do feriado de Corpus Christi, em 20 de junho. No local, há concentração de bares e pubs. 

Sueiro vestia camiseta polo azul quando foi ao encontro de um amigo, atendendo a um convite para jantar em um restaurante. Nos últimos minutos da terça-feira (19), a dupla resolveu ir a um bar localizado em um hotel, também na Beira-mar Norte – onde chegaram por volta das 23h50.

Conforme a investigação, os dois compraram quatro Aperol Spritz, drink alcoólico feito com espumante. Imagens do bar registraram os amigos com bebidas nas mãos.

Na imagem, Sueiro segura um copo de bebida por volta das 3h de quarta-feira, em bar em hotel na Beira-mar Norte – Foto: Reprodução Inquérito/Polícia Civil

Ainda antes das 4h, a dupla saiu do bar no hotel e caminhou até a frente de outro bar, próximo ao local onde o veículo de Sueiro estava estacionado, também na Beira-mar Norte. O local recebia uma banda naquela noite.

A briga

No momento, dois casais iam embora do estabelecimento. Eles tinham ido ao local celebrar o aniversário de uma amiga e aguardavam o manobrista trazer o veículo, ainda conforme descreve o inquérito policial.

As duas mulheres esperavam sentadas, enquanto os dois homens que as acompanhavam aguardavam em pé. As vítimas relataram que um homem de camiseta branca, que seria o amigo de Sueiro, falou a uma das moças: “Que gatinha linda”, e em seguida estendeu uma das mãos para tocá-la.

Segundo a versão das vítimas, os dois maridos teriam, então, alertado que elas eram casadas, ocasião que um deles responde “e o que é que tem?” – os autos não conseguiram esclarecer qual dos dois amigos teria dito isto.

Foi neste momento que um dos homens que acompanhava a mulher desferiu um soco contra um dos amigos – não especificado -, e utilizando técnicas de jiu-jitsu, tentou imobilizá-lo. Entre chutes e socos, os quatro homens se envolveram em uma briga generalizada.

Ferimentos sofridos por Sueiro na região do braço e da boca, durante a briga que envolveu os quatro homens – Foto: Reprodução Inquérito

Sueiro e o amigo fugiram da situação e tomaram caminhos diferentes. Enquanto o amigo teria ido ao seu apartamento alugado no Centro, Sueiro correu até o veículo, um Audi estacionado em frente a uma farmácia – a 40 metros do local, na mesma avenida. 

Relembre o caso

Conforme laudo do IGP (Instituto Geral de Perícias), as câmeras registraram que ele arrancou a placa dianteira do veículo, ainda em frente às vítimas.

Em seguida, entrou no Audi e dirigiu até a frente do bar. Após alguns segundos com o veículo parado, deu a volta na quadra e estacionou em frente ao shopping, onde torceu a placa traseira do carro.

Sueiro começou a rodear a região com seu Audi, conforme imagens de câmeras acessadas nas investigações.

Enquanto isso, o casal pedia ao manobrista urgência na entrega do veículo. O carro de Sueiro percorreu a quadra no entorno do bar por duas vezes. Ao final da terceira volta, chegando ao estabelecimento, uma das mulheres afirmou aos amigos: “Cuidado, ele está vindo”.

Motorista percorreu a região destacada por duas vezes, antes de atropelar as vítimas – Foto: Maps/Divulgação/ND

Naquele momento, um veículo branco que antes estava estacionado em frente ao local onde as vítimas esperavam já não estava mais ali, abrindo espaço para o carro invadir a calçada.

Segundo testemunhas, o carro chegou ao local em velocidade entre 20 e 30 km/h, desacelerando e subindo lentamente no meio-fio. Em seguida, acelerou o Audi e atropelou as vítimas. Os dois casais foram atingidos, assim como duas mulheres que também estavam no local.

Pelo menos duas mulheres foram hospitalizadas. Segundo relatos de testemunhas, uma das vítimas chegou a ser lançada metros à frente.

Jhenny Palacios foi uma das vítimas do atropelamento na Avenida Beira-mar Norte – Foto: Facebook/Divulgação

Suspeito abandonou carro no Morro do 25

Aos gritos de “ele atropelou!”, Sueiro deu ré na contramão, pegou a Avenida Beira-mar Norte e fugiu. Quando chegou ao Morro do 25, na região do bairro Agronômica, o carro parou de funcionar. Ele, então, acionou um carro por aplicativo e seguiu para casa, abandonando o Audi no local.

Perícia encontrou fios de cabelo no para-brisas do veículo de Sueiro – Foto: Reprodução Inquérito/Polícia Civil

O veículo foi recolhido no dia seguinte pelo IGP. Os peritos encontraram fios de cabelo no para-brisa estilhaçado e, por causa do dano causado no cárter do carro, uma poça de óleo foi formada no chão. Um dos pneus estava esvaziado. Os peritos registraram também a tentativa de retirar a identificação do Audi.

Na parte interna do carro não havia qualquer dano. 

“Restou nítido com as imagens que Alan teve a intenção clara de intentar contra as vítimas, já que de forma premeditada, retirou as placas do veículo, para ocultar sua identidade e somente na terceira vez que circundou a quadra, lançou o veículo no intuito de atropelá-las”, registrou a delegada Aline Zandonai no inquérito.

Sobre a versão de Sueiro – de tentativa de assalto -, Zandonai concluiu que “as informações não se coadunam com os demais elementos de informação carreados aos autos”.

Investigação

Carro com placa dianteira retirada e placa traseira entortada, respectivamente – Foto: Reprodução Inquérito/Polícia Civil

O prazo inicial para a conclusão da investigação era dia 30 de julho. Após uma adição de prazo, no final de agosto, foi adiado por mais 120 dias, tendo então como limite 30 de novembro.

O adiamento ocorreu após a defesa de Sueiro apresentar à delegacia um processo em andamento que investigava um furto com suposto envolvimento de uma das vítimas.

Para a defesa do empresário, o processo reforçava a tese de que Sueiro reagiu a uma tentativa de assalto e que teria retornado ao local para encontrar o amigo.

Outro ponto afirmado pela defesa é que havia contradições nos depoimentos das vítimas sobre qual dos dois homens cometeu o assédio.

Momento em que Audi se aproxima da calçada – Foto: Reprodução Inquérito

Apesar de Sueiro afirmar que não consumia bebidas alcoólicas devido ao uso de remédios controlados para ansiedade, o empresário aparece com copos nas mãos. Nenhum teste de bafômetro foi realizado, pois o suspeito só se apresentou à DP dias depois do ocorrido.

“A prova de embriaguez ao volante deve ser feita, preferencialmente, por meio da perícia, mas esta pode ser suprida (se impossível de ser realizada) até mesmo pela prova testemunhal. O próprio artigo 167, do Código de Processo Penal, estabelece que quando desaparecem os vestígios do crime, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta” registrou a delegada.

Contraponto

Segundo o advogado de Alan Oaks Sueiro, Rudolf Carlos da Rocha, o inquérito foi concluído de forma errônea. Ele afirma que a investigação desconsiderou um vídeo anexado ao inquérito que demonstraria o espancamento sofrido por seu cliente.

Rudolf diz, ainda, que Sueiro agiu por legítima defesa, após uma das vítimas gritar “olha ele”, assustando o motorista, que acabou atropelando as pessoas.

A defesa aguarda a posição do Ministério Público para se manifestar sobre o caso. O órgão pode oferecer denúncia, pedir novas diligências à polícia ou arquivar o caso. A reportagem entrou em contato com o MP, mas não obteve retorno até a publicação.

O advogado das vítimas, Claudio Gastão da Rosa Filho, acredita que a denúncia deve ser aceita pelo Ministério Público ainda nos próximos dias, por se tratar de um crime hediondo.

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