Bambu para abrir caminhos no rio Cachoeira

Planta aquática se alastra e dificulta a navegação na área conhecida como Cachoeirinha, na divisa entre os bairros Bucarein e Guanabara

Luciano Moraes

Hermes usa o bambu para retirar a vegetação que se alastra rapidamente

Não há confirmação de que seja realmente a espécie “caporuvá do brejo”, ou algo assim, como acreditam alguns ribeirinhos. O que se sabe é que graças à “alimentação farta” – dejetos lançados com o esgoto –, uma planta aquática se prolifera rapidamente pelo leito do rio Cachoeira, nos fundos da Arena Joinville, imediações da ponte Mauro Moura. Pescadores que moram às margens da região conhecida como Cachoeirinha amargam prejuízos e pedem soluções, principalmente uma dragagem eficiente que ao menos amenize o problema. A última foi feita há três anos e não traz boas lembranças a um dos mais antigos pescadores das cercanias.
Há 30 anos, seu José Valdir de Sena, 60 anos, pesca camarão em alto-mar, entre os litorais de Balneário Barra do Sul, Itapoá e Guaratuba. Seu José navega a menos de dois nós. Isso porque a vegetação se enrosca na hélice da embarcação, trava o leme e o motor MWM de 90 cavalos. Ir adiante é forçar demais o barco Salmo 23 e correr o risco de atingir o bolso. “Uma hélice dessa custa R$ 1.200”, diz o experiente pescador, que há três anos viu outro barco seu, o Boa Pesca, naufragar por conta da dragagem em 2009.
“Eles cortaram o barranco e o barranco caiu sobre o barco, que virou com as quatro rodas, capotou. Tava com o trangoni de pescar camarão e outros equipamentos. Tive R$ 12.000 de prejuízo”, diz o pescador, que ainda espera a indenização prometida por uma das empresas responsáveis pela obra. “Até hoje, não apareceu ninguém”, afirma ele, que agora pretende usar o rio para promover o turismo ecológico.
Com o Salmo 23, ele tem fé de que vai conseguir levar os turistas para passear nas 24 ilhas da baía Babitonga. Mas isso só vai ocorrer se o leito do rio for limpo. Enquanto isso, ele navega em zigue-zague no Cachoeira, na tentativa quase inócua de despistar as plantas, em certos pontos presentes dos dois lados do leito. Nestes casos, ele conta com a ajuda do amigo Hermes Silva, 33, que remove a planta com um bambu e verifica se o leito permite passagem.
“Este rio era para estar limpo. Não era para estar desse jeito”, cobra Claudio Cesar Reinert, 50, outro morador ribeirinho do Cachoeira. Ele lembra que, nos tempos de seu avô, a família tirava parte do sustento do próprio rio. “A gente pescava aqui”, conta, enquanto acena para seu Juca, outro pescador da região, que está com seu barco parado. O Gaivota não consegue navegar com tanto mato no rio.

Só é possível navegar durante o dia

Diz o Salmo 23 que “o Senhor é o meu pastor e nada me faltará”. No caso de seu José, que não lhe falte a foice. É com ela que ele remove a vegetação para abrir os caminhos. Faz isso normalmente na sexta-feira, para sair com os turistas no fim de semana. Mas nem sempre é possível. Na segunda-feira (23), por exemplo, após o passeio com a reportagem, quando o barco parou duas vezes por conta da vegetação, ele teria que esperar a maré baixar para remover a vegetação que se enrolou no leme e por baixo do barco. Claro que com a foice.
“Aproveito que vocês estão aqui para convidar o prefeito Carlito Merss para fazer um passeio como vocês fizeram”, afirmou, pedindo que o chefe do executivo mande realizar uma nova dragagem.
Seu José de Sena diz que várias empresas se uniram para fazer a dragagem em 2009. Para ele, a obra foi um grande desperdício de verba pública. “Tiravam a areia do meio do leito e jogavam para os lados, dentro do rio. A areia escorria e deixava tudo igual. A draga não adiantou de nada. O rio assoreou tudo de novo”, reclama o pescador.
Por conta da vegetação, tanto o Boa Pesca quanto o Salmo 23 só navegam de dia. À noite nem pensar, afirma seu José, que volta e meia começa a navegar de madrugada. Para um passeio até a ilha das Flores, ele cobra R$ 300 para grupos de no máximo 12 pessoas. Quem quiser realizar o passeio, pode ligar para o 8426-6778.

Não há reivindicação da comunidade

O diretor executivo da Seinfra, Michel Ubirajara Becker, diz que a questão é mais complicada do que parece. Segundo ele, para retirar material de rio é necessário um estudo de impacto ambiental. “Tempos atrás, fui tentar fazer uma limpeza num rio e já deu um alvoroço, porque disseram que a gente estava acabando com a vegetação. Falou no rio Cachoeira, é mais complicado ainda. Vai ser difícil fazer uma intervenção.”
Até agora não há nenhuma solicitação oficial da comunidade para a limpeza do rio. Para Becker, este deveria ser o primeiro passo. Ele vai solicitar que um engenheiro da Seinfra vá ao local com algum técnico da Fundema (Fundação Municipal do Meio Ambiente) para verificar se a limpeza é possível. Também vai avaliar se a limpeza precisa ser realizada com maquinário ou se pode ser feita com roçada manual.
“Precisamos levar a Fundema junto”, ressalta o diretor da Seinfra, expondo que no fim da rua Ponta Grossa, no Boa Vista, moradores que também dependem da pesca estão enfrentando o mesmo problema. Lá, o manguezal assoreou, o que se torna ainda mais complicado para entrar com máquina para limpeza. “Como faço para entrar, se é mangue? Como entro com máquina? O problema não é falta de máquina. Tem que ter autorização”, afirma.

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