Calçadas da Capital são obstáculos no caminho dos cegos

É comum achar postes, placas, lixeiras e até orelhões no piso tátil

Débora Klempous/ND

Victorino Elima. Estudante disse que “é difícil achar cego que nunca bateu”

O piso tátil, mais conhecido como piso guia, instalado em vias públicas, deveria ser utilizado para auxílio de locomoção e alerta para obstáculos para as pessoas cegas. Mas no centro de Florianópolis é possível ver, com frequência, placas, postes e lixeiras no meio do piso diferenciado, fazendo com que as pessoas se confundam, batam nos objetos e até se machuquem. 

Para se guiar, o estudante Victorino Elima, 29 anos, que é deficiente visual, busca as extremidades da rua, guiando-se pelas paredes ou então pelo meio fio, o que é perigoso. Ele anda com autonomia, mas sempre desconfiado. A cada 50 metros, esbarra em algum objeto ou pessoa desatenta no caminho. Andando pelo piso diferenciado que há na avenida Paulo Fontes, em frente ao Camelódromo, por exemplo, Elima esbarra em três placas de trânsito que indicam que é proibido parar e estacionar.

O problema maior são os orelhões e lixeiras, pois quando a bengala alcança a base do objeto, ele já bateu com a cabeça ou com o corpo. “Cego que nunca bateu, é difícil de achar. De orelhões e lixeiras não tem como escapar. A deficiência não é do individuo, mas sim do sistema. Se der condições iguais, a pessoa com deficiência produz igual a qualquer outra”, analisou Elima.”, analisou Elima.

A situação não é simples. O Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) não pode obrigar proprietários a mudarem o tipo de piso. Só notifica e solicita a alteração. Nas vias públicas, desde 2009 quando foi lançado um manual de acessibilidade, toda obra deve estar no padrão. A dificuldade é justificar a necessidade de mudanças. “Precisamos de elementos provocadores. É importante registrar quando as pessoas se sentem prejudicadas”, explicou o superintendente do Ipuf, José Carlos Rauen.

Piso fora dos padrões atrapalha

Além das dificuldades com os obstáculos, há outra questão a ser avaliada: nem todos os pisos estão dentro do padrão indicado. Deveria haver só dois tipos: o guia direcional, com frisos verticais, que servem para indicar o caminho a percorrer; e o alerta, caracterizado por pequenas bolinhas em alto relevo, com a finalidade de alertar, indicar que à frente há obstáculo.

O professor de orientação e mobilidade da Acic (Associação Catarinense para Integração do Cego), Igor Zucchi, 32 anos, explicou que alguns pisos têm bolas maiores, espaçadas, e acabam servindo como guia, mas confundem o deficiente visual. ”Os pisos servem para segurança. A pessoa deveria confiar que pode seguir em frente, mas é impossível”, explicou Zucchi.

Victoriano diz que invariavelmente se confunde. “A minha mobilidade na cidade é feita basicamente por referências e por um “mapa mental”, já estou acostumado com alguns trajetos e por isso consigo seguir sem maiores problemas”, relatou.

Trabalho é de conscientização

A responsabilidade pela fiscalização e instalação de placas na Capital é do Ipuf. No caso de lixeiras, é a Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital); e de orelhões, a SMDU (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano) e Sesp (Secretaria Executiva de Serviços Públicos).

Até 2009, não havia regulamentação na cidade sobre a acessibilidade. Por isso, muitos pisos eram instalados de maneira errada. Naquele ano, a SMDU e o Ministério Público lançaram um manual elaborado de acordo com a Norma Técnica Brasileira 9050/2004, que aponta o tipo de pintura, rampa e piso que deve ser utilizado em casa situação. Desde então, a secretaria e o Ipuf fazem um trabalho de conscientização.

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