Benzedeiros: pesquisa revela força da tradição na Ilha de Santa Catarina

O ato de benzer foi, durante muito tempo, a primeira opção de cura para muitas pessoas, principalmente na época em que o acesso à medicina era mais difícil. Os tempos mudaram, mas a tradição não se perdeu.

Prova disso é uma pesquisa feita no ano passado que mapeou 16 benzedeiras e benzedores na Ilha de Santa Catarina (agora são 15, com a morte de Hilda Martinha Vieira, do Pântano do Sul, em setembro de 2018). O levantamento foi realizado por uma equipe de cientistas sociais da empresa Espaço Arqueologia, por meio do edital Elisabeth Anderle de incentivo à cultura e os depoimentos colhidos podem ser conferidos pela internet.  O mapa com a localização dos benzedores por bairro, também está disponível online.

Pesquisa etnográfica resultou em um mapa físico com a localização das benzedeiras da Ilha - Facebook/Divulgação/ND
Pesquisa resultou em mapa físico com a localização das benzedeiras da Ilha – Facebook/Divulgação/ND


A socióloga Tade-Ane de Amorim, que esteve à frente do projeto “As benzedeiras de Florianópolis: inventariando saberes”, conta que a equipe percorreu a cidade perguntando às pessoas se conheciam alguma benzedeira naquela localidade. Os critérios eram que a pessoa se considerasse benzedeira e a comunidade a reconhecesse como tal. “O objetivo era valorizar e dar visibilidade a esse saber, da perspectiva do patrimônio cultural”, afirma a pesquisadora.

“É claro que antes havia muito mais benzedeiras, mas muita gente continua procurando por elas, o que mostra que essa é uma prática importante para as pessoas da cidade”, aponta.  

Além de revelar que o saber ainda é praticado, a pesquisa mostra que há uma diversidade de gêneros e de religiões envolvidas. “Há mulheres e homens, velhos e jovens, pessoas com as mais variadas influências religiosas, como a católica, a umbanda, o espiritismo e que também incorporaram os saberes indígenas do uso de ervas. Esse é um conhecimento antigo e há registros dessa prática também na Europa, durante a Idade Média, não é um costume exclusivamente açoriano”, explica Tade-Ane.

O projeto está encerrado, mas a pesquisadora afirma que o mapeamento vai continuar sendo feito em um inventário participativo. “Muitas pessoas estão entrando em contato pelas redes sociais citando benzedeiras que ficaram de fora e pesquisadores de outros lugares do Brasil querem integrar suas pesquisas com a nossa. Isso mostra que a tradição está viva em todo o país”, conclui a socióloga.

Benzer é bendizer, dizer o bem

Aqui e ali, pontuando recantos de fé pela cidade, mulheres e homens se dedicam a livrar as pessoas de males do corpo e do espírito. Segundo as próprias benzedeiras, benzer é bendizer, dizer o bem. É um dom que não se aprende nem se pode passar adiante.

Dona Ondina Maria de Siqueira, 86 anos, moradora do Ribeirão da Ilha, afirma que é preciso ter fé e acreditar que vai melhorar. “Gosto de benzer, mas não sou eu quem cura, é Deus!”. E ela emenda: “Uma vez veio um senhor aqui trazer a família para benzer. Perguntei se ele queria que eu o benzesse e ele disse que não. Que homem de pouca fé, né, minha filha? Precisa acreditar, se não tem fé não dá certo”, analisa.

Benzedeira conhecida em todo o bairro, dona Ondina benze desde os nove anos.  “Eu estava brincando no mato com minha vizinha Cecília, quando ela me disse que não podia correr porque tinha alguma coisa na perna, que doía e queimava. Era um cobreiro. Eu peguei uma vassoura do mato e benzi. No outro dia, ela veio pedir: ‘Ondina, me benze de novo que já fiquei melhor’. Benzi três vezes e ela ficou boa”, relembra. “Meus avós diziam que quem nasce na quinta-feira santa depois do meio-dia ou na sexta-feira santa, nasce com um dom. Eu nasci numa quinta-feira santa, às oito e meia da noite”, revela.

Dona Ondina benze de tudo: arca caída, campainha caída (o ‘sininho’ da garganta ou úvula), zipra (erisipela), quebranto (mau olhado), cobreiro, afogado, queimadura, mau jeito. “Um dia veio um moço aqui com suspeita de câncer de garganta, ele não conseguia engolir nem a saliva, veio segurando uma toalhinha, babando”. A filha de Ondina, Jacirene, completa: “A mãe pediu para ele abrir a boca e disse que aquilo não era câncer, era campainha caída. Colocou ele sentado com a boca aberta virada para o mar e benzeu enquanto puxava o cabelo dele para cima, para levantar a campainha”, conta. “Eu benzi na segunda, na terça e na quarta… no domingo, ele estava na churrascaria comendo um churrasco”, sorri, satisfeita, a benzedeira. “Quando fico sabendo que a pessoa veio aqui e melhorou, me dá muita satisfação, é como se eu ganhasse na loteria”, compara.

Até cachorro ela já benzeu. “Foi o Thor, cachorro do vizinho que foi envenenado com chumbinho e estava na clínica para ser sacrificado. A mãe benzeu a água para ele tomar, a coleira e a foto, por três dias. Em algumas semanas ele ficou bom e está aí até hoje”, conta Jacirene.

Em todos esses anos, dona Ondina nunca deixou de atender ninguém. Houve época de receber até 50 pessoas em um único dia. “Até que minhas filhas resolveram colocar horário para atendimento, porque era dez da noite e ainda tinha gente aqui”. Com dores nos joelhos e ombros, ela não desiste e continua benzendo as cerca de 30 pessoas que a procuram diariamente, a maioria bebês com arca caída. “Tem que pegar o bebê apoiando as costinhas e não pelos braços”, ensina. Enquanto conversamos, umas cinco pessoas aparecem, algumas aguardam, outras decidem voltar depois.

Para benzer, dona Ondina utiliza apenas um rosário se for criança abaixo de 10 anos. Acima dessa idade, ela usa um colar de proteção, feito com sementes de “lágrima de Nossa Senhora” (o nome científico da planta é Coix lacryma-jobi). “Se eu não usar a proteção, fico doente, ‘carregada’. Uma vez esqueci de usar e fiquei de cama por uma semana, achei que ia morrer”, diz. Também usa o azeite de oliva aquecido para benzer de zipra e arca caída.

Em seu pequeno estojo azul, que a acompanha em todos os lugares, ela leva o rosário, a proteção, pano com agulha e linha para benzer de mau jeito, cartãozinho com seu telefone. “Quando vou ao centro as pessoas me param e pedem pra benzer, tenho que levar tudo”, explica. Nascida e criada no Ribeirão da Ilha, dona Ondina foi casada por 55 anos e teve cinco filhos (um já falecido), 12 netos e 10 bisnetos.

Dona Ondina, do Ribeirão da Ilha, benze Volnei Pinho para curar um mau jeito no pé - Marco Santiago/ND
Dona Ondina, do Ribeirão da Ilha, benze Volnei Pinho para curar mau olhado – Marco Santiago/ND

Tempos modernos, outro olhar

Segundo a socióloga Tade-Ane, a tradição das benzedeiras é um ato que não se perdeu, mas que vai se ressignificando, como acontece com vários patrimônios culturais.

Camila Gonçalves Gomes, 38 anos, mora no Centro e é um exemplo de como a prática perpassa gerações e se transforma, agrega novos saberes e experiências. Praticante da fé católica, Camila acabou se encontrando como benzedeira na umbanda . “Fui mãe aos 22 anos e fiquei muito doente durante essa gravidez, com problemas nos rins, que continuou depois que tive meu filho. Eu desmaiava, passava mal, era muito ruim”, afirma.

Certo dia, uma colega de trabalho a convidou para participar de uma reunião de umbanda. “Ela disse que o Preto Velho estava me chamando e que eu ia melhorar, então eu fui”, conta. A entidade disse que Camila precisava desenvolver seu trabalho de cura, e que a ajudaria nesse caminho. “O Preto Velho falou coisas da minha vida que só eu sabia. Ele me ajudou a controlar meus medos, os desmaios pararam e comecei a ouvir e a ajudar outras pessoas”, diz.

Camila Gonçalves Gomes, 38 anos, utiliza terapias naturais junto com a benzedura - Marco Santiago/ND
Camila Gonçalves Gomes, 38 anos, utiliza terapias naturais junto com a benzedura – Marco Santiago/ND


Ela estava no final do curso de Psicologia e ficou nesse grupo que estudava rituais religiosos por oito anos. “Não era um terreiro, todos eram acadêmicos. Mas foi lá que conheci meu guardião, que me orientava nas rezas”.

“Em 2010, meu mentor disse que era hora de eu seguir sozinha. Fui morar na Lagoa da Conceição e lá descobri, ao receber a visita de uma tia, que a minha bisavó materna havia morado aqui e era tida como santa. As mulheres rezavam para ela para conseguir engravidar”, conta. Na Lagoa, Camila participou por dois anos de um projeto de acolhimento fraterno, em conjunto com a paróquia local, para continuar benzendo as pessoas.

Nessa época, ela cultivava suas próprias ervas, receitava chás e garrafadas. Ela lembra o caso de uma senhora que sofria de depressão profunda e melhorou, emagreceu e voltou a estudar. “Ela vinha todo fim de semana, eu receitava garrafadas, ervas, é muito bom ver que dá resultado. Hoje moro em apartamento e já não cultivo mais as ervas, mas prescrevo chás, banhos, elixires e também utilizo pedras como a turmalina negra, óleos essenciais e faço a benzedura com a imposição das mãos”, explica. Camila também tem suas rezas para curar feridas, quebranto, passar em concursos e engravidar.

“Atualmente, minha profissão está atrelada a Benzedeira. Utilizo a Psicologia e terapias alternativas junto com a benzedura”. Ela concorda que é preciso acreditar para que haja a cura. “Tem que acreditar e querer melhorar. Aquilo que vibramos, atraímos. O Universo vai atrair essa vibração. E não posso curar quem não quer ser curado”, afirma. “Não é algo que eu tenha escolhido, é um caminho solitário porque precisa de muita introspecção, mas estar nesse caminho é a minha própria cura”, finaliza.

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