Avenida Hercílio Luz, o mundo peculiar do paredão

Rosane Lima/ND

Contraste. Os prédios do paredão, a avenida arborizada e o lado oposto, formado por casas antigas

Visto do sexto andar do hotel Oscar, onde já funcionou um piano-bar e Roberto Carlos arrancou gritos das fãs que queriam vê-lo na janela, nos idos dos anos 60, o “paredão” da avenida Hercílio Luz pouco se diferencia das demais sequências de prédios espalhadas pela cidade. No entanto, há particularidades que fazem desses edifícios um conjunto peculiar, único na Ilha. A começar pelo fato de todas as torres de 11 andares, erguidas pela construtora Ceisa no fim da década de 70, estarem praticamente grudadas umas nas outras, o que gera problemas como infiltrações, ventilação precária e iluminação deficiente. Estima-se que ali moram cerca de 5 mil pessoas.

Alguns moradores brincam com a situação, dizendo que se não fosse assim os prédios viriam abaixo. “Se cair um, cai tudo”, dispara um deles, fazendo piada com a própria opção de residir ali. “Tem até toca de morcego”, emenda outro, dando corda para a gozação. O fato é que o “paredão do Ceisa”, situado entre as esquinas com as ruas José Jacques e Anita Garibaldi, é quase um bairro onde as amizades se consolidam com os anos e os mais descolados assam churrasco de latão no passeio, nas tardes de sábado, desafiando os ciclistas e as mulheres que saem para passear com seus cachorrinhos de estimação.

E ninguém passa incólume pela experiência de ser inquilino ou proprietário de um apartamento no paredão. Tirando os que saíram, após se formarem na universidade ou terem achado pousada melhor, quem reside no conjunto ou passa sempre por ali só tem boas lembranças a relatar. A jornalista Fabiana Henrique, que viveu no edifício Alexandra a primeira experiência de morar sozinha, após se formar em Tubarão e mudar-se para a Capital, diz que sente saudade e carinho pelo prédio e pelas pessoas que conheceu ali. “Ainda hoje, morando na Mauro Ramos, cruzo a Hercílio Luz e cumprimento os porteiros, síndicos e zeladores”, conta.

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Satisfeita. Aurora Lamin, a dona Lola, destaca que tudo fica perto do paredão, e por isso não pensa em sair dali

Síndica elogia localização e adota jardim com os moradores

Síndica do edifício Andréa há 15 anos, a funcionária pública aposentada Aurora Lamin, chamada pelos vizinhos de dona Lola, mora há três décadas no paredão e diz que já teve a oportunidade de sair, mas teme, como ocorreu com outras pessoas, se arrepender e ter de voltar à Hercílio Luz. “Aqui é tudo perto, não preciso usar o carro para quase nada”, afirma. A catedral, a praça 15 e os mercados e padarias estão a poucos minutos a pé. Isso faz com que seja fácil, também, vender ou alugar um imóvel ali, apesar de poucos deles terem garagem e elas encherem de água quando chove forte.

Dona Lola conta o caso de duas senhoras que moravam no outro lado da avenida e que compraram um apartamento no paredão quando sua casa foi demolida – para não saírem da Hercílio. “Não tenho do que reclamar”, ressalta a síndica, vendo o lado bom até onde outros enxergam defeitos. “À tarde faz um friozinho gostoso neste lado do prédio”, diz. Ela destaca o que fizeram Angela Amin, Sérgio Grando e outros prefeitos, mas é especialmente agradecida a Dario Berger, que concluiu as obras de urbanização da via. Como contrapartida, “adotou” o jardim na frente de seu prédio, com a colaboração dos moradores.

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Risco. O agrônomo aposentado Joel de Oliveira faz alerta sobre o trânsito

Réstia de luz na sala e calor no lado oposto

São muitos os moradores que se queixam da baixa incidência de luz natural nos apartamentos de frente para a avenida ou da inclemência do calor na parte de trás. No verão, nos andares mais baixos, em vista da posição do sol, a iluminação é pequena ou de curta duração. A própria síndica do edifício Andréa, Aurora Lamin, conta que apenas uma réstia de luz alcança a sala de seu apartamento, das 8h às 9h da manhã. Enquanto os moradores do lado oposto sofrem com as altas temperaturas a partir das primeiras horas da tarde, o lado frontal padece com o frio nos meses de inverno. “Fica sombreado nessa época”, informa o engenheiro agrônomo aposentado Joel Vieira de Oliveira. Por outro lado, dependendo da estação, mesmo à tarde as unidades de trás ficam sem iluminação direta depois das 16h30.

Mas os moradores reclamam também de coisas que vieram depois, a partir do aumento do número de carros nas ruas da cidade. Com estacionamentos nos dois lados da via, a velocidade excessiva dos motoristas acaba provocando acidentes todas as semanas na região. “Estamos numa avenida, mas muitos idosos e crianças atravessam e usam o passeio”, afirma Oliveira. “O trânsito está uma esculhambação”, reforça Mauro Murara, da farmácia Hercílio Luz.

Das lavadeiras ao boulevard da cidade

Fronteira do centro histórico de Florianópolis, o antigo rio da Bulha era onde as lavadeiras aproveitavam a água que vinha do morro para dar conta da limpeza das roupas da família ou de terceiros. Os terrenos tinham quintais que davam de fundo para o riacho, que foi canalizado quando a cidade começou a crescer para aqueles lados. Com a expansão urbana, a partir da década de 1920, os moradores da região – incluindo muitos descendentes de ex-escravos – foram sendo empurrados para o maciço do Morro da Cruz. Até que o boom imobiliário dos anos 70 atraiu as construtoras, num tempo em que as leis de planejamento urbano eram frouxas e não raro desrespeitadas.

Foi quando a Ceisa decidiu comprar os lotes de um trecho da Hercílio Luz onde só havia residências individuais, à exceção da sede do TRE. Ali, ergueu os edifícios Ana Paula, Carolina, Cristina, Andréa, Gabriela, Bianca e Alexandra, alguns deles com 10 apartamentos de um quarto por andar e ocupação de 100% do terreno.

Mesmo com os problemas, raramente os apartamentos ficam vazios e o condomínio chega a custar até R$ 850. É comum ver senhores jogando dominó no passeio urbanizado que fez da avenida uma espécie de boulevard sem similar na Capital. O proprietário do restaurante Caiçara, Munir Muniz, diz que ali as pessoas ainda se cumprimentam, num comportamento que lembra as pequenas cidades do interior. “Não se vê isso em outros lugares de Florianópolis”, constata.

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Revolta. Mauro Murara em sua farmácia: água da chuva entra nas lojas

Rio seco, enchente na calçada e uma casa que tem muita história

Um dos pontos mais tradicionais e agregadores da avenida Hercílio Luz é o restaurante Caiçara, tocado há 32 anos por Munir Muniz, que veio de Laguna para adquirir e administrar uma casa conhecida pelo gostinho da comida caseira e, dizem os mais assíduos, por uma das cervejas mais geladas da cidade. Como Florianópolis praticamente fecha à noite, é nessa hora que o Caiçara atrai mais público. No almoço, são os comerciários e hóspedes de dois hotéis das proximidades. Do fim da tarde em diante, são os órfãos de alternativas que chegam para um lanche, uma bebida ou apenas para falar de política ou futebol – o lugar é um point clássico da torcida do Figueirense.

Há quem reclame da segurança na Hercílio Luz, embora a incidência de furtos seja menor do que na média, comparando com outras partes da cidade. Aurora Lamin, do edifício Andréa, conta que muitos idosos deixaram de ir para a rua depois que passaram a ser abordados por pedintes e traficantes. Para quem tem comércio nas lojas do térreo, outra dor de cabeça é a água que entra em enxurradas mais fortes. “A tubulação e as bocas de lobo não dão conta da água que vem do morro”, constata Munir Muniz, do restaurante Caiçara. Para piorar, o asfalto ficou acima do nível das calçadas. “Quando chove muito, sofremos o que chamo de ‘enchente do rio seco’, porque o canal está vazio e a avenida transborda de água”, denuncia o farmacêutico Mauro Murara.

De poucas palavras, o comerciante aposentado Noburo Maeda, que chegou a se mudar para o Kobrasol por causa das enchentes e do mau cheiro, voltou quando a avenida recebeu melhorias. “Antigamente não era bonito como hoje”, justifica. Ele mora do edifício Bianca, que tem quatro apartamentos por andar.

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